O Conceito de “Deus” – parte IIII

2009-07-14 / Antropologia, História, Literatura, Mitologia, Religião / 1 Comments

IV. Hinduísmo, Budismo, a Religião Chinesa e o Islamismo

A concepção hindu de divindade combina, ou melhor,compreende, duas tradições distintas que podem ser convenientemente designadas de “popular” e de “filosófica.”

A primeira começa com a civilização do Vale do Indo do terceiro e segundo milênio a.C.,e com as tribos arianas que entraram no noroeste do continente cerca de 1400 a.C. A religião dos povos do Vale do Indo é conhecida apenas por dados arqueológicos que se revestem de significado incerto, mas é razoável inferir que várias divindades foram cultuadas, e que algumas podem ter sido protótipos de outras divindades hindus posteriores. As crenças religiosas dos arianos estão documentadas nos hinos do Rig-Veda, que são dirigidos a uma variedade de divindades. Os deuses em questão eram principalmente deificações de fenômenos cósmicos. O mais proeminente é Indra, um Deus das Tempestades, concebido como um vitorioso Deus-guerreiro. Outros deuses importantes eram Varuna, um Deus celeste associado à ordem cósmica (rta); Agni, o Deus do Fogo, identificado com o fogo ritual que consumia as vítimas sacrificiais; Rudra,  um Deus perigoso que trazia doenças; Yama, o Deus da Morte e Senhor do Mundo dos Mortos. Estas deidades muitas vezes tinham um caráter ambivalente: por exemplo, Rudra não só infligia sofrimento, mas também curava doenças.

Como algumas das divindades védicas e as outras dos povos do Vale do Indo se tornaram os deuses do hinduísmo apresenta muitos problemas que ainda estão por resolver. Da complexa multiplicidade de deuses hindus, dois são de extrema importância e distinção, a saber, Vishnu e Shiva. Cada um tem uma natureza ambivalente e caracteriza os aspectos criativos e destrutivos do mundo empírico.

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Assim, no Bhagavad-Gita, um dos documentos fundamentais do hinduísmo, Vishnu é primeiramente descrito, em toda a multiplicidade e complexidade de seu ser, como o Criador e Mantenedor do universo. Depois segue uma outra visão. O Deus aparece como uma criatura monstruosa , com muitas bocas e dentes terríveis, para a qual todos os seres vivos vão para a seu fim. Essa terrível divindade anuncia como explicação: “Saiba que eu sou o Tempo que faz os mundos perecerem e trago-lhes a destruição”(Bhagavad-Gita, XI: 32). Esta equação com o Tempo é significativa, e lembra Zurvan, o Deus-Tempo persa. Essa equação diz respeito à interpretação hindu da realidade: a existência, em todos os fenômenos do mundo, envolve um processo de vida e morte; por que o Tempo rege este mundo e tudo que está nele; e seu processo é cíclico. No entanto, apesar desta revelação do aspecto terrível de Vishnu, o Bhagavad-Gita ensina que a divindade era benigna para aqueles que a adoravam com uma profunda devoção pessoal (bhakti).

Shiva, a outra grande divindade do hinduísmo, que comanda a fidelidade de milhões de pessoas, também representa os aspectos criativos e destrutivos do mundo. Seu poder criativo é simbolizado pelo lingam ou falo. Na iconografia, ele é retratado como Nataraja ( “Rei dos Dançarinos”), que executa a dança cósmica, simbolizando a energia do universo, perpetuamente criando, mantendo e destruindo as formas em que se manifesta. Como Bhairava, o terrível destruidor, Shiva é imaginado assombrando locais de cremação, enrolado por serpentes e usando um colar de caveiras. Ele é também chamado de Kala-Rudra (Tempo que a tudo devora). Por uma estranha transformação do imaginário, o śakti ou energia ativa de Shiva, foi personificada numa deusa. Este processo resultou na concepção da Deusa Kali, que também personifica o Tempo. Ela é muitas vezes representada pisoteando sobre o corpo cadavérico de Shiva, de quem ela emanou. Em sua iconografia, ela retrata o incessante ciclo de vida e morte manifesto no mundo natural.

A concepção filosófica da divindade que encontra expressão nos Upanishads é difícil de definir porque ela é fundamentalmente impreciso, sendo apresentada um imaginário e uma terminologia que é ao mesmo tempo sutil e complexa. “Brahman” significa a Realidade Última com a qual o “Atman” (o “Self“) é identificado; por sua vez o ‘Self” (Atman) de cada pessoa é idêntico com o transcendente Atman. A sutileza dessa equação é descrita nesta passagem do Řatapatha Brahmana (X.6.3): “Deve-se venerar Brahman como a Verdade …. Deve-se venerar o “Self” (Atman) que subsiste na mente … maior do que o céu, maior do que o espaço, maior do que esta terra, maior do que todas as coisas existentes. Ele é o “Self” da respiração (vida), ele é meu próprio “Self“(Zaehner [1962], p. 66). A partir do conceito de Brahman, a idéia de um Deus criador pessoal chamado Brahma foi derivada e foi feita uma tentativa de relacioná-lo às outras duas grandes divindades do hinduísmo, Shiva e Vishnu, em uma Trimūrti, ou seja, “Um Deus em três formas”: Brahma (o Criador), Vishnu (o Mantenedor), e Shiva (o Destruidor). No entanto, essa concepção nunca se estabeleceu no hinduísmo popular.

O Budismo tem sido muitas vezes descrito como ateu. Tal avaliação, sem qualquer outra qualificação, é enganadora -, uma vez que geralmente é baseada em alguns pressupostos tácitos do que constitui uma divindade. Até onde a natureza natural e essencial do Budismo pode ser determinada, pode ser afirmado que não está preocupado com a ideia de um Deus como o Criador do universo. O Buda tentou emancipar as pessoas de verem este mundo como realidade absoluta e de se envolverem nela. Contudo, uma vez que o conceito budista de Nirvana é descrito como Verdade, Realidade, o Bom, e por adjetivos como “inexistível”, “imortal”, “imutável”, isso pode ser considerado como a essência constitutiva da divindade. Na sua forma popular, o Budismo é teístico de duas maneiras. Muitos dos Deuses do Hinduísmo foram reconhecidos como entidades super-humanas; porém, como o ser humano, eles estão sujeitos à decadência e morte e às leis de Samsara ( “renascimento”) e carma. No entanto, outro aspecto importante foi a divinização do próprio Buda. Sua imagem em templos é tratada como um objeto sagrado e é o foco do culto. E aqueles que são considerados terem sido ou os que serão outras formas do Buda, tais como Adibuddha e Amitabha (Amida), e Bodhisattvas como o Avalokitesvara, também foram deificados e cultuados. Nesta última concepção budista de divindade, no entanto, o fator operativo tem um significado soteriológico; pouca preocupação é mostrada sobre os atributos cosmológicos ou metafísicos que caracterizam as concepções de outras religiões.

Na China, em torno de 1000 a.C., os reis da Dinastia Chou efetuaram uma mudança religiosa que teve uma influência duradoura. Buscando evitar o culto de Ti, o divino antepassado-fundador da dinastia Shang, o qual tinham suplantado, começaram a chamar esta antiga divindade de Shang Ti, ou seja, o Ti superior ou o Supremo Ti, e equacionaram-no com T’ien, a deificação do Céu. Essa nova divindade foi apresentada como o Deus supremo, cujo principal interesse seria a prosperidade e o bem-estar do povo chinês. Com esse objetivo, ele foi concebido para requerer um bom governo e atento para remover governantes que não cumprissem essa missão, assim como tinha retirado a Dinastia Shang. O culto a Shang Ti tornou-se o culto oficial do estado com o imperador como seu carismático alto-sacerdote, sendo ele próprio o Filho do Céu. O ato supremo do culto nacional era o sacrifício anual para Shang Ti, no solstício de inverno, oferecido pelo imperador no Altar do Céu, em Pequim. Embora fosse o Deus do culto oficial, essa deificação do Céu poderia ser objeto de devoção pessoal, como ensina o grande filósofo Mo-Tzu (fl. 400 d.C.). Mo-Tzu também falou do “Caminho” (Tao) do Céu como uma espécie de ordenação divina providencial do mundo. O termo Tao também foi utilizado pelos primeiros taoístas para descrever o princípio eterno do ser, aquele que reside e mantém o universo. Segundo o importante Tao te Ching, o Tao é “sem forma, mas completo , “ele antecede o céu e a terra,” assim como “o céu, mãe de todos que estão abaixo”, e o sábio procura estar em perfeita harmonia com ele. Este naturalismo que caracterizava o pensamento chinês antigo também encontra expressão nos conceitos de Yin e Yang, considerados como princípios que se alternam, manifestos em cada aspecto da vida.

