Mistérios e Metáforas Religiosas

2008-04-14 / Filosofia, Mitologia, Religião / 0 Comments

MISTÉRIOS E METÁFORAS RELIGIOSAS

tradução de Laura Maria Elias

O Dr. Eugene C.Kennedy, famoso autor de livros sobre cristianismo e religião entrevistou Joseph Campbell (1904-1987) para a Revista do New York Times em 1979. A conversa deles se focou no simbolismo da Páscoa Judaica (Passover) e da Páscoa Cristã (Easter) e em como estes símbolos ressoam na Era Espacial. Ao editar um novo livro de Campbell sobre o assunto dos símbolos comuns às religiões ocidentais: Thou Art That: Transforming Religions Metaphors, o Dr.Kennedy escolheu esta entrevista (que foi originalmente publicada em 22 de abril de 1979) como epílogo. Thou Art That é o primeiro livro feito pela New World Library como parte da Coletânea de Trabalhos de Joseph Campbell. Para mais informações sobre o livro ou para adquiri-lo clique no link abaixo: www.jfc.org.

THOU ART THAT

EPÍLOGO: O NASCER DA TERRA (EARTHRISE)

NOTA INTRODUTÓRIA

No começo de 1979 Glenn Collins, então editor da New York Times Magazine, me pediu para entrevistar Joseph Campbell, a quem eu conhecia há vários anos, para a edição de Páscoa. Isso me deu uma oportunidade única de ter para mim mesmo um período maior de questionamento focado no assunto das festas religiosas relacionadas: Passover e Easter. Isso também permitiu uma discussão mais longa sobre um assunto sobre o qual já vínhamos debatendo, sobre a transformação de nossa consciência espiritual no alvorecer da Era Espacial. Nós passamos um frio dia inteiro de Fevereiro em seu apartamento próximo a Washington Square. O resultado que apareceu na edição do domingo de Páscoa sob o título “O Nascer da Terra (Earthrise)” chamou mais atenção sobre seu trabalho, conforme Campbell me confidenciou mais tarde, do que qualquer outra entrevista anterior e ainda chamou a atenção de Bill Moyers pela primeira vez. Esses foram felizes os resultados deste encontro que foi, nele mesmo, sua própria recompensa. Nele Joseph Campbel integra e expõe muito dos temas encontrados nas palestras de suas coletâneas. Desta forma, ele é uma conclusão em nada inadequada para esta obra.


Eugene C.Kennedy – Ph. D.

O NASCER DA TERRA

Apesar da palavra ser popularmente usada para denotar falsidade ou engano, mito é na verdade um veículo perene para a expressão da verdade. Os seres humanos sempre contaram, de forma mítica, as histórias que queriam lembrar e passar adiante – como as lendas arturianas ou os permanentes contos bíblicos – para diferenciá-los de modismos, manias ou de fatos em constantes mudanças como os dos almanaques ou do Livro dos Recordes. Mito e Símbolo são propriedades essenciais e fundamentais de todas as religiões; eles são a linguagem fundamental da experiência religiosa.

Joseph Campbell devotou sua vida ao estudo de ambos (mito e símbolo) detectando motivos e temas recorrentes nas variadas mitologias de diferentes culturas que sugerem numa única mola subjacente às experiências religiosas, que nutre a todas elas. Segundo Campbell o que parecem ser diferentes tradições religiosas são na verdade diferentes expressões da experiência unitária que é partilhada através de todas as culturas.

Autor de numerosos livros sobre religião e mitologia comparativas e ex-professor do Sarah Lawrence College em Bronxville, Nova York, Campbell é talvez mais conhecido pelo seu livro O Herói de Mil Faces publicado em 1949. Neste trabalho ele traçou as histórias de heróis ancestrais e contemporâneos, mostrando que seus desafios e experiências eram essencialmente os mesmos, que cada homem era, na verdade, todos os homens. O padrão que pôde ser percebido nestas histórias atemporais e nos símbolos mitológicos poderia, também, ser descoberto em nossas próprias vidas. Como Campbell disse uma vez a um entrevistador: “A última encarnação de Édipo ou o constante romance entre a Bela e a Fera está, esta tarde, na esquina da rua 42 com a Quinta Avenida, esperando pela luz para se transformar”.

A própria vida de Campbell está em paralelo com a mítica jornada e luta do herói à medida que ele encontrou tanto sua identidade quanto seu caminho na sabedoria que era verdade para ele. Um novaiorquino de descendência irlandesa católica ele foi cativado, quando garoto, pelo Show do Oeste Selvagem de Bufallo Bill e começou seus estudos e experiências pela cultura indígena. Gradualmente despertou para o sonho dos impregnantes temas mitológicos e foi chamado, como sentiu internamente, a uma longa peregrinação que o levou não apenas à sua própria graduação em romances arturianos na Universidade de Columbia, mas também a estudos europeus de filosofia oriental, religião, sânscrito, assim como aos trabalhos de Freud e Jung. Em todos, ele reconheceu os temas comuns que eram encontrados na cultura dos índios norte-americanos em seu assombro de juventude e na Igreja Católica de sua crença na infância.

Kennedy: “Mito” ainda é um termo confuso para muitas pessoas. Talvez nós pudéssemos começar explicando o termo mais detalhadamente.

Campbell: Mito tem muitas funções. A primeira que podemos denominar mítica é que os mitos fazem uma conexão entre nosso despertar de consciência e o mistério inteiro do universo.Esta é sua função cosmológica. Ele permite ver a nós mesmos em relação à natureza, conforme falamos em Pai Céu e Mãe Natureza. Existe também uma função sociológica para o mito, a medida em que ele suporta e valida uma certa ordem social e moral para nós. A história dos Dez Mandamentos dados a Moisés por Deus no Monte Sinai é um exemplo disto. Por ultimo, o mito tem uma função psicológica que nos oferece uma maneira de atravessar e lidar com os vários estágios desde o nascimento até a morte.

Kennedy: Você tem escrito sobre a dificuldade de um sistema de mitos ser capaz de falar para um mundo que se tornou tão variado! Os mitos dos caçadores e do pastoreio agrícola que um dia falaram para todos não se aplicam mais tão facilmente. Mas você também disse que com alguma reflexão nós podemos entender que as antigas histórias dos heróis e suas aventuras são as mesmas que nossa contemporânea busca por significados.

Campbell: Sim, os mitos saem da imaginação criativa que todos nós partilhamos e a história cada um de nós reconhece em sua própria busca que permeia todas as lendas de herói, como a dos Cavaleiros da Távola Redonda que deviam viajar a um mundo desconhecido e guerrear com os poderes das trevas de modo a poder retornar com o presente do conhecimento.

Kennedy: Nós estamos, de acordo com muitos observadores, num ponto de virada da consciência religiosa. Isto é, a estrutura mitológica – ou as lendas que embasam uma interpretação bíblica literal do universo – são severamente desafiadas pelas descobertas da Era Espacial.

Campbell: Sim, isso é exatamente o que está acontecendo e as conseqüências todos podem ver. Alguém poderia se lembrar, por exemplo, da verdade central a respeito da Páscoa Judaica e da Páscoa Cristã. Todos nós somos chamados a deixar o refúgio de nossas casas exatamente como os judeus foram chamados a deixar seu refúgio no Egito. Somos chamados a deixar nosso refúgio da mesma forma que a Lua se livra de sua sombra para emergir novamente, da mesma forma que a vida se livra das sombras da morte. Ambas as Páscoas possuem a mesma raiz; nós somos chamados para fora do refúgio de nossas velhas tradições. A Passover não é a Passover e a Easter não é a Easter a menos que elas nos libertem, até mesmo, das tradições que nos dão estas festas. Easter e Passover são os principais símbolos daquilo que nós estamos encarando com a Era Espacial. Nós estamos sendo desafiados tanto mítica quanto socialmente porque nossas idéias a respeito do universo foram reordenadas por nossa experiência no espaço. A conseqüência é que nós não podemos mais nos segurar nos símbolos religiosos que nós formulamos quando pensávamos que a Terra era o centro do universo.

