O Conceito de “Deus” – parte IIII

IV. Hinduísmo, Budismo, a Religião Chinesa e o Islamismo
A concepção hindu de divindade combina, ou melhor,compreende, duas tradições distintas que podem ser convenientemente designadas de “popular” e de “filosófica.”
A primeira começa com a civilização do Vale do Indo do terceiro e segundo milênio a.C.,e com as tribos arianas que entraram no noroeste do continente cerca de 1400 a.C. A religião dos povos do Vale do Indo é conhecida apenas por dados arqueológicos que se revestem de significado incerto, mas é razoável inferir que várias divindades foram cultuadas, e que algumas podem ter sido protótipos de outras divindades hindus posteriores. As crenças religiosas dos arianos estão documentadas nos hinos do Rig-Veda, que são dirigidos a uma variedade de divindades. Os deuses em questão eram principalmente deificações de fenômenos cósmicos. O mais proeminente é Indra, um Deus das Tempestades, concebido como um vitorioso Deus-guerreiro. Outros deuses importantes eram Varuna, um Deus celeste associado à ordem cósmica (rta); Agni, o Deus do Fogo, identificado com o fogo ritual que consumia as vítimas sacrificiais; Rudra, um Deus perigoso que trazia doenças; Yama, o Deus da Morte e Senhor do Mundo dos Mortos. Estas deidades muitas vezes tinham um caráter ambivalente: por exemplo, Rudra não só infligia sofrimento, mas também curava doenças.
Como algumas das divindades védicas e as outras dos povos do Vale do Indo se tornaram os deuses do hinduísmo apresenta muitos problemas que ainda estão por resolver. Da complexa multiplicidade de deuses hindus, dois são de extrema importância e distinção, a saber, Vishnu e Shiva. Cada um tem uma natureza ambivalente e caracteriza os aspectos criativos e destrutivos do mundo empírico.
Assim, no Bhagavad-Gita, um dos documentos fundamentais do hinduísmo, Vishnu é primeiramente descrito, em toda a multiplicidade e complexidade de seu ser, como o Criador e Mantenedor do universo. Depois segue uma outra visão. O Deus aparece como uma criatura monstruosa , com muitas bocas e dentes terríveis, para a qual todos os seres vivos vão para a seu fim. Essa terrível divindade anuncia como explicação: “Saiba que eu sou o Tempo que faz os mundos perecerem e trago-lhes a destruição”(Bhagavad-Gita, XI: 32). Esta equação com o Tempo é significativa, e lembra Zurvan, o Deus-Tempo persa. Essa equação diz respeito à interpretação hindu da realidade: a existência, em todos os fenômenos do mundo, envolve um processo de vida e morte; por que o Tempo rege este mundo e tudo que está nele; e seu processo é cíclico. No entanto, apesar desta revelação do aspecto terrível de Vishnu, o Bhagavad-Gita ensina que a divindade era benigna para aqueles que a adoravam com uma profunda devoção pessoal (bhakti).
Shiva, a outra grande divindade do hinduísmo, que comanda a fidelidade de milhões de pessoas, também representa os aspectos criativos e destrutivos do mundo. Seu poder criativo é simbolizado pelo lingam ou falo. Na iconografia, ele é retratado como Nataraja ( “Rei dos Dançarinos”), que executa a dança cósmica, simbolizando a energia do universo, perpetuamente criando, mantendo e destruindo as formas em que se manifesta. Como Bhairava, o terrível destruidor, Shiva é imaginado assombrando locais de cremação, enrolado por serpentes e usando um colar de caveiras. Ele é também chamado de Kala-Rudra (Tempo que a tudo devora). Por uma estranha transformação do imaginário, o śakti ou energia ativa de Shiva, foi personificada numa deusa. Este processo resultou na concepção da Deusa Kali, que também personifica o Tempo. Ela é muitas vezes representada pisoteando sobre o corpo cadavérico de Shiva, de quem ela emanou. Em sua iconografia, ela retrata o incessante ciclo de vida e morte manifesto no mundo natural.
A concepção filosófica da divindade que encontra expressão nos Upanishads é difícil de definir porque ela é fundamentalmente impreciso, sendo apresentada um imaginário e uma terminologia que é ao mesmo tempo sutil e complexa. “Brahman” significa a Realidade Última com a qual o “Atman” (o “Self“) é identificado; por sua vez o ‘Self” (Atman) de cada pessoa é idêntico com o transcendente Atman. A sutileza dessa equação é descrita nesta passagem do Řatapatha Brahmana (X.6.3): “Deve-se venerar Brahman como a Verdade …. Deve-se venerar o “Self” (Atman) que subsiste na mente … maior do que o céu, maior do que o espaço, maior do que esta terra, maior do que todas as coisas existentes. Ele é o “Self” da respiração (vida), ele é meu próprio “Self“(Zaehner [1962], p. 66). A partir do conceito de Brahman, a idéia de um Deus criador pessoal chamado Brahma foi derivada e foi feita uma tentativa de relacioná-lo às outras duas grandes divindades do hinduísmo, Shiva e Vishnu, em uma Trimūrti, ou seja, “Um Deus em três formas”: Brahma (o Criador), Vishnu (o Mantenedor), e Shiva (o Destruidor). No entanto, essa concepção nunca se estabeleceu no hinduísmo popular.
