
A relação entre ciência e religião é um assunto complexo que frequentemente vem à tona para provocar discussões acaloradas. Para alguns, ciência e religião são conflitantes e irreconciliáveis. Para outros, ambas têm finalidades diferentes, lidam com aspectos diferentes da experiência humana e, portanto, qualquer conflito é apenas ilusório. Outros ainda argumentam que religião e ciência interagem em colaboração. Além disso, a opinião de cientistas sobre o assunto tem forte influência sobre a imaginação popular, cuja tendência é, a princípio, pensar que ciência e religião são sempre antagônicas.
Em Mito e Significado, Claude Lévi-Strauss afirma estar bem informado sobre a metodologia científica e as últimas descobertas da ciência e que, portanto, ele diz ter a
a sensação de que a ciência moderna, na sua evolução, não se está a afastar destas matérias perdidas, e que, pelo contrário, tenta cada vez mais reintegrá-las no campo da explicação científica. O fosso, a separação real, entre a ciência e aquilo que poderíamos denominar pensamento mitológico, para encontrar um nome, embora não seja exatamente isso, ocorreu nos séculos XVII e XVIII. Por essa altura, com Bacon, Descartes, Newton e outros, tornou-se necessário à ciência levantar-se e afirmar se contra as velhas gerações de pensamento místico e mítico, e pensou-se então que a ciência só podia existir se voltasse costas ao mundo dos sentidos, o mundo que vemos, cheiramos, saboreamos e percebemos; o mundo sensorial é um mundo ilusório, ao passo que o mundo real seria um mundo de propriedades matemáticas que só podem ser descobertas pelo intelecto e que estão em contradição total com o testemunho dos sentidos. Este movimento foi provavelmente necessário, pois a experiência demonstra-nos que, graças a esta separação – este cisma, se se quiser –, o pensamento científico encontrou condições para se autoconstituir.
Assim, tenho a impressão de que (e, evidentemente, não falo como cientista – não sou físico, não sou biólogo, não sou químico) a ciência contemporânea está no caminho para superar este fosso e que os dados dos sentidos estão a ser cada vez mais reintegrados na explicação científica como uma coisa que tem um significado, que tem uma verdade e que pode ser explicada.
Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, pp. 9,10
Portanto, para ele, se houve algum confronto entre o pensamento científico e o mitológico, isto se deveu ao ímpeto inicial dos homens de ciência em pôr enfase em seu método e a qualificar o outro como pensamento “primitivo” ou “inferior”. Trata-se de uma questão datada que, embora ainda hoje encontre alguma ressonância, já há muito deixou de ser a visão predominante graças ao avanço das ciências exatas e das humanas. Por isso, diz Lévi-Strauss,
…creio que há certas coisas que perdemos e que devíamos fazer um esforço para as conquistar de novo, porque não estou seguro de que, no tipo de mundo em que vivemos e com o tipo de pensamento científico a que estamos sujeitos, possamos reconquistar tais coisas como se nunca as tivéssemos perdido; mas podemos tentar tornar-nos conscientes da sua existência e da sua importância.
Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p. 9
Assim como Joseph Campbell, a despeito das diferenças no trabalho de ambos, Lévi-Strauss estava profundamente interessado nas semelhanças mais significativas das mitologias e culturas que estudou. Como ele mesmo diz:
É provável que não haja muito mais que isto na abordagem estruturalista; é a busca de invariantes ou de elementos invariantes entre diferenças superficiais.
Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p.12
Apesar da aparente desordem, da grandeza de diferenças e da riqueza de manifestações, o papel do pesquisador é, como ele atesta, perquirir todo esse material e tentar encontrar uma ordem, um campo de convergências diante do qual as diferenças começam a desaparecer.
As histórias de caráter mitológico são, ou parecem ser, arbitrárias, sem significado, absurdas, mas apesar de tudo dir-se-ia que reaparecem um pouco por toda a parte. Uma criação «fantasiosa» da mente num determinado lugar seria obrigatoriamente única – não se esperaria encontrar a mesma criação num lugar completamente diferente. O meu problema era tentar descobrir se havia algum tipo de ordem por detrás desta desordem aparente – e era tudo.
Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p.15
E não há dúvida de que Campbell e Lévi-Strauss estão plenamente de acordo com esse preceito. Para ambos,
O problema é descobrir aquilo que é comum a todos. É um problema, poder-se-ia dizer, de tradução, de traduzir o que está expresso numa linguagem – ou num código, se se preferir, mas linguagem é suficiente – numa expressão de uma linguagem diferente.
Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p.12
E quando se fala em linguagem, fala-se em significado ou níveis de significação. Lévi-Strauss faz uma observação muito rica em relação ao problema do que chamamos de significado. Segundo expõe, dizemos que uma coisa tem significado não apenas porque é inteligível, mas também porque ela pode ser traduzida.