Entretanto, a tendência para o monismo ou dualismo não excluiu o reconhecimento de formas menores de divindade; e a religião chinesa incluiu tanto o culto aos ancestrais quanto a crença em uma inumerável variedade de deuses menores e espíritos.


A palavra árabe “Alá” (Deus) é uma forma abreviada de “alilah” ( “O Deus”), e que exprime a quintessência da concepção muçulmana de Deus. Uma ênfase enorme é colocada no Corão sobre a unidade de Alá (Deus), muitas vezes com referência à deificação cristã de Jesus e Maria.

Dessa maneira, Maomé proclama sua divindade: “Alá: não há outro Deus senão Ele,o Vivente, o Auto-subsistente…. Ele é o Altíssimo, o Todo Poderoso” (Sūrah 2:256). Em todo o Corão, Alá é apresentado como o Criador e o Juiz Implacável da humanidade no fim do mundo. Quando ressalta a onipotência e onisciência de Alá, Maomé envolveu-se nos inevitáveis problemas sobre predestinação divina e o livre arbítrio humano com que teólogos judeus e cristãos tinham se preocupado. Inconsistentemente ele apresenta Alá como aquele que predestina os homens severamente para a salvação ou a danação e, ao mesmo tempo, ele também o descreve como “o Misericordioso, o Piedoso”.

Muitas dessas inconsistências provavelmente decorrem de sua própria experiência espiritual , e porque ele era um profeta por natureza, e não um pensador. No pensamento muçulmano subsequente, a concepção de Alá foi bastante desenvolvida. Os tradicionais noventa e nove nomes de Alá constituem uma grande lista de qualidades atribuídas a ele, e tentativas foram feitas para explicar as ideias antropomórficas e a terminologia utilizada no Corão. No entanto, apesar dessas sofisticações, a concepção muçulmana de Deus permaneceu basicamente a mesma que Maomé proclamou, sob o impulso da sua própria inspiração peculiar, e em reação ao politeísmo primitivo de seus compatriotas árabes e os contatos dele com o Judaísmo e com o Cristianismo.

Como conclusão desta pesquisa, deve ser observado que, de uma maneira sutil mas muito significativa, ainda não foi devidamente investigada, a noção de divindade reflete o caráter de um povo ou cultura que a produziu. Também deve-se considerar que certos atributos como poder, imortalidade e eternidade representam comumente noções gerais do que constitui uma divindade, as formas em que as divindades foram concebidas são curiosamente variadas. Basta mencionar, por exemplo, a aparência das divindades no antigo Egito, no Hinduísmo e no Cristianismo.

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O Conceito de “Deus” – parte III

2009-04-23 / História, Mitologia, Religião / 1 Comments

O conceito da divindade no antigo Irã antes do sexto século a.C. é fundamentalmente obscuro, uma vez que as primeiras provas escritas são fornecidas por Zaratustra ou Zoroastro (nascido em cerca de 570 a.C.). Seu texto Gāthās documenta a reforma da religião iraniana que ele iniciou, e que afetou profundamente a posterior tradição religiosa do Irã. Muita atenção tem sido dada por especialistas em estudos iranianos para o problema óbvio da religião antes da reforma de Zaratustra. Uma vez que é sabido que os primeiros colonos no Irã eram arianos partilhavam de uma tradição cultural comum com os arianos que se instalaram na região noroeste do continente indiano, a literatura dos últimos (especialmente o Rig-Veda) tem sido estudada como relevantes para entender a situação no Irã. Provas também foram procuradas em algumas tradições pós-Zoroastro. A partir desta investigação, não só é certo que a religião primitiva iraniana era politeísta e semelhante ao que é apresentado no Rig-Veda, mas parece que houve uma disposição para conceber as divindades de forma ambivalente. Assim, há indícios do culto de deuses celestes como Mitra e Vayu, e cada um representava tanto o lado bom quanto o aspecto sinistro da realidade. Outra dessas divindades era Zurvān, que assumiu um papel importante na antiga religião persa. O nome desta misteriosa divindade significava “tempo”, e uma variação desse nome já ocorre no décimo segundo milênio a.C. em tábuas encontradas em Nuzi.

Zaratustra parece ter rejeitado esta propensão iraniana a ter uma concepção de divindade ambivalente proclamando que o Deus a quem ele chama Ahura Mazda, o Sábio Senhor, como o único Deus verdadeiro, e identificando-o exclusivamente com Arta ( “Ordem dos Justos” ). Tem havido muita especulação sobre a origem de Ahura Mazda, e alguns especialistas pensam que a concepção foi derivada de uma contra-parte iraniana da divindade védica Varuna (ver abaixo).

Seja qual for a origem de seu Sábio Senhor, Zaratustra intencionava detectar a natureza dualista do universo a partir de uma fonte sobrenatural. Isso ele faz no Gāthās ao colocar dois espíritos primordiais: o Spenista Mainyu ( “Generosíssimo Espírito”) e o Angra Mainyu ( “Mal” ou “Espírito destrutivo”). Esses espíritos representam os aspectos ou forças opostas do Universo: luz e treva, vida e morte, o bem e o mal. No entanto, apesar da enfática identificação de Ahura Mazda com o princípio da boa ordem (Arta) e sua radical condenação da Druj ( “Mentira”), um vestígio da antiga ambivalência da divindade aparece na Gāthās. Para Zaratustra, Ahura Mazda era considerado o único criador cósmico, a quem a origem da luz e da treva é atribuída (Yasna, 14:5). Este é um fragmento da Avesta. Esta indicação de uma tradição anterior, que deriva os dois aspectos contrastantes de fenômenos cósmicos a partir de uma única fonte divina, é significativa, tendo em conta desenvolvimentos posteriores na concepção iraniana de divindade.

Na forma clássica de Zoroastrianismo, Ahura Mazda, com o nome de Ohrmazd, foi praticamente equiparado com o Spenista Mainyu, e representava o princípio do Bem; seu oponente – o princípio do Mal – foi chamado Ahriman. Essa equação teve o efeito de fazer o bem e o mal coevos, e, embora escatologia zoroastriana previsse a vitória final do Bem (Ohrmazd) sobre o mal (Ahriman), logicamente os dois princípios são iguais, cada um deles tendo sempre existido e sendo incriados. Esta igualdade implícita não fornecia nenhuma base para a crença de que, em última instância, o Bem triunfaria sobre o Mal; na verdade, a sua mútua oposição era habitualmente descrita como eterna. Durante o período sassaniano (AD 208-651), parece que foi feita uma tentativa de resolver o problema metafísico nesta forma de Zoroastrianismo ortodoxo, representando Ohrmazd e Ahriman como sendo derivados de Zurvān e Ahriman, e assim justificasse a sua eliminação final. Infelizmente, a verdadeira natureza deste Zurvanismo é fundamentalmente obscura, devido ao caráter insatisfatório da documentação existente. O que parece razoavelmente certo, de acordo com Eudemus de Rodes, um discípulo de Aristóteles, é que os persas eram conhecidos por ter “um deus bom e um deus demônio” do Espaço (Topos) e Tempo (Chronos). Num Rivâyat persa tardio, é categoricamente afirmado: “com excepção de Tempo, todas as outras coisas foram criadas …. Então, [Tempo] criou fogo e água, e, quando eles tinham se misturado, Ohrmazd surgiu. O tempo é tanto o Criador quanto o Senhor da criação que criou “(Spiegel, pp. 161ff.).

Parece, portanto, que houve uma tradição no Irã de divindade criadora ambivalente chamada Zurvān, e que esta foi utilizada na época sassaniana por alguns pensadores que estavam insatisfeitos com a base metafísica ortodoxa do Zoroastrianismo. Uma reação ortodoxa a esta heresia teve expressão no Bundahishn, em que Ohrmazd é identificado com o Tempo: “Assim, é revelado na Boa Religião. Ohrmazd estava no ápice de sua onisciência e bondade; pois Tempo Infinito ele sempre foi na Luz “(XV, 1ff.).

Há evidências de que os persas concebiam duas formas de Tempo: Zurvān akarana ( “Infinito Tempo”), e Zurvān dareghō-chvadhāta ( “Tempo de Longo Reinado”). Com o primeiro,  Ohrmazd foi identificado como Infinito Tempo. Zurvān dareghō-chvadhāta significava o aspecto destrutivo do Tempo, que traz decadência, velhice e morte para todos os seres vivos. Esta forma de tempo era associada a Ahriman, e essa concepção foi depois incorporada ao Mitraísmo, no qual ela teve surpreendente expressão iconográfica. Muitos santuários mitraístas tinham imagens de um ser monstruoso, com um corpo humano, asas, e uma cabeça de leão. Ao redor do corpo do monstro estava uma grande serpente entrelaçada, e sobre seu corpo nu, os signos do zodíaco estavam representados; o monstro está sobre uma esfera e possui um longo cajado e chaves. A imagem e os seus símbolos foram evidentemente concebidos para representar o Tempo que rege e destrói tudo. Sua presença nos santuários mitraístas como uma imagem de Ahriman provavelmente indica que a soberania temporal de Ahriman neste mundo era reconhecida em teologia mitraísta.