Kennedy: Você está dizendo que o poder perene do mito é que ele pode projetar uma fórmula – como a noção Pré-copérnica da Terra aqui em baixo e do céu lá em cima – e ainda reter e renovar sua própria força. Isto significa que nós estamos experimentando a verdade mitológica em cada desafio de abandonar o entendimento religioso do universo, que é muito forte no imaginário judaico-cristão. E que ambas as Páscoas demandam que nós façamos isto.

Campbell: Ambas as Páscoas nos fazem sentir dentro de nós mesmos um chamado para fora do refúgio sim, mas apenas experimentar este chamado não destrói a tradição religiosa. Entender estes símbolos em seu sentido espiritual transcendente nos capacita a ver e a ter nossa religião de forma renovada. A Era Especial exige que mudemos nossas idéias sobre nós mesmos, mas nós queremos nos agarrar a elas. É por isso que há um ressurgimento da ortodoxia antiga em tantas áreas diferentes ultimamente. Não há horizonte no espaço e pode não haver horizonte em nossa própria experiência. Nós não podemos nos agarrar a nós mesmos ou aos nossos grupos íntimos como uma vez nós fizemos. A Era Espacial torna isso impossível, mas as pessoas rejeitam esta necessidade ou não querem pensar nela. Então elas se empurram de volta ás igrejas de verdade única, ao movimento black power, ou aos sindicatos, ou à classe capitalista.

Kennedy: Então a Era Espacial desafia tudo que nos torna centrados no planeta ou centrados em nossos grupos ou associações.

Campbell: Easter e Passover oferecem os símbolos perfeitos porque elas significam que estamos sendo chamados a uma nova vida. Esta nova vida não está bem definida. É por isso que queremos nos prender ao passado. A jornada para esta nova vida – e é uma jornada que todos nós devemos fazer – não poderá ser feita a menos que deixemos o passado para trás. A realidade da vida no espaço significa que nós nascemos de novo, não nascer novamente como dizem as antigas religiões, mas nascer para uma nova ordem de coisas. Nós estamos em queda livre para o futuro que é misterioso. Ele é muito fluido e isso está desconcertando muitas pessoas. Tudo que você precisa fazer é saber como usar um pára-quedas.

Kennedy: Um recado da verdade mitológica nos alerta para o fato de que na experiência da Páscoa nós não apenas nos lembramos de eventos históricos, mas que estamos experimentando dentro de nós ambas as Páscoas, que o que nós sentimos é o puxão da Era Espacial dentro de nossa própria consciência religiosa.

Campbell: Sim, nós podemos senti-lo dentro de nós. A Era Espacial, a qual muitas pessoas querem esquecer ou apagar como se fosse um mau investimento, é central nisso tudo. Quase quinze anos atrás nós tivemos o grande símbolo da mudança que está acontecendo hoje. Homens em pé na Lua e eles olharam para trás – e nós fomos capazes, através da televisão, de olhar para trás junto com eles – para ver o nascer da Terra. Este é o símbolo que nos permite sentir a verdade da descoberta que Copérnico fez 425 anos atrás. Até então nós podíamos até concordar teoricamente com Copérnico, mas seu mapa do universo não estava disponível para nós, exceto para matemáticos e astrônomos. Ele era uma idéia invisível e nós podíamos continuar pensando como realmente fizemos, sobre a noção religiosa na qual tudo se dividia ao longo das mesmas linhas em que a Terra e o céu se dividiam (em cima e em baixo).

Kennedy: Se o céu e a Terra estavam divididos, então também o estavam corpo e alma, natural e sobrenatural, carne e espírito. O universo estava ordenado de maneira hierárquica e da mesma forma estavam as Igrejas.

Campbell: Este modelo dividido nos permitiu pensar que havia uma ordem espiritual separada, ou dividida, de nossa própria experiência pessoal.Pense como nós falamos sobre as coisas sempre de acordo com este antigo modelo. Tudo era visto com olhos materiais. O sol nascia e se punha. Jesus parou o sol e a lua para ter tempo de terminar um sacrifício.

Com a caminhada na Lua o mito religioso que sustentou estas noções não poderá mais se sustentar. Com nossa visão do nascer da Terra nós pudemos ver que a Terra e os céus não estavam mais divididos, mas que a Terra Está nos céus. Não há divisão e todas as noções teológicas baseadas na distinção entre o céu e a Terra colapsaram com este entendimento.Há uma unidade no universo e uma unidade em nossas próprias experiências. Nós não podemos mais procurar uma ordem espiritual fora de nossas próprias experiências.

Kennedy: Isto confronta as velhas idéias de que nosso destino está sendo decidido”lá fora” pelos deuses.

Campbell: Ou que as estrelas são suas residências, presas em suas lanternas. Você ainda pode ver reminiscências destas idéias no desapontamento que muitas pessoas sentem quando nossa ciência prova que não há vida em Marte.

Kennedy: Não é verdade que Carl Jung uma vez disse que a declaração da Ascensão da Virgem Maria pela Igreja Católica de Roma era a declaração religiosa mais significante do século? Existe um lugar onde possamos ver a integração dos níveis literais e simbólicos dos relatos religiosos?

Campbell: Jung realmente disse isso e, é claro, ele estava apontando para a profundidade do significado simbólico, mais do que a literal, daquela doutrina. Literalmente, ela sugere um céu “lá em cima” para o qual um corpo possa subir. Mas esta é uma doutrina religiosa baseada na noção de um universo dividido. Simbolicamente, a mesma tradição sugere que isso significa o retorno da “Mãe Terra” para o céu, exatamente a mesma coisa que ocorreu devido às nossas jornadas para o espaço.

Kennedy: O nascer da Terra é um símbolo que está trabalhando lentamente seu caminho para dentro de nossas consciências. Nós o vemos em muitos lugares. A CBS News o usou durante muito tempo em seus noticiários do começo de noite. Estranhamente ele foi usado – em chamas, entretanto – para fazer a publicidade do filme O Extinto Planeta Terra que é um filme com enxofre e fogo sobre o final do mundo segundo a interpretação literal da Bíblia. Este uso do nascer da Terra parece um bom exemplo da resistência que você descreve à Era Espacial e à sua metáfora central.

Campbell: O sentido do apocalipse é muito amplo e eu acredito que ele seja uma rejeição aos novos tempos. É por isso que existe tanto interesse no desastre. É mais que apenas o arrepio causado pelo filme. É a evidência de quão profunda é a noção de que o momento é apocalíptico. Nós nos odiamos tanto que nos deleitamos na destruição das pessoas. É como gostar de ler o pior dos profetas na Bíblia.

A chegada do terceiro milênio deve acentuar isso. Nós podemos realmente esperar algumas das coisas que aconteceram com a chegada ao ano 1000 ocorram novamente. Isso está na mente de todo mundo em algum nível.

Nós não devemos entender o apocalipse literalmente, não como alguma destruição física ou como o julgamento do mundo. O reino é aqui. Ele (o reino) não virá através das expectativas. Alguém olha para o mundo e vê a radiância. A revelação da Páscoa está bem aqui. Nós não temos que esperar que algo aconteça. Assim, na Era Espacial, dois temas são evidentes. Nós devemos nos mover socialmente para um novo sistema de símbolos, porque os antigos não funcionam mais. Segundo, os símbolos, da maneira que são, quando interpretados espiritualmente ao invés de concretamente produzem a revelação.

O tema mítico da Era Espacial é este: o mundo, como nós o conhecemos, está no fim. O mundo como centro do universo, o mundo dividido a partir do céu, o mundo cercado por horizontes no qual o amor é reservado para os membros dos círculos íntimos: este é o mundo que está acabando. O apocalipse não aponta para um retumbante Armagedon, mas para o fato que a nossa ignorância e a nossa complacência está chegando ao fim. Nossa visão de um mundo dividido e esquizofrênico, sem uma mitologia adequada para coordenar nosso consciente e nosso inconsciente – isso é o que está chegando ao fim. O exclusivismo de haver apenas um caminho pelo qual nós possamos nos salvar, a idéia de que existe um único grupo religioso que possui a verdade – este é o mundo que conhecemos e que está acabando.O que é o “reino”? Ele está em nossa percepção da divina presença em nossos vizinhos, nossos inimigos, em todos nós.

Kennedy: Muito, então, do que nós identificamos como uma fortificação das tradições religiosas é uma rejeição a se encarar as demandas da Páscoa para se penetrar na Era Especial?