O Budismo tem sido muitas vezes descrito como ateu. Tal avaliação, sem qualquer outra qualificação, é enganadora -, uma vez que geralmente é baseada em alguns pressupostos tácitos do que constitui uma divindade. Até onde a natureza natural e essencial do Budismo pode ser determinada, pode ser afirmado que não está preocupado com a ideia de um Deus como o Criador do universo. O Buda tentou emancipar as pessoas de verem este mundo como realidade absoluta e de se envolverem nela. Contudo, uma vez que o conceito budista de Nirvana é descrito como Verdade, Realidade, o Bom, e por adjetivos como “inexistível”, “imortal”, “imutável”, isso pode ser considerado como a essência constitutiva da divindade. Na sua forma popular, o Budismo é teístico de duas maneiras. Muitos dos Deuses do Hinduísmo foram reconhecidos como entidades super-humanas; porém, como o ser humano, eles estão sujeitos à decadência e morte e às leis de Samsara ( “renascimento”) e carma. No entanto, outro aspecto importante foi a divinização do próprio Buda. Sua imagem em templos é tratada como um objeto sagrado e é o foco do culto. E aqueles que são considerados terem sido ou os que serão outras formas do Buda, tais como Adibuddha e Amitabha (Amida), e Bodhisattvas como o Avalokitesvara, também foram deificados e cultuados. Nesta última concepção budista de divindade, no entanto, o fator operativo tem um significado soteriológico; pouca preocupação é mostrada sobre os atributos cosmológicos ou metafísicos que caracterizam as concepções de outras religiões.
Na China, em torno de 1000 a.C., os reis da Dinastia Chou efetuaram uma mudança religiosa que teve uma influência duradoura. Buscando evitar o culto de Ti, o divino antepassado-fundador da dinastia Shang, o qual tinham suplantado, começaram a chamar esta antiga divindade de Shang Ti, ou seja, o Ti superior ou o Supremo Ti, e equacionaram-no com T’ien, a deificação do Céu. Essa nova divindade foi apresentada como o Deus supremo, cujo principal interesse seria a prosperidade e o bem-estar do povo chinês. Com esse objetivo, ele foi concebido para requerer um bom governo e atento para remover governantes que não cumprissem essa missão, assim como tinha retirado a Dinastia Shang. O culto a Shang Ti tornou-se o culto oficial do estado com o imperador como seu carismático alto-sacerdote, sendo ele próprio o Filho do Céu. O ato supremo do culto nacional era o sacrifício anual para Shang Ti, no solstício de inverno, oferecido pelo imperador no Altar do Céu, em Pequim. Embora fosse o Deus do culto oficial, essa deificação do Céu poderia ser objeto de devoção pessoal, como ensina o grande filósofo Mo-Tzu (fl. 400 d.C.). Mo-Tzu também falou do “Caminho” (Tao) do Céu como uma espécie de ordenação divina providencial do mundo. O termo Tao também foi utilizado pelos primeiros taoístas para descrever o princípio eterno do ser, aquele que reside e mantém o universo. Segundo o importante Tao te Ching, o Tao é “sem forma, mas completo , “ele antecede o céu e a terra,” assim como “o céu, mãe de todos que estão abaixo”, e o sábio procura estar em perfeita harmonia com ele. Este naturalismo que caracterizava o pensamento chinês antigo também encontra expressão nos conceitos de Yin e Yang, considerados como princípios que se alternam, manifestos em cada aspecto da vida.
Entretanto, a tendência para o monismo ou dualismo não excluiu o reconhecimento de formas menores de divindade; e a religião chinesa incluiu tanto o culto aos ancestrais quanto a crença em uma inumerável variedade de deuses menores e espíritos.
A palavra árabe “Alá” (Deus) é uma forma abreviada de “alilah” ( “O Deus”), e que exprime a quintessência da concepção muçulmana de Deus. Uma ênfase enorme é colocada no Corão sobre a unidade de Alá (Deus), muitas vezes com referência à deificação cristã de Jesus e Maria.
Dessa maneira, Maomé proclama sua divindade: “Alá: não há outro Deus senão Ele,o Vivente, o Auto-subsistente…. Ele é o Altíssimo, o Todo Poderoso” (Sūrah 2:256). Em todo o Corão, Alá é apresentado como o Criador e o Juiz Implacável da humanidade no fim do mundo. Quando ressalta a onipotência e onisciência de Alá, Maomé envolveu-se nos inevitáveis problemas sobre predestinação divina e o livre arbítrio humano com que teólogos judeus e cristãos tinham se preocupado. Inconsistentemente ele apresenta Alá como aquele que predestina os homens severamente para a salvação ou a danação e, ao mesmo tempo, ele também o descreve como “o Misericordioso, o Piedoso”.
Muitas dessas inconsistências provavelmente decorrem de sua própria experiência espiritual , e porque ele era um profeta por natureza, e não um pensador. No pensamento muçulmano subsequente, a concepção de Alá foi bastante desenvolvida. Os tradicionais noventa e nove nomes de Alá constituem uma grande lista de qualidades atribuídas a ele, e tentativas foram feitas para explicar as ideias antropomórficas e a terminologia utilizada no Corão. No entanto, apesar dessas sofisticações, a concepção muçulmana de Deus permaneceu basicamente a mesma que Maomé proclamou, sob o impulso da sua própria inspiração peculiar, e em reação ao politeísmo primitivo de seus compatriotas árabes e os contatos dele com o Judaísmo e com o Cristianismo.
Como conclusão desta pesquisa, deve ser observado que, de uma maneira sutil mas muito significativa, ainda não foi devidamente investigada, a noção de divindade reflete o caráter de um povo ou cultura que a produziu. Também deve-se considerar que certos atributos como poder, imortalidade e eternidade representam comumente noções gerais do que constitui uma divindade, as formas em que as divindades foram concebidas são curiosamente variadas. Basta mencionar, por exemplo, a aparência das divindades no antigo Egito, no Hinduísmo e no Cristianismo.