A influência da concepção iraniana dualista de divindade foi muito considerável. Ela pode ser rastreada no Gnosticismo e no Maniqueísmo, no Judaísmo e nas crenças das seitas de Qumrân, e também no Cristianismo. Esta influência foi indubitável devido ao fato de ter contribuído para explicar a origem e a natureza do mal, o que constitui um problema básico para todas as religiões monoteístas. Verificou-se que o dualismo iraniano não era uma interpretação dualista da realidade logicamente absoluta; ela aguardava a vitória final de Ohrmazd sobre sobre Ahriman. Neste sentido, ela era uma ética escatológica; porque conclamava a humanidade para se alinhar ao lado do Bem (Ohrmazd) contra o Mal (Ahriman), porque Ahriman seria exterminado. Em outras palavras, a concepção iraniana de Deus, que aparenta, na sua forma original, ter refletido a ambivalência do ser humano da experiência de realidade, tornou-se, na forma dada por Zoroastro, uma expressão da esperança de que o que ele identificou como o princípio do Bem acabaria por prevalecer sobre o que ele avaliou como Mal. A Weltanschauungen [visão de mundo] dualista dessas outras religiões e seitas influenciadas pelo Zoroastrianismo também foram inspiradas por um otimismo semelhante.

A concepção de divindade grega compreende duas tradições diferentes: a religiosa e a filosófica. Embora a concepção filosófica naturalmente concentre a atenção de historiadores do pensamento, porque a filosofia grega tem sido há muito considerada um dos maiores produtos da cultura grega, foi a ideia de divindade implícita na fé religiosa e na prática que realmente refletia as perspectivas do povo grego. Concepções filosóficas sobre o divino, como Platão e Aristóteles expuseram, estavam destinadas a ter uma grande influência sobre a teologia medieval cristã e muçulmana, mas tiveram pouco efeito sobre vida e o pensamento contemporâneo grego; na verdade, a maioria dos filósofos agiam conforme as prescrições e os costumes da religião tradicional.

A concepção grega de divindade, no início, encontra expressão na Ilíada e na Odisséia de Homero, e uma vez que estas epopéias gozavam de um lugar privilegiado no sistema grego de educação, a visão homérica tornou-se a base de toda avaliação. De acordo com ele, o universo era regido por uma hierarquia de deuses, presidido por Zeus. O maioria desses deuses era provavelmente de origem indo-europeia, sendo semelhantes àqueles dos invasores arianos da Índia e do Irã. Eles foram levados para a Grécia pelas tribos helênicas que conquistaram os povos egeus que viviam ali, e cuja religião parece ter sido baseada no culto da Grande Deusa. A religião que encontra expressão na literatura homérica provavelmente representa uma fusão das tradições indo-europeias e egeias, mas com a antiga ainda predominando, porque Zeus é essencialmente um Deus celeste ariano.

Segundo Homero, a essência da divindade é o poder sobrenatural, geralmente associado aos mais violentos e mortíferos aspectos dos fenômenos cósmicos: Zeus detém relâmpagos e trovões; Poseidon está associado ao mar e terremotos; as flechas de Apolo são equiparadas à pestilência. Mas trata-se de um poder controlado; um governo divino que faz do universo um cosmos, não um caos. Este aspecto encontra uma expressão gráfica nos poemas homéricos em termos antropomórficos, porque os gregos instintivamente concebiam seus deuses como “grandes homens gregos”.

Um exemplo muito significativo ocorre no capítulo XVI da Ilíada [pp. 431-61] que descreve a reação de Zeus a um incidente na luta entre os gregos e os troianos. Pátroclo, um herói grego, está fadado a matar Sarpedon, um homem que era filho de Zeus, um entre muitos de seus vários casos com mulheres mortais. Homero descreve Zeus como fervorosamente desejoso de salvar o filho. Ele comunica a sua intenção à deusa Hera, que, em resposta, adverte-o que, se ele interferisse com o que estava fadado a acontecer, os outros deuses iriam seguir o seu exemplo. Zeus tristemente reconhece a verdade sobre o que ela diz, e permite que Sarpedon siga seu destino. O episódio revela que os gregos acreditavam que havia uma boa ordem (Moira) das coisas que mantinha o equilíbrio de forças no universo. Zeus era a encarnação dessa ordem, assim como o Deus-Sol egípcio tinha Maat e o persa Ahura Mazda tinha Arta. Zeus é onipotente, mas se ele agisse ὑπὲρ μόπον (ou seja, “além do que está fadado a fazer”) iria perturbar a ordem do universo e induzir outros deuses (sendo eles também deificações de poder), os quais ele próprio governava, a agir nos mesmos moldes, então o caos substituiria o cosmos. A mitologia grega era muito consciente das forças do caos no universo, o qual era personificado sob a imagem dos Gigantes e dos Titãs, a quem os Deuses Olímpicos tinham outrora subjugado após uma verdadeira luta titânica.

Nos poemas homéricos, Zeus é descrito como “o pai dos deuses e dos homens.” Este título não significava que ele era considerado o Criador do universo, é apenas conotada sua supremacia soberana. Nestes poemas, o padrão clássico da estimativa grega da situação do ser humano em relação aos Deuses inicialmente emerge. Os Deuses, e principalmente Zeus, são representados como inconstantes em suas relações com os homens. Sem dúvida, esta apresentação derivava do fato de que a concepção grega de divindade tinha sido inspirada pela experiência das forças operantes do mundo natural. A harmonia geral de fenômenos cósmicos sugeria um governo ordenado e divino, mas a variedade irracional do destino humano indicava caprichos divinos. Na Ilíada [capítulo XXIV, pp. 527-33], esta impressão é exemplificada por uma imagética bem vívida: Zeus é retratado como arbitrariamente dando destinos bons e ruins para a humanidade a partir de duas urnas fixadas no chão do Olimpo. Geralmente o fardo pessoal é uma combinação equilibrada de coisas boas e ruins, mas às vezes, sem causa aparente, é dado a um infeliz apenas o ruim.

A religião homérica não dava esperanças de que as desigualdades desta vida seriam divinamente ajustadas após a morte. Na Odisseia, a crença é graficamente apresentada de que a morte irremediavelmente esmigalhava a constituição psicofísica do indivíduo, e que só restava um espectro como réplica, sem consciência, que sobrevivia para descer às sombrias profundezas do Hades, que era governado por Hades e sua rainha Perséfone.

Exceto por algumas pequenas variações, a concepção homérica de divindade formou a tradição principal da teologia grega até a era da cultura greco-romana. Ela encontra expressão na poesia e no teatro, e negativamente na arte sepulcral, na qual as cenas tristes de despedida não fazem qualquer referência a Zeus e aos outros deuses. A iconografia religiosa, apesar de ter produzido obras soberbas de divindades na perfeição idealizada da forma humana, apenas retrata uma dignidade tranquila, longe das paixões humanas, e distante das aspirações e  receios dos mortais.

Foi no Estoicismo, que virou para muitos uma filosofia de vida, que foi feita uma tentativa de levar a visão tradicional de uma divindade num esquema cuidadosamente articulado que representasse racionalmente o universo e o lugar do homem nele. Como Cícero sucintamente definido a teologia estoicista: “Zeno e os Estoicos geralmente concebiam que Deus é Éter, dotado de uma Mente, pela qual o universo é governado” (J. von Arnim, Stoicorum Veterum Fragmenta, I, frag. 154). O homem não poderia, portanto, ter uma relação pessoal com Deus, mas ele era aconselhado a viver “de acordo com a Natureza”, que significa integrar-se ao processo cósmico e não aspirar a um destino fora desse processo. O Estoicos presumiam que o processo cósmico era racional, sendo a expressão da Divina Providência (πρόνοια). A dificuldade de manter esta crença, no entanto, contra a lógica da experiência, é significativamente refletida na Meditações de Marcus Aurelius, que nobremente tentou viver de acordo com os preceitos dos estoicos: “Ou todas as coisas provêm de uma única fonte racional, e se combinam em conjunto num todo coerente (ἑνὶ σωματι) … ou só existem átomos (ἄτομοι), uma massa sem forma e se desintegrando “(IX, 39). Marcus desejava que o primeiro fosse verdade, mas sua razão o advertia da igual probabilidade do último.