Campbell: A demanda central é a rendição de nosso exclusivismo, de qualquer coisa que nos coloque uns contra os outros. As pessoas têm usado as afiliações religiosas para fazer isso durante anos.Existem duas páginas de Martin Buber1 que praticamente glorificam sua reputação. Ele fala dos relacionamentos Eu-Tu e Eu-Isso. Um ego falando com um ”tu” é diferente de um ego falando com um “isso”. Os gentios, os judeus, o inimigo – todos eles se tornam a mesma coisa.

Kennedy: E sobre a etnicidade e a ênfase na pesquisa pelas raízes que é tão comum hoje em dia?

Campbell: É compreensível que as pessoas queiram pesquisar suas origens, principalmente após todo deslocamento e imigração do século passado. Porém uma super ênfase nisso, por mais compreensível que a idéia seja, é um sinal de retrocesso em direção aos grupos fechados. Por isso que nós vemos tantos movimentos que são intensamente nacionalistas ou, nos últimos anos no Irã, um que é quase xenofóbico, um desejo de voltar o relógio em milhares de anos e rejeitar o relacionamento com qualquer grupo de fora. Porém nossa mais moderna ferramenta está em nossa humanidade comum e não em nossa genealogia pessoal.

Kennedy: A noção de encarar o mundo de forma séria, apesar das notícias que temos tido pelo estudo da ecologia, ainda é muito assustadora.

Campbell: Isso significa que nós temos que abrir mão do que sabemos, daquilo com o qual nos sentimos confortáveis. As pessoas costumam retornar ao terreno que lhes é familiar.

Kennedy: Existe aqui uma explicação para o fascínio da liberação de poderes ou forças que venham “lá de fora”, indiferente se é o Super Homem vindo de Kripton ou visitantes em várias espaçonaves?

Campbell: Isto é um claro reflexo do entendimento antigo do universo, que nós seremos libertos (ou salvos) por alguns visitantes benignos, por poderes de outro planeta. Esta é a idéia do reino vindo de uma força que não seja de dentro de nós mesmos. O reino de Deus está dentro de nós, mas nós temos esta idéia de que os deuses agem de algum lugar “lá fora”.

Kennedy: Por isso nós temos a impressão de vermos os objetos voadores não identificados?2

Campbell: Isso é parte da mesma coisa. Como Jung escreveu, objetos voadores não identificados nos falam algo sobre as expectativas visionárias da humanidade. As pessoas esperam visitas (ou visitantes) de outro mundo. Eles pensam que nossa salvação virá de lá enquanto que a Era Espacial nos lembra que ela deverá vir de dentro de nós. As viagens pelo espaço exterior nos trazem de volta ao espaço interior.

Kennedy: Então filmes como Contatos Imediatos do Terceiro Grau são realmente histórias antigas. Eles não nos falam realmente sobre o futuro.

Campbell: Este filme é sobre o passado, não sobre o futuro. É a idéia de que nós seremos visitados por formas de vida amigáveis e que eles virão em nosso socorro e nos salvarão.

Kennedy: Então o fato de que tantas pessoas criativas, tantos criadores modernos de mito estão tentando lidar com o impacto da exploração espacial nos diz que eles sentem algo em suas entranhas sobre estas mudanças. Algum destes filmes capta o sentido disto que nós estamos falando?

Campbell: Eu acho que 2001 – Uma Odisséia no Espaço foi muito interessante pela maneira com a qual lidou com os símbolos. Você recorda, no início nós vemos uma comunidade de macacos parecidos com humanos, Australopitecus, rosnando e brigando uns com os outros. Mas existe um entre eles que é diferente, um que é atraído pela curiosidade a se aproximar e explorar, um que tem um senso de temor antes desconhecido. Este está separado (dos outros) e sozinho, imaginando diante de um painel de pedra misteriosamente em pé na paisagem. Ele o contempla e então de aproxima e o toca cuidadosamente, de forma parecida com a que os pés dos primeiros astronautas se aproximaram e tocaram o solo da Lua. A atração da curiosidade, você vê, é o que nos move para frente. Isto foi o que o diretor (do filme) reconheceu. Que havia uma continuidade através dos tempos deste princípio motivacional na evolução de nossa espécie. Então o painel é visto pelos astronautas mais tarde na Lua. E outra vez, flutuando no espaço, ainda misterioso.

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Kennedy: O ponto, então, não é nós questionarmos sobre o simbolismo literal das tábuas, mas deixá-las falarem conosco como símbolos. É isso que você quer dizer com símbolos religiosos.

Campbell: Sim, eles não representam fatos históricos. Um símbolo não aponta para algo apenas. Como escreveu Thomas Merton3 um símbolo contém a estrutura que desperta nossa consciência para uma nova percepção interna da vida e da própria realidade. Através dos símbolos nós entramos emocionalmente em contato com nossa essência mais profunda, com os outros e com Deus – uma palavra que deve ser entendida como um símbolo. Quando os teólogos falaram que Deus estava morto, há mais ou menos uma década, exatamente quando a Era Espacial começou, eles estavam realmente dizendo que seus símbolos estavam mortos.

Kennedy: Você vê uma distinção entre a religião baseada na interpretação histórica literal dos símbolos e a religião onde os símbolos são vistos como referências míticas que nos ajudam a ver a nós mesmos.

Campbell: Sim, a última é a religião do misticismo, a outra a religião da crença em objetos concretos, Deus como um objeto concreto. Para entendermos um símbolo completo nós devemos deixá-lo ir. Quando você pode deixar o significado literal da tradição religiosa morrer, então ela retorna renovada. E isso então o liberta para respeitar mais outras tradições religiosas. Você não precisa ter medo de perder algo quando você deixa a tradição ir (embora).

Kennedy: Algo parecido com isso não está acontecendo em alguns corpos religiosos? Na Igreja Católica Romana, por exemplo, muitas pessoas já não aceitam mais a autoridade dos clérigos em regularem suas vidas, mas ao mesmo tempo eles estarem mais próximos da tradição católica. Eles parecem possuí-la (a tradição) de uma nova forma.

Campbell: Sim, está acontecendo em muitos grupos. Muitas pessoas aprenderam a deixar os símbolos religiosos falarem diretamente a elas para dirigir suas vidas. Elas não acreditam que um grupo de bispos ou outros líderes religiosos possam se reunir em conferências e decidir por elas qual interpretação de um símbolo deve ser acreditada. Mas elas não rejeitam suas interpretações religiosas. Elas descobriram que símbolos, quando não são impostos literalmente, podem falar claramente à diversas tradições. As Igrejas precisam se perguntar: Nós vamos enfatizar o Cristo histórico ou a segunda pessoa da Santíssima Trindade, aquele que conhece o Pai? Se você enfatiza o histórico, você “desenfatiza” o poder espiritual que é o símbolo básico da consciência que está dentro de nós.

Kennedy: Não é desconcertante para uma pessoa re-examinar suas tradições religiosas desta forma?

Campbell: Sim, este é o problema de deixar a tradição morrer. O autor místico Meister Eckhart4 escreveu uma vez que a definitiva mudança é trocar Deus por Deus. As pessoas se apavoram com a idéia de que todos nós podemos ter algo em comum, que elas estão abrindo mão de algum tipo de exclusividade sobre a verdade. Isso é mais menos como você descobrir que é francês e um ser humano ao mesmo tempo.Exatamente este é o desafio que as grandes religiões enfrentam na Era Espacial.

Kennedy: Então, nesta queda livre para o futuro, o entendimento de nossos símbolos religiosos é amaneira de usarmos nosso pára-quedas. E sobre o que os símbolos religiosos cultuam?

Campbell: Bem, eles deveriam ser respeitados, mas freqüentemente não são. Os pastores (e padres) acham que devem explicá-los invés de deixá-los falar por eles mesmos. Por isso a destruição da Liturgia Católica em nome de reformas foi um desastre. Foi um esforço de tornar símbolos e rituais ancestrais mais racionais. E eles dispensaram os cantos gregorianos e outras grandes conquistas simbólicas no processo; eles negaram os símbolos religiosos que, sem necessidade de meditação, falavam diretamente às pessoas. O antigo ritual da missa falava poderosamente às pessoas. Agora o celebrante exerce uma espécie de função do tipo Julia Child5 no altar.

