O Sono e os Sonhos

2007-10-09 / Ciência, Mitologia, Psicologia / 0 Comments

sonho de Jacó

Somos animais que hibernam à noite. Nessas horas em que os músculos repousam, milhões de neurônios em ação coordenada disparam estímulos elétricos para o córtex, a camada mais superficial do cérebro, responsável pelas características intelectuais que nos distinguem das lagartixas.
Como nós, os demais mamíferos sonham. Prova da origem comum do sonho em espécies tão díspares quanto ratos, golfinhos ou ursos, seres incapazes de dar às sílabas significado semântico, é que o enredo dos sonhos humanos é construído integralmente por imagens. Neles, não se escuta a voz de um narrador.
Econômica como é a seleção natural, a competição jamais privilegiaria uma característica como o sono, que expõe o animal aos predadores, se ela não fosse essencial para a sobrevivência.
A meu ver, nada ilustra a relação dos sonhos com o impulso de permanecer vivo, como os pesadelos, ocasiões em que assistimos às piores tragédias, à morte de pessoas queridas, enfrentamos momentos aterradores, chegamos a gritar e a acordar assustados, mas em hipótese alguma morremos. Ou você, leitor, já sonhou que estava num caixão, à beira da sepultura?


Enquanto dura um sonho, o cérebro é incapaz de distingui-lo da realidade. Por isso, o sistema toma a precaução de desligar o comando da musculatura, assim que o corpo adormece. Em gatos, quando destruímos os neurônios da área cerebral responsável por tal desligamento, os sonhos provocam movimentos convulsos que colocam em risco a integridade física.
Essa incapacidade cerebral de reconhecer a experiência onírica como fantasia intrigou egípcios, gregos, Freud e uma multidão de interpretadores dos sonhos como fenômenos associados à premonição ou aos mistérios do subconsciente.
Na década de 1990, um grupo da Universidade do Arizona instalou eletrodos no cérebro de ratos para monitorar a atividade elétrica ao percorrer um labirinto. No percurso, cada vez que o animal mudava de direção entrava em atividade um grupo de neurônios situados em determinada área do hipocampo, estrutura crucial para o armazenamento de novas memórias. A monitorização foi capaz de demonstrar que a mesma seqüência de neurônios era ativada quando o rato pegava no sono, depois do experimento.
Este ano, a equipe de Jan Born, da Universidade de Lübeck, publicou uma pesquisa conduzida com voluntários colocados diante da tela de um computador que exibia 30 pares de cartas. A posição de cada par era mostrada durante alguns segundos, enquanto as outras cartas permaneciam viradas para baixo. No final, com eletrodos instalados na cabeça, os participantes deviam identificar a localização dos pares.
Na fase de memorização, parte dos voluntários foi borrifada com uma essência de rosas, para verificar se a repetição desse estímulo à noite reativaria as memórias da sessão de treinamento. A análise da atividade elétrica durante o sono mostrou que realmente o perfume ativava os hipocampos daqueles previamente expostos a ele, mas não nos demais. E que, no dia seguinte, ao identificar novamente as cartas, a performance dos que receberam o estímulo foi superior.

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Esse é o primeiro estudo a demonstrar que é possível ativar explicitamente a memorização, por meio da aplicação de um estímulo no hipocampo durante o sono.
Mas nem todos os neurocientistas concordam com a afirmação de que a atividade cerebral ao sonhar tenha como objetivo reprisar experiências recentes para memorizá-las. Consideram mais provável que sua finalidade seja aliviar a tensão armazenada nas sinapses, os espaços microscópicos por meio dos quais os estímulos elétricos são conduzidos de um neurônio para outro.
Eles partem do princípio de que o cérebro consome 20% da energia do metabolismo, e que a repetição constante de estímulos durante o período de vigília pode saturar as sinapses e torná-las inaptas para a aquisição de novos conhecimentos. Os sonhos restabeleceriam o equilíbrio do sistema, descarregando o excesso de energia acumulada nas sinapses.
É possível que o sono tenha evoluído para ajudar a economizar energia nos períodos em que se torna menos provável encontrar alimentos do que predadores. Na seleção natural, teriam levado vantagem os animais que desenvolveram a habilidade de sonhar, esteja ela associada ao aprimoramento das memórias ou ao alívio da tensão sobre as sinapses para que elas possam funcionar melhor no dia seguinte.