Que os deuses da Grécia clássica e os deuses romanos que foram posteriormente identificados com eles continuaram a ser adorados até paganismo ser suprimido pelo imperadores cristãos no século IV foi devido principalmente à sua importância política. Nas cidades-estado gregas e em Roma, os Deuses representavam o guardiões divinos da ordem social e da prosperidade, e esperava-se que todos os cidadãos participassem nos cultos públicos como prova de sua integridade e lealdade. O poder dessa fé politizada não deve ser subestimado: ela encontrou, significativamente, amarga expressão contra o Cristianismo em 410, quando Roma foi saqueada por Alaric, o Gótico, logo após a abolição dos antigos Deuses romanos em favor de Cristo.

O conceito de divindade nestes cultos de Estado não representava ou satisfazia as necessidades espirituais de muitas pessoas. Daí muitos se voltarem para as religiões de mistérios, que prometiam a sua salvação de seus iniciados, geralmente sob a forma de renascimento da morte. Os deuses desses cultos de mistério não eram deidades remotas e cósmicas; um mytho frequentemente narrava como eles tinham morrido e ressuscitado para a vida novamente. Osíris fornece o exemplo clássico, embora a forma original dos ritos associados a ele era de um  caráter funerário como descrito acima. Outros deuses de mistérios notáveis foram Átis, Adônis, Dionísio-Zagreus. O significado do cultos de mistério do mundo greco-romano nesse  contexto reside na atração de uma divindade, concebida como tendo sido objeto de sofrimento e de morte e, em seguida, tendo subido triunfantemente para uma nova vida eterna.

A concepção de divindade na filosofia grega, apesar das diversas terminologias e imagens usadas pelos diferentes pensadores, expressa um objetivo comum, a partir da época das primeiras especulações dos filósofos jônicos. Procurava-se definir uma fonte da existência em termos de atributos metafísicos para conotar a perfeição do ser. Assim, Platão viu a Deus como a essência ou ideia da Bom, eterno, imutável e impassível. Para Aristóteles, Deus era essencialmente o Motor Primário, Ele mesmo imóvel, que é a primeira e a última Causa de todas as coisas. De maior complexidade metafísica foi a concepção de Plotino (204-70 d.C.), o fundador do Neo-Platonismo. Ele distinguiu uma espécie da Trindade divina: o Uno, equiparado com Deus e com o Bem, era simultaneamente imanente e transcendente: “porquanto ele não está em nenhum lugar, não há lugar onde não esteja”, o Nous ( “Mente” ou “Espírito”), sendo a imagem do Uno, e a Alma , o descendente de Nous, que é o criador cósmico.

Na sociedade greco-romana, houve uma profunda preocupação com questões religiosas, e muitas tentativas foram feitas para remover as dificuldades da mitologia tradicional e acomodar as divindades das outras religiões. Por exemplo, Plutarco (cerca 46-120 d.C.) utilizou a ideia de daimones de Platão, como seres intermediários entre deuses e homens, para efetuar uma reconciliação entre politeísmo e monoteísmo e Sallustius (fl. AD 350) distingue entre Deuses mundanos e supramundanos. O sincretismo também virou moda; ele produziu o nobre reapresentação da deusa egípcia Ísis como a “senhora de todos os elementos”, “rainha dos mortos”, “o princípio de todos no céu”, “aquela que se manifesta isoladamente e é a forma única de todos os deuses e deusas “(Apuleius, Metamorphoseon, XI, 3ff.).

(Tradução feita por mim do texto The Idea of God from PreHistory to the Middle Ages do Dictionary of the History of Ideas)

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O Conceito de “Deus” – parte II

2009-04-16 / História, Mitologia, Religião / 0 Comments

II. O antigo Oriente Próximo, a Grécia e Roma

Os primeiros registros escritos, que datam do Egito e da Mesopotâmia a partir do quarto milênio a.C., revelam em ambos os lugares uma forma de religião politeísta, que tinha sido manifestamente estabelecida há muito tempo. A forma egípcia, uma vez que é geralmente a melhor documentada e certamente a mais graficamente representada, será considerada primeiro.
No grande corpus de textos religiosos, conhecido como os Textos da Pirâmide, que foram inscritos na paredes interiores das pirâmides de determinados faraós da Quinta e Sexta Dinastias, um grande número de divindades masculinas e femininas são nomeadas. A sua natureza divina é indicada por um hieróglifo (nṯr), lembrando um machado ou uma bandeira desfraldada horizontalmente a partir do seu polo. O símbolo indica que os antigos egípcios já haviam concebido uma deidade ou divindade de forma abstrata. Infelizmente, no essencial, o significado do hieróglifo nṯr permanece um enigma, apesar de muitas tentativas de interpretá-lo. Parece um machado, mas há alguns indícios de que, na sua forma mais primitiva, tinha duas flâmulas se projetando horizontalmente a partir de um polo, o que poderia representar o padrão que se situava diante de santuários primitivos. Mas, qualquer que seja a origem do símbolo, é significativo que, em seus primeiros textos, os egípcios já eram capazes de conceber uma divindade como uma qualidade ou caráter distintivo que poderiam ser atribuídos a determinadas entidades consideradas divinas.
Embora fossem capazes de conceber uma divindade, os egípcios acreditavam que a virtude encontrava expressão ou poderia ser incorporada numa variedade de seres personificados, que foram distinguidos por nomes individuais ou títulos. Estas deidades variaram em natureza e status, de seres cósmicos como o sol a animais estranhos e insetos, como a íbis (uma ave pernalta relacionada com a garça-real) e do escorpião, que eram adoradas em vários locais, por razões desconhecidas para os pesquisadores modernos. Algumas divindades eram personificações de abstrações tais como Shu ( “ar”), Maat ( “verdade”), ou Atum (ἰtmw), uma designação que parece ter querido dizer “o uno-não-ainda-completo, que irá atingir (completude).”
A iconografia dos egípcios mostra que eles concebiam seus deuses em formas concretas de vários tipos: como homens e mulheres em trajes egípcios, ou como tendo corpos humanos e cabeças de animais, ou como animais  em sua totalidade (ou seja, mamíferos, aves, répteis e insetos ). Algumas dessas concepções foram aparentemente de origem primitiva, mas algumas foram derivadas de uma complexa transformação de imagens. O mais notável exemplo disso é a representação do Deus-Sol Rá por um besouro: o escaravelho. A antiga palavra egípcia para o escaravelho era kheprer, que era similar a kheper, “vir a ser” ou “existir.” Como o Deus-Sol era concebido como auto-existente e era consequentemente chamado Khepri, a relevância do escaravelho como um símbolo é inteligível. No entanto, para os egípcios, o símbolo ainda tinha um outro significado. Acreditava-se que os escaravelhos eram apenas do sexo masculino, e eles tem o curioso hábito de empurrar bolas de esterco, do qual se alimentam. Como o antigo mito cosmogônico egípcio era estruturado em imagens de procriação biológica, o Deus-Sol, sendo auto-existente, foi retratado como começando a criação da universo pela masturbação; e também imaginava-se que ele rolava o disco solar pelo céu todos os dias.
É interessante analisar o símbolo do escaravelho, tendo em vista a sua composição curiosa de pensamento metafísico e imagens esotéricas relativas ao conceito de auto-existência divina inerente à palavra kheprer. O símbolo do escaravelho pode assim servir para mostrar como por trás da estranha iconografia da religião egípcia residem ideias que podem, muitas vezes, ser notáveis por seu conteúdo metafísico.
Até onde é possível definir a quintessência de divindade que se apresenta nas muitas deidades do antigo Egito, parece que a ideia de poder é inerente a todas elas. Mas era um poder fazer coisas específicas: dar a vida, a fertilidade, a prosperidade, manter a ordem cósmica, ter conhecimento sobrenatural, geralmente de uma forma mágica. No panteão egípcio, diversas divindades tinham funções específicas ou habilidades, e houve uma tendência para associar divindades locais com o grande estado egípcio ou deidades cósmicas, de modo a dar a aparência de uma espécie de henoteísmo. Há também muitos indícios da utilização da expressão nṯrc (o “Grande Deus”), sem um nome pessoal, geralmente a referência é a Rá, o Deus-Sol, mas por vezes também denota Osíris.