Kennedy: A justificativa foi que seria uma coisa razoável a se fazer. Mas o culto (ou a adoração a Deus) não é razoável neste modelo. Você escreveu que parte de nossa perda da sensação de significado, nossa experiência de desolação é devido ao fato de termos perdido nossas conexões com o entendimento mítico de nossas vidas.

Campbell: O problema é que as religiões institucionalizadas não permitem que os símbolos falem diretamente às pessoas em seu sentido intrínseco. As tradições religiosas traduzem os sinais mitológicos como referências a acontecimentos históricos, embora eles adequadamente provenham da imaginação humana e respondam ao psiquismo (ou à psique). Eventos históricos acabam revestidos de significados espirituais por serem interpretados mitologicamente, como por exemplo, com o nascimento por virgens, ressurreições e a miraculosa travessia do Mar Vermelho. Quando você traduz ou interpreta a Bíblia com uma literalismo excessivo você a “desmitifica”. A possibilidade de uma referência convincente à experiência espiritual de cada um (de nós) está perdida.

Kennedy: Como você definiria mitologia?

Campbell: Minha definição favorita de mitologia: a religião das outras pessoas. Minha definição favorita de religião: mitologia mal entendida. O mau entendimento consiste na interpretação dos símbolos mitológicos espirituais, imaginando que eles sejam primariamente referências a eventos históricos. Leituras provinciais localizadas separam as comunidades religiosas. A “remitologização” – a recaptura do significado mitológico – revela uma espiritualidade comum à humanidade. Na Páscoa Cristã, para voltar ao nosso exemplo, nós poderíamos sugerir a renovação do conhecimento de nossa vida espiritual em geral jogando fora, por um momento, as nossas várias conexões históricas.

Kennedy: A “remitologização”, então, resgataria as histórias bíblicas do literalismo histórico e da susceptibilidade ao descrédito. Nós podemos conectar isso ao exemplo da experiência da Páscoa? E a cruz e a crucificação?

Campbell: Se nós pensarmos na crucificação apenas em termos históricos, imediatamente perdemos a referência do símbolo para nós mesmos. Jesus deixou seu corpo mortal na cruz, que é o símbolo da terra, para ir com o Pai com o qual ele era um. Nós, similarmente, vamos nos identificar com a vida eterna que está dentro de nós. O símbolo nos fala ao mesmo tempo da aceitação da cruz como vontade de Deus – o que significa dizer participação nas experiências e aflições da vida humana no mundo. Então Ele está aqui, dentro de nós – não devido a alguma queda ou erro, mas com entusiasmo e alegria. Assim, a cruz tem um duplo sentido – um, nossa ida para o divino,e outro, a vinda do divino para nós. Esta é a verdadeira cruz (ou o verdadeiro cruzamento, fazendo um jogo de palavras).

Kennedy: E sobre os símbolos da Páscoa Judaica e Cristã? Como poderia alguém, como você disse, abandoná-los para voltar a retomá-los, nesta primeira geração da Era Espacial?

Campbell: O que é básico na ressurreição, ou Páscoa Cristã é a crucificação. Se você quer ressuscitar, você tem que ter a crucificação. Várias interpretações da crucificação têm falhado em enfatizar isso. Elas enfatizam a calamidade do evento. E se você enfatiza a calamidade, então você procura alguém para colocar a culpa. É por isso que as pessoas têm culpado os judeus por isso. Mas ela (a crucificação) não é uma calamidade se ela conduz a uma nova vida. Através da crucificação nós estávamos abertos, nós estávamos habilitados para nascer para a ressurreição. Isso não é uma calamidade. Nós precisamos olhar de uma nova maneira para isso e então seu simbolismo pode ser sentido.

Santo Agostinho diz para irmos para a crucificação como o noivo vai para a noiva. Há uma afirmação aqui. No Museu do Prado há uma pintura de Ticciano de Simão Cirineu carinhosamente ajudando Jesus com a cruz.a pintura captura a participação humana, a liberdade, a participação voluntária que todos nós devemos ter no mistério da Páscoa.

Kennedy: Então a pessoa deve sair de suas tradições para vê-las claramente outra vez.

Campbell: Isso é o que nós somos desafiados a fazer. A autopreservação é apenas a segunda lei da vida. A primeira é que você e o outro são um. Políticos adoram falar “Eu adoro à minha maneira e ele adora à maneira dele. Mas isso não faz sentido se nós somos um com o outro. Esta é a verdade que a Era Espacial urge para nós, mas muitas instituições religiosas resistem a ela.

Kennedy: Talvez nós possamos explorar o simbolismo da Páscoa com mais detalhes. Estas festas, calculadas de acordo com a lua cheia, têm muito em comum.

Campbell: Aqui nós temos temas muito parecidos nas tradições judaica e cristã.O tema é encontrado também em religiões misteriosas nas quais Adonis morre e é ressuscitado.

Kennedy: E todas elas acontecem na primavera, combinando com o surgimento das flores e o retorno do sol. Até a tristeza melancólica que experimentamos nesta estação pode se relacionar com isso.

Campbell: Sim, é bem a nostalgia de renascer com a natureza. Todos estes elementos se encaixam. A Páscoa Cristã é calculada como sendo o domingo que segue a primeira lua cheia após o equinócio primaveril. Isto é evidência da preocupação secular anterior a Cristo para coordenar os calendários solar e lunar. O que nós temos que reconhecer é que estes corpos celestiais representavam para os (nossos) ancestrais dois modos diferentes de vida eterna, um ligado ao campo do tempo, livrando-se da morte, assim como a Lua livra-se de sua sombra, para nascer novamente; o outro desligado (do tempo) e eterno. A datação da Páscoa de acordo com ambos os calendários sugere que a vida, como a luz que renasce na Lua e é eterna no Sol, finalmente é a mesma.

Kennedy: E sobre alguns símbolos folclóricos da Páscoa Judaica e Cristã? Todos eles têm ressonâncias com o calendário lunar e solar?

Campbell: Há, para começarmos, o coelho. O coelho pascal.Muitas pessoas pelo mundo vêem um coelho nas sombras da Lua. O coelho está associado com a morte e a ressurreição da lua. O ovo é descascado pela criança como a sombra da Lua o é pela lua renascida, ou como a lama pelo renascimento do espírito na Páscoa.

Pássaros em vôo são o simbolismo do espírito libertado da escravidão da terra. Então o coelho da luz, o descascar dos ovos e o pássaro jovem que vai voar nos dão, todos juntos, uma leitura alegre e pura da mensagem da Páscoa.

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Isto foi desenhado no dia em que Campbell, com um largo sorriso de um guarda irlandês, retornou a suas reflexões sobre o espaço. As paredes do apartamento pareciam deslizar para longe como um teto de planetário e ele se levantou, um garoto dos arreadores de New York que havia assistido o primeiro e titubeante vôo de Glen Curtiss sobre Riverside Drive 6 70 anos atrás; Merlin em pé, apontando os portões do cosmos.

Campbell: O problema é que as pessoas têm procurado olhar para longe do espaço e do significado da aterrissagem na Lua. Eu me lembro de ter visto uma figura de um astronauta em pé na Lua. Ela estava em Yale e alguém rabiscou nela “E daí?”. Esta é uma arrogância vinda de um tipo de acadêmicos limitados, que é freqüentemente vista. Ela está presa na armadilha de seus próprios preconceitos, em suas próprias categorias caducas. É a mente embotada para a poesia da existência. Está na moda agora exigir algum retorno financeiro do espaço, alguma recompensa que prove que tudo valeu a pena. Aqueles que dizem isso lembram as criaturas parecidas com macacos de 2001. Eles (os macacos) estão lutando por alimento entre si enquanto um deles se separa dos outros e vai até o monólito, motivado pelo temor. Este é o ponto que nós estamos perdendo. Ele (o macaco que se separou) é aquele que evolui para um ser humano: ele é aquele que entende o futuro.

Tem havido cortes no orçamento do programa espacial. Nós damos de ombros, mas lá é onde nós vivemos. Não è “lá fora”. E o grande símbolo permanece, a magnífica visão da nascer da Terra. O nascer da Terra é como todos os símbolos. Eles lembram um compasso. Uma ponta está em um ponto fixo, mas a outra se move para o desconhecido. O medo do desconhecido, esta queda livre para dentro do futuro, podem ser detectados a nossa volta. Mas nós vivemos nas estrelas e nós somos finalmente movidos pelo temos em direção a nossa maior aventura. O reino de Deus está dentro de nós. As Páscoas judaica e cristã, particularmente, nos lembram que nós temos que abandonar para entrarmos.