Texto do Dr. Dráuzio Varella

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Sonhos de Akira Kurosawa

2007-08-02 / Cinema, Mitologia, Psicologia, Religião / 2 Comments

sonhos

Para Freud, os sonhos expressam a realização de desejos inconscientes. Para Jung, os sonhos não apenas revelam desejos reprimidos, mas também são uma ferramenta da psiquê para buscar equilíbrio por meio de compensação. No entanto, consideradas as diferenças, os dois autores concordam num ponto: os sonhos são a estrada através da qual o conhecimento do inconsciente se torna possível.
Seja qual for a metodologia, nada seria mais proveitoso do que a pura entrega ao espetáculo do sonho, reino de imagens poéticas e sons cuja mensagem sempre se mostra misteriosa e cativante. Assim são os sonhos apresentados em Sonhos de
Akira Kurosawa. O filme, baseado em sonhos verdadeiros do diretor japonês, é constituído de oito sonhos independentes. A coesão dos vários sonhos é a experiência de seu personagem principal, desde a infância até a fase adulta e os desafios que cada fase encerra.

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No primeiro, “A Raposa”, uma criança é avisada pela mãe que não deveria ir à floresta quando há chuva e sol, pois é a época do acasalamento das raposas, que gostam de serem observadas. Mas ele desobedece os conselhos e observa as raposas, atrás de uma árvore. Ao retornar para casa sua mãe não o deixa entrar e lhe entrega um punhal, dizendo que como ele havia contrariado a raposa ele deveria se matar, mas ela sugere algo que pode remediar a situação. No segundo, “O Jardim dos Pessegueiros”, o irmão mais novo de uma família, ao servir chá para as irmãs, depara com uma moça que foge. Indo ao seu encalço, nota que ela é uma boneca e depara com os pessegueiros da sua casa totalmente cortados, restando só tocos. Os espíritos dos pessegueiros surgem para ele e, em uma dança melancólica, dizem que as bonecas são colocadas para enfeitar e festejar a florada dos pessegueiros, mas como eles não mais existem naquela casa não fazia sentido a presença das bonecas. No terceiro, “A Nevasca”, o líder de uma expedição, junto com seu grupo, se vê em meio a uma nevasca. Eles sucumbem a nevasca, mas repentinamente surge uma linda mulher que envolve o líder com uma echarpe prata. Ele percebe que ela é a morte, que se transforma em uma horrenda figura, então ele vê que está próximo do acampamento e tenta acordar os companheiros, mas não consegue. Ouve então uma corneta, indicando que o acampamento está mais próximo do que imagina. No quarto, “O Túnel”, ao entrar em um túnel o capitão de um exército é surpreendido por um cão, que ladra para ele. Atravessa então o túnel em curtos passos. Na saída ouve alguém caminhar e depara com um dos seus soldados morto em combate, que pensa não estar morto. No quinto conto, “Corvos”, um jovem pintor, ao observar as pinturas de Van Gogh, entra dentro dos quadros e se encontra com o pintor, que indaga por qual razão ele não está pintando se a paisagem é incrível, pois isto o motiva a pintar de forma frenética. No sexto , “Monte Fuji em Vermelho”, o Fuji entra em erupção ao mesmo tempo ocorre um incêndio em uma usina nuclear, provocado por falha humana. É desprendida no ar uma nuvem de radiação. Um homem relata ser um dos responsáveis pela tragédia e diz preferir a morte rápida de um afogamento à lenta provocada pela radiação. No sétimo, “O Demônio Chorão”, ao caminhar um viajante encontra um demônio, que lamenta ter sido um homem ganancioso e, como muitos, transformou a terra em um lastimável depósito de resíduos venenosos. No último, “Povoado dos Moinhos”, um viajante chega à um lugarejo conhecido por muitos como Povoado dos Moinhos. Lá não há energia elétrica e tampouco urbanização. Um idoso, ao ser indagado, relata que os inventos tornam as pessoas infelizes e que o importante para se ter uma boa vida é ser puro e ter água limpa.

Assista o filme assim que puder. Para ler mais sobre cada sonho em particular, clique aqui.

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Mito e Ciência

2007-01-12 / Ciência, Mitologia, Psicologia, Religião / 1 Comments

Danae e A Chuva de Ouro

A relação entre ciência e religião é um assunto complexo que frequentemente vem à tona para provocar discussões acaloradas. Para alguns, ciência e religião são conflitantes e irreconciliáveis. Para outros, ambas têm finalidades diferentes, lidam com aspectos diferentes da experiência humana e, portanto, qualquer conflito é apenas ilusório. Outros ainda argumentam que religião e ciência interagem em colaboração. Além disso, a opinião de cientistas sobre o assunto tem forte influência sobre a imaginação popular, cuja tendência é, a princípio, pensar que ciência e religião são sempre antagônicas.
Em Mito e Significado, Claude Lévi-Strauss afirma estar bem informado sobre a metodologia científica e as últimas descobertas da ciência e que, portanto, ele diz ter a