As principais características da ideia egípcia de divindade foram expressas em três de seus deuses: Rá, Osíris e Seth. O primeiro, como o Deus-Sol, foi o Deus do estado egípcio por excelência. O faraó era considerado como o “Filho de Rá” e seu representante na terra. Rá foi o criador do universo e fonte de toda a vida e poder. Ele apoiou a ordem (Maat) do cosmos, e Maat, a personificação da verdade, da justiça e da ordem foi considerada tanto a sua filha e sua comida. Consequentemente, Rá era muitas vezes concebido como o juiz da humanidade. Esta associação com a lei moral tem um significado singular. Ele aparece pela primeira vez nos textos egípcios em 2400 AC, e constitui, portanto, a mais antiga prova do envolvimento do conceito de divindade com a ética. Tal envolvimento não é inevitável, e a história das religiões oferece numerosos exemplos de divindades morais e amorais. Os registros  egípcios felizmente nos permitem ver como Rá ficou associado à ordem moral. A ideia de maat era basicamente a de ordem cósmica, por oposição ao caos. Por exemplo, os egípcios concebiam um monstro das trevas, Apófis, que ameaçava destruir o sol todo dia, quando ele subia e descia. A ordem social no Egito, que era mantida pelo faraó, o filho do Rá, fazia parte da maat cósmica. Por conseguinte, qualquer pessoa cuja conduta não estivesse de acordo com os costumes abusava de maat, a boa ordem das coisas, da qual Rá era o detentor e, por isso, estava sujeito a seu julgamento, neste mundo ou no outro.

Osíris era uma divindade de um tipo totalmente diferente, e de uma importância especial para a história das religiões. Enquanto Rá e todas as outras divindades eram, por natureza, imortais, Osíris era um Deus que tinha morrido e tinha sido trazido à vida novamente. Muitos especialistas já debateram sobre a origem desta extraordinária concepção, mas nenhuma conclusão surgiu ainda. O que é certo é que, nos Textos da Pirâmide, Osíris aparece pela primeira vez um antigo rei divino que tinha sido revivido após ter sido assassinado por seu irmão malevolente, Seth. Os Textos da Pirâmide mostram que uma técnica ritual de embalsamento mágico e revificação mágica foi realizada sobre o faraó morto, seguindo um padrão do que tinha sido feito para Osíris. De acordo com o princípio da magia simpática, acreditava-se que a repetição dos ritos traria o rei para uma nova vida assim como  havia acontecido com Osíris. Este ritual mortuário foi gradualmente democratizado para todos os egípcios que podiam pagar por ele, ansiosos para obter a ressurreição depois da morte através de Osíris.

Osíris, por causa de seus mitos e sua importância soteriológica , teve um profundo apelo humano e se tornou a mais popular das divindades egípcias, e seu culto se propagou para além das fronteiras do Egito. Cada vez mais ele adquiriu atributos cósmicos e foi associado com as cheias frutíferas do rio Nilo e com o ciclo de vida anual da vegetação, especialmente grãos. Mas ele também assumiu um outro papel. Já nos Textos da Pirâmide Osíris era venerado como o soberano dos mortos, e no período do Novo Reino (1580-1085 AC), ele tinha se tornado o juiz que inspirava temor, diante do qual os mortos seriam julgados pela pesagem de seus corações com o símbolo da maat ( “verdade”).


A ideia de um Deus que morre e é ressuscitado – e que salva aqueles que são ritualmente equiparados a ele – é um conceito verdadeiramente notável, e não é facilmente explicada em termos das referidas necessidades humanas básicas e intuições com as quais a ideia de divindade geralmente se relaciona. Osíris é o exemplo mais notável dessa categoria de divindade antes do surgimento da concepção de Cristo como o Salvador Divino, que morre e é ressuscitado. Algumas outras religiões do antigo Oriente Próximo produziram exemplos semelhantes, mas não tão bem constituídos, a saber, o Deus mesopotâmico Tamuz, e as figuras mais conhecidas do Deus frígio Átis e o Adônis da Síria. Cada uma dessas divindades estava, de algumas forma, ligada ao ciclo de vida da vegetação: a morte e ressurreição deles está relacionada ritualmente ao morrer e renascer anual da vegetação. No entanto, nos mythoi de  Osíris e Cristo, embora as imagens da morte e ressurreição do grão ocorram, a morte de ambos é considerada como um evento histórico. A origem da ideia cristã de um Deus que salva a humanidade com a sua morte e ressurreição será discutida mais adiante. Por enquanto deve-se notar que nos primeiros documentos, ou seja, os Textos da Pirâmide, Osíris aparece como figura-chave em um ritual fúnebre praticado para alcançar imortalidade através do encenamento de sua lendária embalsamação e ressurreição.
A terceira deidade que encarna um aspecto distintivo do conceito de divindade egípcio é Seth. Originalmente este Deus era associado com o deserto e as tempestades, que, sem dúvida, revestiram-no de um caráter austero. Nos Textos da Pirâmide, ele aparece sobretudo como o assassino de Osíris. Este papel sinistro significava que, com a crescente popularidade do culto a Osíris, Seth foi gradualmente transformado em um Deus do mal. No pensamento religioso posterior, ele se tornou a personificação da desordem cósmica, sendo identificado com Apófis, a monstruosa serpente do caos que incessantemente ameaçava extinguir o sol. Assim, a teologia egípcia progressivamente assumiu um caráter dualista, embora o seu dualismo nunca se tornou tão radical quanto no Zoroastrianismo do antigo Irã.
O conceito mesopotâmico de divindade diferia de forma marcante do egípcio. Embora a religião dos povos da Mesopotâmia (os sumérios, babilônios e assírios) fosse politeísta como a do Egito, seus deuses formaram uma hierarquia que era cuidadosamente relacionada à parte constitutiva do universo. De acordo com antiga cosmologia mesopotâmica , o universo era constituído por quatro partes: o céu, a terra, as águas que envolviam a terra e o submundo dos mortos. Cada parte era governada por um Deus: Anu, que governava o céu, era o Deus prinicipal; depois vinha Enlil, que presidia a terra; Enki (ou EA), o deus das águas e Nergal, senhor do mundo dos mortos. Abaixo desta hierarquia cósmica estavam três divindades relacionadas com os principais corpos celestes: Sin (o Deus da lua), Shamash (o Deus do sol), e Ishtar (o planeta Vênus). A vegetação era deificada sob o nome sumério de Dumuzi. Essa divindade é geralmente conhecida pelo nome hebreu Tammuz, e Ezequiel 8:14 refere-se aos rituais de lamentação anual por sua morte. Na mitologia mesopotâmica, Tammuz era associado a Ishtar (que também era a deusa da fertilidade) como seu amante, por quem ele foi resgatado do mundo dos mortos.
O panteão mesopotâmico continha muitos outros deuses de menor importância, inclusive Deuses regionais, tais como Marduk da Babilônia e Assur da Assíria, aos quais era dada a liderança sobre os outros deuses por seus povos. Apesar dessa multiplicidade de deidades com diferentes funções, houve um conceito peculiar de divindade na Mesopotâmia, que encontra expressão em diversos mitos e lendas relativas às relações dos deuses com a humanidade. Contava-se que os deuses criaram os homens como servos que os isentariam da tarefa de alimentá-los e dar-lhes morada: daí a construção de templos e da oferta de sacrifícios dentro deles. Mas destes agentes humanos os deuses retinham a imortalidade que eles gozavam. Esta crença de que o homem não poderia sobreviver à morte profundamente afetou a Weltanschauung [visão de mundo] mesopotâmica; ela forneceu o tema principal da célebre Epopéia de Gilgamesh. Associado a esta crença estava um conceito de destino. Acreditava-se que, na economia divina, cada pessoa tinha um “destino”, ou seja, uma parte ou objetivo a cumprir. Quando os deuses já não tinha uso para um indivíduo, ele não tinha “destino” e, por isso, morria. Os deuses eram geralmente considerados benignos para com os seus servos e os protegiam de ataque demoníacos se eles fossem diligentes em suas obrigações.

Com efeito, a concepção mesopotâmica de divindade foi uma avaliação realista do mundo, como é entendida em termos do pensamento contemporâneo. A hierarquia dos deuses representava a ordem cósmica, por oposição às forças demoníacas do caos (a ideia é mitologicamente retratada no conflito entre os deuses e Ti’âmat, a personificação do caos primitivo, no épico babilônico da criação, conhecido como Enûma elish ). A finalidade e o bem-estar da humanidade residia na sua integração e no apoio da ordem divina.

Das religiões de outras culturas do antigo Oriente Próximo, a dos hebreus estava destinada a ter uma profunda influência sobre o pensamento ocidental posterior e sua cultura. A sua concepção de divindade estava essencialmente relacionada com o culto do deus Javé (Yahweh) e, em seu desenvolvimento, refletiu a transformação que o caráter da divindade passou através do tempo, devido a uma variedade de causas.
A origem do culto a Javé tem sido objeto de muita discussão entre especialistas. Parece ser geralmente aceito que a tradição hebraica reflete uma consciência de que o culto tinha sido especificamente adotado pelos ancestrais de Israel em alguma ocasião no passado. Assim, na literatura hebraica, é feita uma referência constante à ideia de que uma aliança tinha sido feita entre Javé e Israel. Tal aliança é dramaticamente descrita na história em que as tábuas da Lei são entregues a Moisés no Monte Sinai (Êxodo 19:1 e segs.). Várias explicações também foram oferecidas do local original do culto a Javé antes da sua adoção por parte de Israel, mas nenhum deles ganhou aceitação geral. O máximo que pode seguramente ser dito é que Yahweh parece ter sido um Deus do deserto, estreitamente relacionado à guerra.