1(NT) Martin Buber (1878-1965), nasceu em Viena. De origem judaica, o filósofo foi o primeiro professor de uma cátedra de Judaísmo na Universidade de Frankfurt. Com a ascensão do nazismo, abandonou a cátedra e mudou –se para Jerusalém, onde passou a lecionar como professor da Universidade Hebraica. A obra de Buber, destacada no livro Eu e Tu, centra-se na afirmação das relações interpessoais e comunitárias da condição humana. “Buber desenvolve uma proposição antropológico-filosófica muito simples e profundamente verdadeira: o ser humano é primordialmente um ser relacional antes de se institucionalizar como um ser social, político ou econômico”, explica Bartholo.

Os Relacionamentos Sob a Ótica do Filósofo

Segundo Buber, estas formas institucionalizadas de relacionamento se assentam numa base prévia, denominada no jargão filosófico como “ontologia” relacional. Existem para a antropologia filosófica buberiana dois modos relacionais básicos: o modo relacional eu-tu e o modo relacional eu-isso. O primeiro é imediato, interpessoal, face a face, primário. O segundo se aplica às relações indiretas, mediadas por funcionalidades, papéis e conceitos, que as pré-determinam e fixam no quadro já conhecido. “No mundo contemporâneo vivemos um crescimento exponencial das relações do tipo eu-isso, e uma carência cada vez maior de espaço para as relações do tipo eu-tu. Um risco para nossa humanidade, que Buber já alertava em 1920, pois não há condição de possibilidade de exercício e aprendizado de uma vida ética quando as relações do tipo eu-tu são apagadas de nossas existências”, explica o pesquisador.

2 (NT) Vale lembrar que em Inglês UFO e Discos Voadores são empregados com o mesmo significado. A diferenciação entre os termos que causa tanta polêmica aqui no Brasil ainda é muito pouco discutida nos EUA.

3 (NT) Thomas Merton (1915-1968), monge trapista desde 1941, tornou-se escritor espiritual e místico, autor de mais de uma centena de livros. Cerca de 40 deles foram lançados em português. Um deles é sua autobiografia “A montanha dos sete palmares”, que já foi traduzido para 28 línguas. É dele também o livro “Homem Algum é uma Ilha”

4(NT) - Mestre Eckhart (1260-1328), domiciano, místico alemão, é considerado um dos
inciadores da filosofia em língua alemã já que parte de sua obra, em
particular, os Sermões, é escrita neste idioma, contribuindo para a fixação
de uma língua filosófica e teológica. A temática central de Eckhart explora
um pensamento teocêntrico.
Segundo Eckhart, a mística
é um fenômeno universal. Trata-se de uma experiência imediata de Deus ou
simplesmente do Uno: é a unidade do mundo com o Supremo Princípio.

Para texto completo sobre Eckhart consulte: http://www.odialetico.hpg.ig.com.br/filosofia/eckhart.htm

5(NT) - Julia Child : Verdadeira lenda nos Estados Unidos, entrou no universo gourmet aos 50 anos, em 1963, com o programa de televisão The French Chef, em que ensinava clássicos franceses fazendo-os parecer muito fáceis de preparar. O bom humor era uma das marcas registradas de Julia, autora de uma dezena de livros que são referência para gerações de cozinheiros, amadores e profissionais. Ela também participou da fundação de importantes instituições, o American Institute of Wine and Food e a James Beard Foundation. Irreverente, fez de sua vida um convite à alegria e ao prazer de comer e beber. Faleceu em agosto de 2004 aos 92 anos.

6 (NT) Piloto americano considerado, em 1907, o ”homem mais rápido do mundo”. Mais em http://www.linkny.com/~curtiss/

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A Metafísica Grega e a Cristã

2007-07-14 / Filosofia, Mitologia, Religião / 0 Comments

Zeus

Embora a metafísica crist㣠seja uma reelaboração da metafísica grega, muitas das ideias gregas não poderiam ser aceitas pelo cristianismo. Vejamos alguns exemplos:

- para os gregos, o mundo (sensível e inteligível) é eterno; para os cristãos, o mundo foi criado por Deus a partir do nada e terminará no dia do Juí­zo Final.

- para os gregos, a divindade é uma força cósmica racional impessoal; para os cristãos, Deus é pessoal, é a unidade de três pessoas e por isso é dotado de intelecto e de vontade, como o homem, embora superior a este, porque o intelecto divino é onisciente (sabe tudo desde toda a eternidade) e a vontade divina é onipotente (pode tudo desde toda a eternidade);

- para os gregos, o homem é um ser natural, dotado de corpo e alma, esta possuindo uma parte superior e imortal que é o intelecto ou razão; para os cristãos, o homem é um ser misto, natural por seu corpo, mas sobrenatural por sua alma imortal;

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- para os gregos, a liberdade humana é uma forma de ação, isto é, a capacidade da razão para orientar e governar a vontade, a fim de que esta escolha o que é bom, justo e virtuoso; para os cristãos, o homem é livre porque sua vontade é uma capacidade para escolher tanto o bem quanto o mal, sendo mais poderosa do que a razão e, pelo pecado, destinada à perversidade e ao vício, de modo que a ação moral só será boa, justa e virtuosa se for guiada pela fé e pela Revelação;

- para os gregos, o conhecimento é uma atividade do intelecto (o êxtase mí­stico de que falavam os neoplatônicos não era algo misterioso ou irracional, mas a forma mais alta da intuição intelectual); para os cristãos, a razão humana é limitada e imperfeita, incapaz de, por si mesma e sozinha, alcançar a verdade, precisando ser socorrida e corrigida pela fé e pela Revelação.

Essas diferenças e muitas outras que não foram mencionadas aqui acarretaram muitas mudanças na metafí­sica herdada dos gregos.

(Trecho extraí­do do livro Convite à Filosofia de Marilena Chauí­)

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O Tempo no Candomblé

2007-01-03 / Filosofia, Mitologia, Religião / 0 Comments

Iemanjá

O texto abaixo é um trecho de uma conferência proferida pelo professor Reginaldo Prandi, estudioso das religiões afro-brasileiras, em virtude da entrega do Prêmio Érico Vanucci Mendes. Nessa conferência, o professor Prandi trata, entre outras coisas, da questão do tempo na sociedade iorubana tradicional, nos rituais de Candomblé e na sociedade capitalista.

Para o pensador africano John Mbiti, enquanto nas sociedades ocidentais o tempo pode ser concebido como algo a ser consumido, podendo ser vendido e comprado, como se fosse mercadoria ou serviço potenciais – dizemos ‘tempo é dinheiro!’ -, nas sociedades africanas tradicionais o tempo tem que ser criado ou produzido, acrescentando Mbiti que “o homem africano não é escravo do tempo, mas, ao invés disso, ele produz tanto tempo quanto queira”. Ele comenta que, por não conhecerem essa concepção, muitos estrangeiros ocidentais não raro julgam que os africanos estão sempre atrasados naquilo que fazem, enquanto outros dizem: “Ah! Esses africanos ficam aí sentados desperdiçando seu tempo na ociosidade” (Mbiti, 1990: 19). (…)


Nas palavras do nigeriano Wole Soyinka, prêmio Nobel de literatura, “o pensamento tradicional opera não uma sucessão linear de tempo mas uma realidade cíclica” (Soyinka, 1995: 10). Por isso, o tempo escalar, que se mede matematicamente, podendo ser somado, subtraído, dividido etc., não faz nenhum sentido para o pensamento africano tradicional. Para os ocidentais, o tempo é uma variável contínua, uma dimensão que tem realidade própria, que independe dos fatos, de tal modo que são os fatos que se justapõem à escala do tempo. É o tempo da precisão, que objetiva o cálculo, que viabiliza a projeção e fundamenta a racionalidade – tempo da ciência histórica e da modernidade. Nessa escala ocidental do tempo, os acontecimentos são enfileirados uns após outros, em seqüências que permitem organizá-los como anteriores e posteriores, uns como causa e outros como conseqüência, construindo-se uma cadeia de correlações e causações que conhecemos como história.