Segundo penso, é absolutamente impossível conceber o significado sem a ordem. Há uma coisa muito curiosa na semântica, é que a palavra «significado» é provavelmente, em toda a língua, a palavra cujo significado é mais difícil de encontrar. Que é que significa o termo «significar»? Parece-me que a única resposta que se pode dar é que «significar» significa a possibilidade de qualquer tipo de informação ser traduzida numa linguagem diferente. Não me refiro a uma língua diferente, como o francês ou o alemão, mas a diferentes palavras num nível diferente. No fim de contas, esta tradução é a que se espera de um dicionário – o significado da palavra em outras palavras que, a um nível ligeiramente diferente, são isomórficas relativamente à palavra ou à expressão que se pretende perceber. E porque não se pode substituir uma palavra por qualquer outra palavra, ou uma frase por qualquer outra frase (arbitrárias), tem de haver regras de tradução. Falar de regras e falar de significado é falar da mesma coisa; e, se olharmos para todas as realizações da Humanidade, seguindo os registos disponíveis em todo o mundo, verificaremos que o denominador comum é sempre a introdução de alguma espécie de ordem. Se isto representa uma necessidade básica de ordem na esfera da mente humana e se a mente humana, no fim de contas, não passa de uma parte do universo, então quiçá a necessidade exista porque há algum tipo de ordem no universo e o universo não é um caos.
Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, pp. 15,16
Segundo Joseph Campbell, os avanços e descobertas científicas de nosso tempo não colidem contra o “pensamento mitológico”. Ao contrário, Campbell pensa que elas abrem novas dimensões míticas para o homem moderno. Como diz Bill Moyers:
Campbell não era pessimista. Ele acreditava que existe um “nível de sabedoria, para além dos conflitos entre ilusão e verdade, através do qual as vidas podem voltar a ser irmanadas”. Encontrar esse nível é a “questão primordial desta época”. Nos seus últimos anos, ele buscava uma nova síntese entre ciência e espírito. “A mudança de uma visão geocêntrica para uma visão heliocêntrica do mundo ”, escreveu ele, depois que os astronautas chegaram à Lua, “parece ter removido o homem do centro e o centro parece tão importante. Espiritualmente, porém, o centro está onde está o olhar. Poste-se numa elevação e contemple o horizonte. Poste-se na Lua e contemple a Terra inteira se erguendo – ainda que através da televisão, na sua sala de visita.” O resultado é uma insuspeitada expansão do horizonte, que poderia servir, em nossa época, como as antigas mitologias serviram, no passado, para abrir as portas da percepção “para o prodígio, ao mesmo tempo terrível e fascinante, de nós mesmos e do universo”. Para ele, não foi a ciência que diminuiu os seres humanos ou nos divorciou da divindade. Ao contrário, as novas descobertas da ciência “nos reúnem aos antigos”, por nos tornarem capazes de reconhecer, no todo do universo, “um reflexo ampliado de nossa própria e mais íntima natureza; assim, somos de fato seus ouvidos, seus olhos, seu pensamento e sua fala – ou, em termos teológicos, os ouvidos de Deus, os olhos de Deus, o pensamento de Deus, a Palavra de Deus”.
Joseph Campbell e Bill Moyers, O Poder do Mito, p.12
Assim como Lévi-Strauss, Joseph Campbell também não acredita que haja conflitos insolúveis entre ciência e religião.
MOYERS: Um dos pontos intrigantes do seu pensamento é que você não vê conflito entre ciência e mitologia.
CAMPBELL: Não, não há conflito. Ciência é abrir caminho, agora, na direção das dimensões do mistério. Assim ela se aproxima da esfera de que fala o mito. Chega ao limiar.
MOYERS: E o limiar é…
CAMPBELL: …o limiar, a superfície comum ao que pode ser conhecido e ao que nunca será descoberto, porque é um mistério que transcende todo esforço humano. O que é a fonte da vida? Ninguém sabe. Não sabemos sequer o que é um átomo, se é uma onda ou uma partícula – é ambos. Não fazemos idéia do que sejam essas coisas. É por essa razão que falamos do divino. Existe uma fonte de energia transcendente. Quando um físico observa partículas subatômicas, ele está vendo um traço na tela. Esses traços vêm e vão, vêm e vão; nós vimos e vamos, e tudo o que diz respeito à vida vem e vai. Essa energia é a energia que modela todas as coisas. A reverência mítica se endereça a isso.
Joseph Campbell e Bill Moyers, O Poder do Mito, p.146
Nas palestras e livros de Joseph Campbell, a ciência está sempre presente. Como se trata de um ramo do saber de natureza transdisciplinar, ele mesmo não seria possível sem a arqueologia, a psicologia, a antropologia, a física, a química, etc. Os avanços nessas ciências também contribuem para que saibamos mais sobre essa matéria e, como diz Lévi-Strauss, para que nos tornemos mais conscientes de sua existência e importância.