Uma passagem em Êxodo (3:13-14), revela que os hebreus ficaram curiosos com o nome “Javé” (“Yahweh“) e tentaram explicá-lo etimologicamente. Assim, em resposta à pergunta de Moisés sobre o nome do Deus que tinha aparecido a ele no meio da sarça em chamas e o escolhido para ir encontrar os israelitas que estavam então em cativeiro no Egito, a divindade teria dito como resposta: “Eu Sou o que sou.” E ele disse, “Diga isso para o povo de Israel: EU SOU me enviou a vós.” Esta afirmação mistificadora é uma tentativa de tirar o nome “Yahweh” (tradicionalmente traduzido como “Jeová” em Inglês) a partir da raiz hạyah ou hāwāh do hebraico, que significa “ser”. Estudiosos modernos têm-se concentrado sobre o problema aqui, e uma variedade de interpretações foi sugerida: de acordo com a opinião expressa recentemente por um eminente especialista, a explicação em Êxodo 3:14 derivou de uma fórmula original, “Ele é quem cria o que vem à existência” (WF Albright, p. 148). Esta fórmula poderia ser comparada com o título Khepri do Deus-Sol egípcio, acima mencionado.
Qualquer que tenha sido o sentido original do nome “Javé” (“Yahweh“), não há dúvida de que ele teve alguns séculos antes da divindade ser firmemente estabelecida como o único Deus de Israel. Durante esse processo complexo, que é documentado pelos escritos ante-exílicos do hebraico bíblico, é provável que a concepção original de Javé (Yahweh) foi ajustada às necessidades da cultura agrária que as tribos israelitas tinham adotado durante sua colonização em Canaã. Assim, há provas da concepção de Yahweh em alguns dos atributos de El, o principal Deus cananeu.
Durante o período anterior ao Exílio, os profetas de Javé estavam essencialmente preocupados em apresentar Javé como o Deus que havia libertado os filhos de Israel da escravidão egípcia e lhes entregado Canaã como sua pátria. Representavam-no como um “Deus zeloso”, que comandava o seu povo eleito: “Não terás outros Deuses diante de mim” (Êxodo 20:3). É difícil ter a certeza de saber se, na fase anterior do desenvolvimento religioso de Israel, Javé era considerado como o único Deus do universo, ou como sendo mais poderoso que os Deuses de outros povos. Seja como for, os profetas de Javé colocaram tanta ênfase na supremacia e na onipotência de sua divindade que a religião que eles promoveram era essencialmente monoteísta. Assim, no mito da criação em Gênesis 2:4 e parágrafos seguintes, Javé é representado como o criador do universo e da humanidade. E assim, toda a ênfase foi colocada na onipotência dele e que ele é realmente o autor de ambos os bons e maus. (Por exemplo, é “um espírito maligno de Javé” que atormenta Saul em Samuel I 16:14, e Javé ordena David que conte o número dos filhos de Israel e, em seguida, castiga-o ao dizimar a população com uma pestilência em Samuel II 24:1 e seguintes)

Os profetas de Javé, além de sublinhar a onipotência de seu Deus, também o apresentaram como um Deus justo que exigia um alto padrão de conduta moral do seu povo. A incompatibilidade entre estes dois aspectos de Javé em breve se tornou evidente nos planos pessoal e comunitário.
O Javeísmo era essencialmente uma religião étnica: ela era essencialmente preocupada com a relação de Javé e seu povo escolhido de Israel. A lógica do Pacto de Sinai foi que Javé seria proteger e prosperar o seu povo, se fossem fiéis a ele. No período que antecede o exílio babilônico (586 aC), as várias catástrofes que Israel sofreu nas mãos de nações vizinhas foram explicadas pelos profetas como justo castigo de Javé por atos de apostasia. Mas a partir do exílio em diante uma nova atitude começa a aparecer. Uma vez que os infortúnios de Israel em relação a outras nações eram tais que não podiam ser explicados em termos da maior iniquidade de Israel, outra mensagem tinha de ser encontrada. Isto encontra expressão na literatura apocalíptica do período (200 aC-100 dC). Os profetas proclamaram que Javé vindicaria seu povo sofredor e puniria os seus opressores gentios.

Como Javé já estava firmemente estabelecido como o único Deus e Regente do universo, aquela fé apocalíptica tendia a assumir um caráter transcendente. Ela foi, aliás, condicionada pela influência do dualismo iraniano, que Israel tinha provavelmente encontrado através da sua incorporação ao império persa de Achaemenides depois do exílio (538 aC). Isto significava que a vindicação de Javé por Israel se tornou identificada com a derrocada total dos poderes demoníacos com quem os Deuses gentios dos opressores de Israel foram associados. Estas ideias estabelecidas um imaginário escatológico que representava o “Dia de Javé” como a queda catastrófica daquela ordem mundial e sua substituição por uma nova ordem sobrenatural, descrita como o “Reino de Deus” ou “Reino do Céu”. Em algumas formas dessa escatologia apocalíptica, um ministro sobrenatural de Javé, o Messias (“o Ungido”), era esperado para derrubar as forças do mal e julgar as nações (cf. Brandon, Julgamento, pp. 70ff.) . Essa intensa visão nacionalista de Javé logicamente proviera da idéia do Pacto, e, com várias modificações, ela é o que caracteriza a concepção judaica de divindade. Até mesmo quando uma concepção mais universalista da providência de Javé ocasionalmente encontra expressão, ela tem sido nos termos do peculiar status espiritual de Israel. A visão conciliadora de Zacarias 8:23 ilustra isso significativamente: “Assim diz o SENHOR dos Exércitos [ou seja, Javé]: Naquele dia sucederá que pegarão dez homens, de todas as línguas das nações, pegarão, sim, na orla das vestes de um judeu, dizendo: Iremos convosco, porque temos ouvido que Deus está convosco.”

A discrepância entre a ideia do Deus de Israel como onipotente e justo e a sina infeliz dos próprios israelitas foi explicada de acordo com os termos de sua escatologia apocalíptica.  Na esfera individual, o problema das relações de Javé encontrou a sua solução da mesma maneira. Esse problema surgiu a partir da doutrina original javeísta sobre a natureza humana, o que impedia qualquer esperança de uma vida post-mortem significativa para o indivíduo. Em vez disso, era ensinado que os devotos seriam recompensados com vida longa e prosperidade no mundo, e os ímpios seriam punidos pelo infortúnio e morte precoce. Na morte, a sombra do indivíduo desceria a uma existência miserável nas sombrias profundezas do Sheol, que era a contrapartida hebraica de kurnugia, a mesopotâmica “terra do não-retorno.” Mas como a experiência provou muitas vezes que era os devotos que eram atormentados com a desgraça e a morte precoce, enquanto os ímpios floresciam como a proverbial árvore verde da terra natal[ referência a Salmos 37:35], um senso emergente de individualidade  em Israel trouxe um questionamento sobre a justiça de Javé.

O problema foi discutido no livro de Jó, um dos melhores produtos da literatura hebraica. Os infortúnios de Jó são apresentados como um caso que abre precedentes; porque Jó é um homem íntegro e devoto, a fim de que o sofrimento que lhe suceder seja comprovadamente imerecido. O drama gira em torno da crença de Jó de que Deus é onipotente e justo, e da existência de provas conflitantes do seu próprio sofrimento imerecido. A agonia da fé de Jó torna-se mais pungente porque ele aceitava o ponto de vista ortodoxo de que a morte seria seu fim. Embora o problema seja muito discutido, nenhuma solução adequada dentro destes termos foi encontrada pelo autor do livro. De fato, tal solução não foi encontrada em nenhum outro lugar de Israel até o segundo século a.C., quando finalmente uma crença na ressurreição dos mortos foi aceita no judaísmo. Com esta crença veio também uma crença num julgamento post-mortem, para que a justiça de Javé fosse levada a cabo após a morte, se não tivesse sido nesta vida. A descrição da Último Julgamento em II (IV) Esdras 7:32-38, no entanto, mostra graficamente como o poderoso fator étnico ainda estava na concepção judaica de Deus no primeiro século d.C., porque alí o destino post-mortem dos indivíduos ainda está insensivelmente fundido ao julgamento divino das nações.