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Para os africanos tradicionais, contudo, o tempo é uma composição dos eventos que já aconteceram ou que estão para acontecer imediatamente. É a reunião daquilo que já experimentamos como realizado, sendo que o passado, imediato, está intimamente ligado ao presente, do qual é parte, enquanto que o futuro, imediato, nada mais é que a continuação daquilo que já começou a acontecer no presente, não fazendo nenhum sentido a idéia do futuro como acontecimento remoto desligado de nossa realidade imediata. O futuro que se expressa na repetição cíclica dos fatos da natureza, como as estações, as colheitas vindouras, o envelhecer de cada um, é repetição do que já se conheceu, viveu e experimentou, não é futuro. Não há sucessão de fatos encadeados no passado distante, nem projeção do futuro; a idéia de história como a conhecemos no Ocidente não existe; a idéia de fazer planos para o futuro, de planejar os acontecimentos vindouros, é completamente estapafúrdia. Se o futuro é aquilo que não foi experimentado, ele não faz sentido nem pode ser controlado, pois o tempo é o tempo vivido, o tempo acumulado, o tempo acontecido.


Para os iorubás e outros povos africanos, os acontecimentos do passado estão vivos nos mitos, que falam de grandes acontecimentos, atos heróicos, descobertas e toda sorte de eventos dos quais a vida presente seria a continuação. Ao contrário da narrativa histórica, os mitos nem são datados nem mostram coerência entre si. Cada mito atende a uma necessidade de explicação tópica e justifica fatos e crenças que compõem a existência de quem o cultiva, o que não impede a existência de versões conflitantes, quando os fatos e interesses a justificar são diferentes. O mito fala do passado remoto que explica a vida no presente, mais que isso, que se refaz no presente. O tempo mítico expressa o passado distante, e fatos separados por um intervalo de tempo muito grande podem ser apresentados nos mitos como ocorrências de uma mesma época, concomitantes. Cada mito é autônomo e os personagens de um podem aparecer num outro mito com outras características e relações, às vezes contraditórias com as primeiras. Os mitos são narrativas parciais e sua reunião não propicia o desenho de nenhuma totalidade, pois não existe um fio narrativo na mitologia, como aquele que norteia a construção da história para os ocidentais. No mundo mítico, os eventos não se ajustam a um tempo contínuo e linear. O tempo do mito é o tempo das origens, e parece existir um tempo vazio entre o fato contado pelo mito e o tempo do narrador.


Para os iorubás, os mortos devem reencarnar e, enquanto esperam pelo renascimento, habitam o mundo dos que vão nascer, que é próximo do mundo aqui-e-agora, o mundo em que vivemos, o Aiê. Esse mundo do futuro imediato é atado ao presente pelo fato de que aquele que vai nascer de novo tem que permanecer vivo na memória de seus descendentes, participando de suas vidas e sendo por eles alimentados nos ritos sacrificiais, até o dia de seu renascimento como um novo membro de sua própria família. Para o homem, o mundo das realizações, da felicidade, da plenitude é o mundo do presente, o Aiê, não havendo prêmio nem punição no mundo dos que vão nascer, o mundo dos mortos, pois ali nada acontece. Os homens e mulheres pagam por seus crimes em vida e são punidos pelas instâncias humanas. As punições impostas aos humanos pelos deuses e antepassados por causa de atos maus igualmente não o atingem após a morte, mas se aplicam a toda a coletividade à qual o infrator pertence, e isso também acontece no Aiê, numa concepção ética que está focada na coletividade e não no indivíduo (Mbon, 1991: 102), não existindo a noção ocidental cristã de salvação no outro mundo nem a idéia de pecado. O outro mundo habitado pelos mortos é temporário, transitório, voltado para o presente dos humanos. Nem mesmo a vida espiritual tem expressão no futuro. Os mortos ilustres – fundadores de troncos familiares e de cidades, heróis, reis, conquistadores, grandes sacerdotes – podem vir a ser cultuados como antepassados, os egunguns, passando a habitar o passado mítico, o passado distante localizado no Orum, onde vivem os deuses orixás, dos quais muitos são antigos heróis divinizados, cujo culto se desprendeu dos limites da família e se generalizou, sendo incorporados ao passado mítico de todo um clã, uma cidade, um povo, podendo vir a ter altares erigidos em sua homenagem até mesmo do outro lado do oceano, como aconteceu com muitos orixás na América.


O passado remoto da narrativa mítica, que trata dos orixás e dos antepassados, é transmitido de geração a geração, por meio da oralidade, é ele que dá o sentido geral da vida para todos e fornece a identidade grupal e os valores e normas essenciais para a ação naquela sociedade, confundindo-se plenamente com a religião. Ensina Prigogine, prêmio Nobel de física, que o tempo cíclico é o tempo da natureza, o tempo reversível, e também o tempo da memória, o tempo mítico que não se perde, mas que se repõe. O tempo da história, em contrapartida, é o tempo irreversível, um tempo que não se liga nem à eternidade e nem ao eterno retorno. O tempo do mito e o tempo da memória descrevem um mesmo movimento de reposição: sai do presente, vai para o passado e volta ao presente, em que o futuro é apenas o tempo necessário para a reencarnação, o renascimento, o começar de novo. A religião é a ritualização dessa memória, desse tempo cíclico, ou seja, a representação no presente, através de símbolos e encenações ritualizadas, desse passado que garante a identidade do grupo – quem somos, de onde viemos, para onde vamos? É o tempo da tradição, da não mudança, da religião, a religião como fonte de identidade que reitera no cotidiano a memória ancestral. No candomblé, emblematicamente, quando o filho-de-santo entra em transe e incorpora um orixá, assumindo sua identidade, que é representada pela dança característica que lembra as aventuras míticas dessa divindade, é o passado remoto, coletivo, que aflora no presente para se mostrar vivo, o transe ritual repetindo o passado no presente, numa representação em carne e osso da memória coletiva.



Para os iorubás, uma vez que tudo é repetição, nada é novidade, aquilo que nos acontece hoje e que está prestes a acontecer no futuro imediato já foi experimentado antes por outro ser humano, por um antepassado, pelos próprios orixás. O oráculo de Ifá, praticado pelos babalaôs, baseia-se no conhecimento de um grande repertório de mitos que falam de toda sorte de fatos acontecidos no passado remoto e que voltam a acontecer, envolvendo personagens do presente. É sempre o passado que lança luz sobre o presente e o futuro imediato. Conhecer o passado é deter as fórmulas de controle dos acontecimentos da vida dos viventes. Esse passado mítico, que se refaz a cada instante no presente, é narrado pelos odus do oráculo de Ifá, preservados no Brasil pelo jogo de búzios das mães e pais-de-santo dos candomblés. O jogo de búzios é a leitura do tempo mítico que se refaz no presente. É olhar o presente com os olhos no passado.


A essa concepção africana de tempo estão intimamente associadas as idéias de aprendizado, saber, competência e hierarquia que podemos observar no candomblé. Para os africanos tradicionais, o conhecimento humano é entendido, sobretudo, como resultado do transcorrer inexorável da vida, do fruir do tempo, do construir da biografia. Sabe-se mais porque se é velho, porque se viveu o tempo necessário da aprendizagem. A aprendizagem não é uma esfera isolada da vida, como a nossa escola ocidental, mas um processo que se realiza a partir de dentro, participativamente. Aprende-se à medida que se faz, que se vive. Com o passar do tempo, os mais velhos vão acumulando um conhecimento a que o jovem só terá acesso quando tiver passado pelas mesmas experiências. Mesmo quando se trata de conhecimento especializado, o aprendizado é por imitação e repetição. As diferentes confrarias profissionais, especialmente as de caráter mágico e religioso, dividem as responsabilidades de acordo com a senioridade de seus membros e estabelecem ritos de passagem que marcam a superação de uma etapa de aprendizado para ingresso em outra, que, certamente, implica o acesso a novos conhecimentos, segredos ou mistérios da confraria.

Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.