a sensação de que a ciência moderna, na sua evolução, não se está a afastar destas matérias perdidas, e que, pelo contrário, tenta cada vez mais reintegrá-las no campo da explicação científica. O fosso, a separação real, entre a ciência e aquilo que poderíamos denominar pensamento mitológico, para encontrar um nome, embora não seja exatamente isso, ocorreu nos séculos XVII e XVIII. Por essa altura, com Bacon, Descartes, Newton e outros, tornou-se necessário à ciência levantar-se e afirmar se contra as velhas gerações de pensamento místico e mítico, e pensou-se então que a ciência só podia existir se voltasse costas ao mundo dos sentidos, o mundo que vemos, cheiramos, saboreamos e percebemos; o mundo sensorial é um mundo ilusório, ao passo que o mundo real seria um mundo de propriedades matemáticas que só podem ser descobertas pelo intelecto e que estão em contradição total com o testemunho dos sentidos. Este movimento foi provavelmente necessário, pois a experiência demonstra-nos que, graças a esta separação – este cisma, se se quiser –, o pensamento científico encontrou condições para se autoconstituir.

Assim, tenho a impressão de que (e, evidentemente, não falo como cientista – não sou físico, não sou biólogo, não sou químico) a ciência contemporânea está no caminho para superar este fosso e que os dados dos sentidos estão a ser cada vez mais reintegrados na explicação científica como uma coisa que tem um significado, que tem uma verdade e que pode ser explicada.

Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, pp. 9,10

Portanto, para ele, se houve algum confronto entre o pensamento científico e o mitológico, isto se deveu ao ímpeto inicial dos homens de ciência em pôr enfase em seu método e a qualificar o outro como pensamento “primitivo” ou “inferior”. Trata-se de uma questão datada que, embora ainda hoje encontre alguma ressonância, já há muito deixou de ser a visão predominante graças ao avanço das ciências exatas e das humanas. Por isso, diz Lévi-Strauss,

…creio que há certas coisas que perdemos e que devíamos fazer um esforço para as conquistar de novo, porque não estou seguro de que, no tipo de mundo em que vivemos e com o tipo de pensamento científico a que estamos sujeitos, possamos reconquistar tais coisas como se nunca as tivéssemos perdido; mas podemos tentar tornar-nos conscientes da sua existência e da sua importância.


Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p. 9

Assim como Joseph Campbell, a despeito das diferenças no trabalho de ambos, Lévi-Strauss estava profundamente interessado nas semelhanças mais significativas das mitologias e culturas que estudou. Como ele mesmo diz:

É provável que não haja muito mais que isto na abordagem estruturalista; é a busca de invariantes ou de elementos invariantes entre diferenças superficiais.

Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p.12

Apesar da aparente desordem, da grandeza de diferenças e da riqueza de manifestações, o papel do pesquisador é, como ele atesta, perquirir todo esse material e tentar encontrar uma ordem, um campo de convergências diante do qual as diferenças começam a desaparecer.

As histórias de caráter mitológico são, ou parecem ser, arbitrárias, sem significado, absurdas, mas apesar de tudo dir-se-ia que reaparecem um pouco por toda a parte. Uma criação «fantasiosa» da mente num determinado lugar seria obrigatoriamente única – não se esperaria encontrar a mesma criação num lugar completamente diferente. O meu problema era tentar descobrir se havia algum tipo de ordem por detrás desta desordem aparente – e era tudo.


Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p.15


E não há dúvida de que Campbell e Lévi-Strauss estão plenamente de acordo com esse preceito. Para ambos,

O problema é descobrir aquilo que é comum a todos. É um problema, poder-se-ia dizer, de tradução, de traduzir o que está expresso numa linguagem – ou num código, se se preferir, mas linguagem é suficiente – numa expressão de uma linguagem diferente.

Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, p.12

E quando se fala em linguagem, fala-se em significado ou níveis de significação. Lévi-Strauss faz uma observação muito rica em relação ao problema do que chamamos de significado. Segundo expõe, dizemos que uma coisa tem significado não apenas porque é inteligível, mas também porque ela pode ser traduzida.

Segundo penso, é absolutamente impossível conceber o significado sem a ordem. Há uma coisa muito curiosa na semântica, é que a palavra «significado» é provavelmente, em toda a língua, a palavra cujo significado é mais difícil de encontrar. Que é que significa o termo «significar»? Parece-me que a única resposta que se pode dar é que «significar» significa a possibilidade de qualquer tipo de informação ser traduzida numa linguagem diferente. Não me refiro a uma língua diferente, como o francês ou o alemão, mas a diferentes palavras num nível diferente. No fim de contas, esta tradução é a que se espera de um dicionário – o significado da palavra em outras palavras que, a um nível ligeiramente diferente, são isomórficas relativamente à palavra ou à expressão que se pretende perceber. E porque não se pode substituir uma palavra por qualquer outra palavra, ou uma frase por qualquer outra frase (arbitrárias), tem de haver regras de tradução. Falar de regras e falar de significado é falar da mesma coisa; e, se olharmos para todas as realizações da Humanidade, seguindo os registos disponíveis em todo o mundo, verificaremos que o denominador comum é sempre a introdução de alguma espécie de ordem. Se isto representa uma necessidade básica de ordem na esfera da mente humana e se a mente humana, no fim de contas, não passa de uma parte do universo, então quiçá a necessidade exista porque há algum tipo de ordem no universo e o universo não é um caos.