Na história das religiões,  a concepção judaica de Deus é notável pela sua encarnação da profunda convicção de que Deus, com o seu inefável nome de Javé, tinha escolhido especialmente os descendentes de Abraão para um único destino: ou seja, para ser seu povo santo e ser alojado por ele na terra de Canaã, onde ele deveria ser cultuado no grande templo de Jerusalém, construído no local que ele tinha escolhido. Esta convicção foi apresentado em uma literatura fantástica, que definiu o padrão distintivo da concepção judaica, a saber, de Deus como o “Senhor da História.” Esse título tem sido utilizado por estudiosos para descrever a maneira pela qual a Bíblia mostra como a providência de Javé para com Israel foi progressivamente revelada nos acontecimentos históricos, ou o que é apresentado como acontecimentos históricos. A revelação envolve uma visão linear do tempo, que era incomum, porque, para os mais antigos povos entendiam o processo temporal de maneira cíclica. Para os judeus, a história tem sido Heilsgeschichte, ou seja, “Salvação-História”, ou, em outras palavras, um processo teleológico em que o objetivo de Javé para Israel tinha sido progressivamente revelado e cumprido. Esta concepção teleológica foi, no decorrer de tempo, transmitida ao pensamento e à cultura ocidental pelo cristianismo. No entanto, antes de a idéia cristã de Deus poder ser considerada adequadamente, é necessário avaliar as concepções da divindade na antiga Grécia e Irã, porque eles também contribuíram para a situação religiosa do mundo greco-romano em que o Cristianismo nasceu , e pelo qual foi influenciado.

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(Tradução feita por mim do texto The Idea of God from PreHistory to the Middle Ages do Dictionary of the History of Ideas)

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Os Manuscritos do Mar Morto

2007-04-14 / História, Mitologia, Religião / 1 Comments

Manuscritos

Manuscritos do Mar Morto ainda fascinam, 60 anos após a sua descoberta

Todas as vezes que os Manuscritos do Mar Morto são exibidos em qualquer parte do mundo, multidões de crentes postam-se em frente às vitrines climatizadas e observam maravilhados os antigos documentos.

À primeira vista, tal fascinação é irônica. Os fragmentos estão apagados – e alguns se tornaram totalmente pretos – devido à idade e aos efeitos dos aminoácidos das peles de animais nas quais os textos foram redigidos. A maioria se encontra ilegível.

Mesmo assim, os antigos pergaminhos, cuja descoberta fará 60 anos neste ano, não cessam de estimular a imaginação e proporcionam vislumbres importantes da vida da antiga Israel no alvorecer do cristianismo.

Acredita-se que os cerca de 930 documentos bíblicos e seculares tenham sido escritos por uma seita judaica dissidente entre 250 B.C. e 68 D.C.

Nos últimos anos, o mundo presenciou a pseudo-história altamente popularizada pela mídia, “O Código da Vinci”, a narrativa do “Evangelho Perdido de Judas” e a duvidosa alegação da descoberta da “tumba perdida” de Jesus.

Mas os especialistas consideram os Manuscritos do Mar Morto uma descoberta autêntica e sem paralelos. “Eles se constituem na descoberta arqueológica mais significativa do século 20″, afirma Adolfo Roitman, curador encarregado dos Manuscritos do Mar Morto no Museu de Israel, em Jerusalém.

A importância do pergaminho para os estudos religiosos e históricos não diminuiu com a passagem do tempo. Eles modificaram a forma como o mundo entendia a Bíblia.

“Eles são como ossos de dinossauros, tendo permanecido intocados por quase 2.000 anos e, apenas por acaso, através de um túnel no tempo, fomos capazes de chegar à antiguidade por meio desses pergaminhos, observando um fragmento de uma era importante para a formação da civilização ocidental”, diz Roitman.

À época da descoberta, os pergaminhos eram mil anos mais antigos do que qualquer outro texto bíblico. Eles contêm as mais antigas cópias conhecidas do Velho Testamento, ou Bíblia Hebraica. A maioria dos manuscritos é anterior ao mais antigo livro do Novo Testamento, seja a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, seja a Epístola aos Gálatas, que foram redigidas por volta de 50 D.C.

A descrição, contida nos pergaminhos, de um grupo de judeus ascetas conhecidos como essênios, que foram tomados por idéias relativas ao Armagedon, e que viveram à época de Jesus, continua a fascinar e a gerar questões relativas ao judaísmo e à vida antiga na Terra Santa.

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Os textos abriram uma nova janela para o entendimento do sectarismo que tomou conta da antiga Israel durante a ocupação romana e da intensidade da oposição dos judeus a outras doutrinas religiosas presentes em Jerusalém.

Nos manuscritos não há referências diretas a Jesus ou aos seus ensinamentos. E os documentos não oferecem nenhuma evidência aos cristãos que imaginariam que as pessoas que redigiram os textos conheceram Jesus, ou que o próprio Jesus teria sido o autor dos manuscritos.

Não obstante, os pergaminhos foram escritos por contemporâneos de Jesus, e revelam as esperanças e os temores do povo para o qual ele pregava, assim como as características da era em que essas pessoas viveram.

“É um mundo repleto de anjos e demônios. Um mundo no qual Deus está em luta contra Satanás. Um universo no qual existe possessão demoníaca e a possibilidade de curas, como as que Jesus teria praticado. É um mundo muito interessante, no qual ouve-se falar sobre a chegada de vários ou de um só Messias”, afirma James H. Charlesworth, professor especializado no Novo Testamento, que leciona no Seminário Teológico de Princeton, em Nova Jersey.

Os primeiro pergaminhos foram descobertos em 1947 por um pastor beduíno que achou que poderia haver ouro escondido nas cavernas próximas a Qumran. Essas cavernas se espalham pelas escarpas amareladas que se erguem 400 metros acima do lago de menor altitude do mundo, o Mar Morto.

Em vez disso, o pastor, Jum’a Muhamed Khalil, ouviu o som de potes de barro se quebrando quando moveu uma pedra que bloqueava a estreita entrada da caverna.

Os quatro pergaminhos que Khalil e dois outros pastores encontraram nos jarros e levaram para um vendedor de antiguidades em Belém renderam ao beduíno US$ 64,80. Em 1957, os outros manuscritos foram descobertos durante uma corrida aos tesouros arqueológicos no estilo Indiana Jones.

Hoje em dia, a caverna na qual Khalil descobriu os primeiros Pergaminhos do Mar Morto não contam com nenhum sinal identificador e estão infestadas por morcegos, e tão desoladas como provavelmente costumavam ser para aqueles que a usaram como local de armazenagem há mais de 2.000 anos.

Com o auxílio de modernos instrumentos, como aparelhos de imagem digital e fotografia infravermelha, os manuscritos – redigidos em sua maioria em peles de bois ou de carneiros com uma tinta que era uma mistura de fuligem, goma, óleo e água – foram traduzidos, para não dizer decodificados.

O que é óbvio para os acadêmicos em relação aos manuscritos – e consternador para os literalistas bíblicos – é que Deus não entregou a Bíblia na sua forma atual aos homens.

Segundo os acadêmicos, o conteúdo e a estrutura da Bíblia evoluíram a partir de textos anteriores.

A Escritura Judaica e aquilo que os cristão chamam de Velho Testamento foram adaptados por editores a fim de se adequarem às necessidades sociais, políticas, pessoais e devocionais desses indivíduos e das suas comunidades.

Os criadores dos manuscritos fizeram eles próprios as Escrituras, de forma semelhante ao que os fiéis fazem hoje em dia, conscientemente ou não, adotando e enfatizando alguns textos, e ignorando ou descartando outros.

“A Bíblica Hebraica está longe de ter descido do Monte Sinais em tábuas de pedra, tendo sido o produto de um longo processo de edição”, afirma Timothy H. Lim, professor de Bíblia Hebraica e de Judaísmo do Segundo Templo na Universidade de Edimburgo, na Escócia.

Os pergaminhos continuam chamando atenção porque além dos cerca de 200 manuscritos bíblicos eles contém poemas e histórias sobre gigantes, anjos, horóscopos e calendários. Ele falam nebulosamente de “Filhos do Alvorecer”, de “Filhos da Luz”, do “Homem da Mentira”, do “Professor da Retidão” e de uma figura messiânica moribunda.

Esse estilo vago e floreado deu margem à especulações livres sobre a identidade dessas figuras e lançou os pesquisadores em direções bizarras.

Por exemplo, John Allegro escreveu um best-seller sobre os pergaminhos e mais tarde um outro livro intitulado “Os Cogumelos Sagrados e a Cruz”, no qual alega que o judaísmo e o cristianismo foram produtos de um culto antigo baseado em sexo e cogumelos.

Durante mais de 40 anos, o acesso aos pergaminhos se restringiu a um pequeno grupo de editores – todos cristãos – trabalhando sob a supervisão da Autoridade de Antiguidades de Israel. Isso fez com que surgissem acusações de que os manuscritos continham informações que minavam os princípios fundamentais do judaísmo e do cristianismo e que os acadêmicos procuravam ocultar a verdade.