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As Palavras e as Coisas

2006-07-21 / Filosofia, Psicologia / 1 Comments

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Nietzsche era filólogo e, como não poderia deixar de ser, filosofou e escreveu sobre a relação entre as palavras e as coisas. No excerto abaixo, ele faz o que hoje chamaríamos de metalinguagem, ou seja, o uso consciente da linguagem para falar sobre a própria linguagem e seu funcionamento. Em nosso dia-a-dia, usamos tantas palavras, tais como ser, Deus, mitologia, religião, amor, vingança e tantas outras que raramente paramos para pensar sobre seu real significado ou sobre a relação delas com aquilo que designam.


Ressonância. Todo estado de espírito intenso traz consigo uma ressonância de sentimentos e ânimos relacionados; e parecem estimular a memória. Alguma coisa em nós se lembra e se torna consciente de estados semelhantes e sua origem. Dessa maneira, associações rápidas de sentimentos e pensamentos são formadas e, quando seguem umas as outras à velocidade da luz, não são mais sentidas como complexos, mas como unidades. Neste sentido, pode-se falar em sentimentos morais, sentimentos religiosos, como se fossem todos unidades; na verdade, são rios com milhares de nascentes e afluentes. Como é sempre o caso, a unidade da palavra não garante a unidade da coisa.

(Texto traduzido por mim. O original está aqui.)

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O Ilógico Necessário

2006-06-30 / Filosofia, Mitologia, Psicologia / 4 Comments

Fausto

Felizmente nem tudo podemos apreender ou compreender através da lógica. Em todas as formas de arte, da música à dança, da literatura ao teatro, nem tudo é apenas técnica ou lógica. A emoção e o acaso também fazem parte da estrutura dessas atividades. Com a religião também não poderia ser diferente. Ela também tem seu lado lógico e racional, mas esta é apenas uma, talvez a menor, das várias facetas que possui.


Dizem que os filósofos devem ter um pensar lógico como instrumento principal de sua ocupação, o que poderia levá-los a exaltar a razão, como já foi feito. Todavia, o filósofo alemão Nietzsche soube reconhecer o papel fundamental do ilógico na vida humana.

O ilógico necessário. Entre as coisas que podem levar um pensador ao desespero é a consciência de que o ilógico é necessário ao ser humano e que coisas boas advém dele. Ele está tão firmemente alojado nas paixões, na fala, nas artes, na religião, e geralmente em tudo que dota a vida de valor que ninguém poderia extirpá-lo sem causar danos irreparáveis à beleza dessas coisas. Somente os ingênuos são capazes de pensar que a natureza do homem pode ser transformada numa natureza puramente lógica; e, se houvesse graus de aproximação a esse objetivo, quanto não teria de perecer em seu encalço ! Até mesmo o homem mais racional precisa da natureza de vez em quando, ou seja, de uma atitude básica e ilógica perante todas as coisas.

(O texto acima foi traduzido por mim. O original está aqui.)

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Biografia de Joseph Campbell

Joseph Campbell

Há pouco mais de um século, no dia 26 de março de 1904, nasceu Joseph John Campbell em White Plains, NY. Joe, como veio a ser conhecido, foi o primeiro filho de um casal católico de classe média, Charles e Josephine Campbell.
Os primeiros anos de Joe foram bem comuns mas, quando ele fez sete anos de idade seu pai o levou com seu irmão mais novo, Charlie, para ver um show do Velho Oeste de Búfalo Bill. Aquele anoitecer foi um ponto alto na vida de Joe pois, embora os vaqueiros fossem as estrelas do show, como Joe escreveria mais tarde, ele ficou fascinado, arrebatado e obcecado pela figura de um índio americano nú com o ouvido para o chão, um arco e flecha em sua mão e um olhar de sapiência.


Foi Arthur Schopenhauer, o filósofo cujos escritos teriam uma grande influência sobre Campbell, que observou que

as experiências e iluminações da infância e da mocidade se tornam, no decorrer da vida, os tipos, os padrões e os modelos de todo o conhecimento e experiência subseqüentes ou, de certo modo, as categorias segundo as quais todas as coisas vindouras serão classificadas, embora nem sempre conscientemente. Dessa forma, em nossa infância, a fundação de nossa visão de mundo é firmada, assim como sua superficialidade ou profundidade: ela será, com o passar do tempo, lapidada e acabada, mas nunca alterada em sua essência.

E assim foi com o jovem Joseph Campbell. Até mesmo enquanto ele ativamente praticava (até os vinte anos) a fé de seus antepassados, embebia-se da cultura ameríndia; e sua visão de mundo foi praticamente formada pela tensão dinâmica daquelas duas perspectivas mitológicas. Por um lado, ele se aprofundou nos rituais, símbolos e na rica tradição de sua herança católica irlandesa; de outro lado, estava obcecado com os povos primitivos (ou, como veio a preferir, “primevos”) e a experiência direta deles com o que ele veio a chamar de “a revelação dinâmica continuamente criada de um mysterium tremendum et fascinans absolutamente transcendente mas universalmente imanente que é, ao mesmo tempo, a base de todo o espetáculo e de cada um.”
Aos dez anos de idade, Joe já havia lido todos os livros sobre os ameríndios na seção infantil da biblioteca local e teve acesso à área para adultos, onde ele finalmente leu todo o multi-volumoso Relatórios da Agência de Etnologia Americana. Trabalhou com cintos de conchas usados pelos índios como ornamento ou dinheiro, iniciou sua própria “tribo” (os Lenni-Lenape) e freqüentou o Museu Americano de História Natural onde ficou fascinado com totens e máscaras, assim começando uma duradoura consulta na vasta coleção daquele museu.
Depois de passar boa parte de seus treze anos se recuperando de uma doença respiratória, Joe freqüentou Iona, uma escola particular em Westchester, Nova Iorque, por um breve período, antes de sua mãe matriculá-lo em Canterbury, um internato católico em New Milford, CT. Esse período na escola secundária foi rico e gratificante, embora marcado uma uma grande tragédia: em 1919, a casa dos Campbell foi consumida por um incêndio que matou sua avó e destruiu todos os haveres da família.
Joe formou-se em Canterbury em 1921, e em setembro entrou no Dartmouth College; logo desiludido com a cena social e desapontado com a falta de rigor acadêmico, transferiu-se para a Universidade Columbia onde ele se sobressaiu: enquanto se especializava em literatura medieval, tocava numa banda de jazz e se tornou um velocista reconhecido. Em 1924, enquanto estava numa viagem num navio a vapor com destino à Europa, encontrou-se e tornou-se amigo de Jiddu Krishnamurti, o jovem messias-eleito da Sociedade Teosófica, assim iniciando uma amizade que se renovaria intermitentemente pelos próximos cinco anos.
Depois de se formar como B.A. (Bacharel em Artes) em Columbia (1925) e de conseguir o título de Master of Arts (1927) por seu trabalho em Estudos Arturianos, Joe foi agraciado com uma bolsa (Proudfit Traveling Fellowship) para continuar seus estudos na Universidade de Paris (1927-28). Então, depois de ter recebido e recusado uma oferta para lecionar numa escola, sua bolsa foi renovada e ele foi à Alemanha para continuar seus estudos na Universidade de Munique (1928-29).
Foi nesse período na Europa que Joe foi inicialmente exposto aos mestres modernistas, como o escultor Antoine Bourdelle, Pablo Picasso e Paul Klee, James Joyce e Thomas Mann, Sigmund Freud e Carl Jung, cujas arte e insights iriam influenciar significativamente sua própria obra. Esses encontros o levariam a teorizar que os mitos são produtos criativos da psiquê humana, que os artistas são os fazedores de mitos da culturas, e que mitologias são manifestações criativas da necessidade humana de explicar realidades psicológicas, sociais, cosmológicas e espirituais.
Quando voltou da Europa no fim de Agosto de 1929, ele encontrou-se num dilema: a indecisão sobre o que fazer na vida profissional. Com o advento da Grande Depressão, não conseguia um emprego para lecionar; então, passou grande parte do próximos dois anos contactando-se com sua família, lendo, renovando velhas amizades e escrevendo volumosos verbetes em seu diário. No fim de 1931, após pesquisar e rejeitar a possibilidade de um programa de doutorado ou um cargo de professor em Columbia, ele decidiu, como incontáveis jovens antes e depois, “cair na estrada” e empreender uma viagem através do país, na qual tinha a esperança de conhecer “a alma da América” e, nesse processo, talvez desvendar o objetivo de sua vida. Em janeiro de 1932, quando estava deixando Los Angeles, onde estava estudando russo para ler Guerra e Paz no original, ele ponderou sobre seu futuro nessa passagem de seu diário:

Começo a pensar que tenho o talento para trabalhar como um condenado em assuntos totalmente irrelevantes. Estou tomado de uma sensação torturante de não ter chegado a lugar nenhum, mas quando me sento e tento descobrir o que é que quero, me sinto perdido. Só de pensar em me tornar professor me dá arrepios. Uma vida inteira dedicada a tentar iludir a mim mesmo e meus alunos para acreditar que aquilo que procuramos está nos livros! Eu não sei onde está, mas sinto a certeza de que ela não está em livros. E não está em viagens. Também não está na Califórnia. Nem em Nova York. Onde ela está? E, afinal de contas, o que ela é?
Assim, um resultado verdadeiro de minha estada em Los Angeles foi a eliminação da Antropologia da minha carreira. Subitamente percebi que toda a minha excitação sobre os povos primitivos americanos poderia ser facilmente incorporado numa carreira literária. Estou convencido agora de que nenhum campo da literatura inglesa teria me permitido o quase ilimitado perambular para esse assunto ou aquele com os quais tenho me divertido. Uma ciência teria me atado e provavelmente não daria nenhum fruto mais importante do que a literatura me daria. Se quero justificar minha existência e continuar obcecado com a idéia de que tenho de fazer algo pela humanidade, bem, ensinar deve vencer essa obsessão, e se eu conseguir uma visão inteligente das coisas, uma crítica inteligente aos valores contemporâneos pode ser útil a esse mundo. Isso me leve de volta ao dictum de Krishna: a melhor maneira de ajudar a humanidade é através do aperfeiçoamento de si mesmo.

Suas andanças o levaram ao norte de São Francisco e de volta ao sul de Pacific Grove, onde ele passou boa parte do ano em companhia de Carol e John Steinbeck e do biologista Ed Ricketts. Nesse período ele trabalhou seus escritos, descobriu os poemas de Robinson Jeffers, leu O Declínio do Ocidente de Oswald Spengler pela primeira vez e escreveu para cerca de setenta instituições de ensino numa tentativa mal-sucedida de conseguir emprego. Finalmente conseguiu um cargo para lecionar em Canterbury School. Ele retornou à Costa Oeste onde suportou um ano infeliz como professor de Canterbury, sendo o único momento brilhante a venda de seu primeiro conto (Estritamente Platônico) para a revista Liberty. Então, em 1933, ele se mudou para uma pequena cabana sem água encanada na Maverick Road em Woodstock, NY, onde passou uma ano lendo e escrevendo. Em 1934, foi convidado e aceitou um cargo no departamento de literatura do Sarah Lawrence College, um posto que ele teria por trinta e oito anos.
Em 1938, ele se casou com uma de suas alunas, Jean Erdman, que se teria uma presença marcante no emergente campo de dança moderna, primeiro como estrela da inexperiente trupe de Martha Graham e, mais tarde, como dançarina e coreógrafa de sua própria companhia de dança.
Mesmo enquanto dava impulso a sua carreira de professor, a vida de Campbell desvelava-se afortunadamente. Em 1940, ele foi apresentado a Swami Nikhilananda, que o inscreveu como ajudante na tradução do Evangelho de Sri Ramakrishna (publicado em 1942). Depois disso, Nikhilananda apresentou Joe ao hinduísta Heinrich Zimmer, que o apresentou a um membro da comissão editorial da Fundação Bollingen. Esta fundação, que havia sido fundada por Paul e Mary Mellon para “fomentar bolsas de estudos e pesquisas nas artes liberais, nas ciências e outros campos de esforços culturais em geral,” estava iniciando um projeto editorial ambicioso, as séries Bollingen. Joe foi convidado para contribuir com uma “Introdução e Comentário” na primeira publicação, Onde Os Dois Encontraram o Pai: Um Cerimonial De Guerra Navajo, com texto e pinturas de Maud Oakes, feita por Jeff King (Bollingen Series, I: 1943).
Quando Zimmer faleceu inesperadamente em 1943, sua esposa, Christiana, e Mary Mellon pediram a Joe que supervisionasse a publicação dos trabalhos inacabados dele.

Enquanto isso, Joe deu seqüencia a sua contribuição inicial com um “Comentário Folclórico” à edição dos Contos de Fada dos Irmãos Grimm (1944); ele também foi co-autor (com Henry Morton Robinson) de Uma Chave-Mestra para Finnegans Wake (1944), o primeiro grande estudo sobre o complexo romance de James Joyce.
Sua primeira empreitada editorial, O Herói de Mil Faces (Bollingen Series XVII: 1949), foi publicada e logo aclamada, trazendo-lhe o primeiro de vários prêmios e honras. Nesse estudo do mito do herói, Campbell apresenta a existência de um Monomito (uma palavra emprestada de James Joyce), um modelo universal que é a essência comum a todas narrativas heróicas de toda cultura. Além de delinear os estágios básicos desse ciclo mítico, ele também explora as variações comuns da jornada do herói que, segundo ele, é uma metáfora importante, não apenas de um indivíduo, mas também de uma cultura como um todo. O Herói de Mil Faces teria uma enorme importância nas gerações de artistas criativos, “desde os Expressionistas abstratos do anos 50 até os diretores de filmes de hoje”, além de, com o passar do tempo, vir a ser aclamado como um clássico.
Não obstante seus vários livros, foi como orador que Joe alcançou grande impacto popular. Desde sua primeira palestra, Uma Mensagem ao Ocidente de Sri Ramakrishna, em 1940, no Centro Ramakrishna-Vivekananda, ficou claro que ele era um palestrante erudito, mas acessível, um contador de histórias talentoso e inteligente. Nos anos seguintes, ele foi frequentemente convidado para palestrar em vários eventos sobre temas variados. Em 1956, ele foi convidado para dar uma palestra no Instituto para Assuntos Estrangeiros do Departamento de Estado; trabalhando sem anotações, ele deu palestras durante dois dias inteiros. Suas palestras foram tão bem recebidas que ele seria convidado anualmente pelos próximos dezessete anos. No meio dos anos 50, ele também encarregou-se de uma série de palestras no Sindicato Cooper em New York City; estas palestras atraíram um público cada vez maior e diverso, e logo se tornaram um evento freqüente.
A primeira palestra de Joe no Instituto Esalen foi em 1965. A cada ano ele retornava a Big Sur para compartilhar novos pensamentos, insights e histórias. E, com o passar dos anos, aguardava ansiosamente pela sua estadia anual no lugar que ele veio a chamar de “o paraíso da costa do Pacífico”. Embora já tivesse se aposentado de Sarah Lawrence em 1972 para de dedicar a seus escritos, ele continuava a encarregar-se de dar ciclos de palestras de dois meses por ano.
Em 1985, Joe foi agraciado com a Medalha de Ouro do Clube de Artes Nacional em Literatura. Na cerimônia de entrega, James Hillman observou, ” Ninguém em nosso século, nem Freud, nem Thomas Mann, nem Levi-Strauss, conseguiram trazer o sentido mítico do mundo e suas figuras eternas de volta à nossa consciência cotidiana.”
Joseph Campbell faleceu inesperadamente em 1987 depois de uma luta breve contra o câncer. Em 1988, milhões de pessoas foram apresentadas a suas idéias pela transmissão de Joseph Campbell e O Poder do Mito com Bill Moyers, seis horas de conversas emocionantes que os dois gravaram durante vários anos. Quando ele morreu, a revista semanal Newsweek observou que “Campbell se tornou um dos raros intelectuais da vida estadunidense: um pensador sério que foi aceito pela cultura popular.”
Em seus últimos anos, Joe gostava de relembrar como Schopenhauer, no ensaio Sobre a Aparente Intenção do Destino do Indivíduo, escreveu sobre a sensação curiosa que alguém pode ter de haver um escritor em alguém lugar escrevendo o romance de nossas vidas, de uma maneira que através de eventos que, para nós, parecem acasos fortuitos , mas que apresentam um enredo a se desdobrar e sobre o qual não temos a menor idéia.
Olhando para trás na vida de Joe, não podemos deixar de reconhecer a veracidade da observação de Schopenhauer.

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