Os acadêmicos judeus que estudaram os manuscritos foram acusados de tentarem fazer com que o cristianismo se parecesse mais com o judaísmo, enquanto os acadêmicos cristãos foram acusados de fazer com que o judaísmo lembrasse o cristianismo.

O reverendo Jerome Murphy-O’Connor, um padre católico e famoso estudioso da Bíblia em Jerusalém, afirma que parte do atual fascínio pelos pergaminhos está enraizado no mesmo fenômeno responsável pela aquisição de mais de 40 milhões de volumes de “O Código da Vinci”.

“A população está cada vez mais interessada na história ‘não oficial’ da Bíblia nesta era de ceticismo”, afirma ele. “As pessoas estão cada vez mais se sentindo extremamente abandonadas pelos políticos e líderes religiosos. Elas acreditam que são enganadas, manipuladas e ludibriadas”, explica Murphy-O’Connor.

“É por isso que a própria igreja é a responsável pelo sucesso de ‘O Código da Vinci’ – porque ela mantém tanta coisa em segredo e desapontou tanta gente no que diz respeito à questão da pedofilia”, critica o sacerdote.


Porém, enquanto “O Código da Vinci” não passa de especulação envernizada por uma camada tênue de fatos, os Manuscritos do Mar Morto são autênticos.

Mas os pergaminhos continuarão fornecendo matéria-prima para aqueles que os tratam como um teste Rorschach religioso, no qual eles só vêem aquilo que querem, a despeito do amplo consenso acadêmico pelo contrário.

O fascínio e as controvérsias em torno dos pergaminhos não dão mostras de diminuir.

Charlesworth, do Seminário Teológico de Princeton, acredita que a teologia judaica da época de Jesus pode ter se baseado bastante nas idéias do zoroastrismo, uma religião monoteísta pré-islâmica da antiga Pérsia.

A Autoridade de Antiguidades Israelenses divulgará no final deste ano um relatório rejeitando a teoria amplamente aceita de que a antiga cidade de Qumran e os seus habitantes essênios escreveram os manuscritos. O documento afirmará que os pergaminhos foram depositados nas cavernas por judeus que fugiam da perseguição romana, afirma Yuval Peleg, um dos autores do relatório.

Ainda mais impressionante é a conclusão do estudo do chamado “Pergaminho de Cobre” e a sua referência a conjuntos de tesouros enterrados nas montanhas da Judéia.

Murphy-O’Connor diz que ele e a editora de estudos, Emile Puech, concluíram que as referências feitas no pergaminho ao tesouro não são de forma nenhuma simbólicas.

Puech acredita que o tesouro é real, e eu também acredito nisso”, afirma Murphy-O’Connor.

*Craig Nelson é um jornalista freelance a serviço da Cox Newspapers

Tradução: UOL

Autor: Craig Nelson*
Em Kibbutz Kalia, Israel

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2007-02-15 / História, Mitologia, Religião / 0 Comments

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2007-02-01 / História, Mitologia, Religião / 1 Comments

indios tapuias

A Reforma Protestante foi um movimento que começou no século XVI com uma série de tentativas de reformar a Igreja Católica Romana e levou subsequentemente ao estabelecimento do Protestantismo. Houve divisão na Igreja entre os «católicos romanos» de um lado e os «reformados» ou «protestantes» de outro; entre esses, surgiram várias igrejas, das quais se destacam o Luteranismo (de Martinho Lutero), as igrejas reformadas e os Anabaptistas. A Reforma teve intuito moralizador, colocando em plano de destaque a moral do indivíduo (conhecedor agora dos textos religiosos, após séculos em que estes eram o domínio privilegiado dos membros da hierarquia eclesiástica). Sua principais figuras foram Jan Huss (1370-1415), Martinho Lutero (1483-1546) e João Calvino (1509-1564). A resposta da Igreja foi o movimento conhecido como Contra-Reforma. Com a descoberta “oficial” do Brasil em 1500 e sua colonização, a doutrina prevalente foi a da Igreja Católica. No entanto, como lê-se no artigo abaixo, ela não foi a única a “catequizar”, ou seja, a impor sua doutrina aos índios que aqui viviam. Vale lembrar que aqui no Brasil usa-se o termo “evangélico” para se referir aos protestantes.


Três vezes a igreja protestante foi implantada no Brasil Colônia, três vezes foi expulsa pelos portugueses católicos. Primeira vez: a igreja reformada dos franceses no Rio de Janeiro (1557-1558); segunda, a dos holandeses na Bahia (1624-1625); terceira, a dos holandeses, alemães, ibéricos, ingleses, franceses e índios no Nordeste, quase 30 anos depois.

A história da igreja protestante indígena durante a ocupação holandesa do Nordeste (1630-1654) está registrada em vários arquivos, especialmente em Amsterdã e Haia, na Holanda.

No século XVII, Bahia, Rio de Janeiro e Pernambuco constituíam os três principais centros urbanos do Brasil Colônia. A riqueza produzida pelo açúcar brasileiro ajudava a Espanha a consolidar o seu domínio, enquanto procurava estrangular a jovem República dos Países Baixos – ou seja, a Holanda. (…)

Infelizmente, quanto à escravidão africana, na época as consciências cristãs era subdesenvolvidas. Quando o pastor Jacobus Dapper questionou se era lícito ao cristão negociar ou possuir escravos africanos, até o conde de Nassau afirmou que se tratava de escrúpulos desnecessários.

Nassau se conformava ao espírito de seu tempo, mas contrariava o pensamento do pai espiritual da Companhia, o belga Willem Usselinex, e do patriarca da Igreja Reformada, o francês João Calvino.

O derradeiro período da missão da Igreja Cristã Reformada começou com a realização de duas importantes assembléias, uma eclesiástica, outra política. A mesa da Assembléia Geral das Igrejas recebeu pedidos de tribos que queriam receber seus próprios obreiros.

O professor Dionísio Biscareto foi ordenado pastor e dois brasilianos nomeados professores. Poucos meses antes da chamada insurreição pernambucana, em 1645, realizou-se a primeira grande assembléia indígena, com 120 representantes, em Itapecerica, na capitania de Itamaracá.

Foram organizadas três câmaras,: a câmara de Itamaracá, dirigida pelo índio Carapeba; a de Paraíba, pelo índio Pedro Poti; e a do Rio Grande, pelo índio Antônio Paraupaba.

O teste final e violento da missão reformada veio com a eclosão da guerra de restauração portuguesa. Os documentos atestam a impressionante fidelidade dos brasilianos refugiados ao redor das fortalezas litorâneas.

O mais famoso desses registros são as chamadas cartas tupis, trocadas entre dois primos colocados em campos opostos, o capitão-mór Filipe Camarão e Pedro Poti. Camarão era defensor do lado luso-católico na guerra; Poti, defensor do lado flamengo-reformado. Essa correspondência deixa claro a estreita vinculação entre fé e nação, igreja e Estado. Filipe Camarão escreveu: não quero reconhecer a Antônio Paraupaba, nem a Pedro Poti, que se tornaram hereges [...].

Em resposta datada de 31 de outubro de 1645, dia da Reforma Protestante, Poti garante que seus índios viviam em maior liberdade do que os outros, ressaltando que os portugueses queriam apenas escravizá-los.

Poti lembra a Camarão as matanças ocorridas na baia da Traição e em Sirinhaém, havia poucas semanas, quando os portugueses, após a rendição da frota holandesa, mataram perversamente 23 índios prisioneiros de guerra, quebrando as condições previamente acordadas.

Confessou também ser cristão, crendo somente em Cristo, não desejando contaminar-se com a idolatria, e convidou seus parentes e amigos a passar para o lado dos piedosos, que nos reconhecem no nosso país e nos tratam bem.

Ambos os primos não veriam o final dessa luta sangrenta: Camarão faleceu em 1648, depois da primeira batalha de Guararapes, e Poti no ano seguinte foi preso no cabo Santo Agostinho pelos portugueses. Segundo testemunho de Paraupaba, Poti foi lançado num poço, onde permaneceu durante seis meses.

Retirado de vez em quando, padres se atiravam sobre ele, tentando obrigá-lo a abjurar a religião protestante. Poti, entretanto, resistiu bravamente na fé protestante, e foi embarcado para Portugal, para as câmaras de tortura do Santo Ofício, mas a viagem não acabou, atalhada pela morte.

A guerra de restauração aproximou ainda mais os índios dos holandeses e apenas o pacto com os brasilianos garantiu a resistência flamenga durante nove anos.

Quando não houve mais condições de manter Recife, com as tropas luso-brasileiras às portas das fortificações e a armada portuguesa á entrada do porto, o Nordeste foi devolvido a Portugal. Terminava, também, a missão cristã reformada, impossível sem a proteção de um país protestante.

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