Claude Lévi-Strauss, Mito e Significado, pp. 15,16

Segundo Joseph Campbell, os avanços e descobertas científicas de nosso tempo não colidem contra o “pensamento mitológico”. Ao contrário, Campbell pensa que elas abrem novas dimensões míticas para o homem moderno. Como diz Bill Moyers:

Campbell não era pessimista. Ele acreditava que existe um “nível de sabedoria, para além dos conflitos entre ilusão e verdade, através do qual as vidas podem voltar a ser irmanadas”. Encontrar esse nível é a “questão primordial desta época”. Nos seus últimos anos, ele buscava uma nova síntese entre ciência e espírito. “A mudança de uma visão geocêntrica para uma visão heliocêntrica do mundo ”, escreveu ele, depois que os astronautas chegaram à Lua, “parece ter removido o homem do centro e o centro parece tão importante. Espiritualmente, porém, o centro está onde está o olhar. Poste-se numa elevação e contemple o horizonte. Poste-se na Lua e contemple a Terra inteira se erguendo – ainda que através da televisão, na sua sala de visita.” O resultado é uma insuspeitada expansão do horizonte, que poderia servir, em nossa época, como as antigas mitologias serviram, no passado, para abrir as portas da percepção “para o prodígio, ao mesmo tempo terrível e fascinante, de nós mesmos e do universo”. Para ele, não foi a ciência que diminuiu os seres humanos ou nos divorciou da divindade. Ao contrário, as novas descobertas da ciência “nos reúnem aos antigos”, por nos tornarem capazes de reconhecer, no todo do universo, “um reflexo ampliado de nossa própria e mais íntima natureza; assim, somos de fato seus ouvidos, seus olhos, seu pensamento e sua fala – ou, em termos teológicos, os ouvidos de Deus, os olhos de Deus, o pensamento de Deus, a Palavra de Deus”.

Joseph Campbell e Bill Moyers, O Poder do Mito, p.12

Assim como Lévi-Strauss, Joseph Campbell também não acredita que haja conflitos insolúveis entre ciência e religião.

MOYERS: Um dos pontos intrigantes do seu pensamento é que você não vê conflito entre ciência e mitologia.

CAMPBELL: Não, não há conflito. Ciência é abrir caminho, agora, na direção das dimensões do mistério. Assim ela se aproxima da esfera de que fala o mito. Chega ao limiar.

MOYERS: E o limiar é…

CAMPBELL: …o limiar, a superfície comum ao que pode ser conhecido e ao que nunca será descoberto, porque é um mistério que transcende todo esforço humano. O que é a fonte da vida? Ninguém sabe. Não sabemos sequer o que é um átomo, se é uma onda ou uma partícula – é ambos. Não fazemos idéia do que sejam essas coisas. É por essa razão que falamos do divino. Existe uma fonte de energia transcendente. Quando um físico observa partículas subatômicas, ele está vendo um traço na tela. Esses traços vêm e vão, vêm e vão; nós vimos e vamos, e tudo o que diz respeito à vida vem e vai. Essa energia é a energia que modela todas as coisas. A reverência mítica se endereça a isso.

Joseph Campbell e Bill Moyers, O Poder do Mito, p.146

Nas palestras e livros de Joseph Campbell, a ciência está sempre presente. Como se trata de um ramo do saber de natureza transdisciplinar, ele mesmo não seria possível sem a arqueologia, a psicologia, a antropologia, a física, a química, etc. Os avanços nessas ciências também contribuem para que saibamos mais sobre essa matéria e, como diz Lévi-Strauss, para que nos tornemos mais conscientes de sua existência e importância.

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Psicologia e Contos de Fada

2006-10-31 / Arquétipos, Mitologia, Psicologia / 1 Comments

Chapeuzinho Vermelho - Gustave Dore

O ensaio abaixo relata a influência dos contos de fada sobre a psiquê infantil. Assim como os grandes mitos de todas as épocas, eles exercem, através de símbolos e metáforas, um papel fundamental sobre a estrutura psíquica do ser humano, fornecendo-lhe respostas a indagações sobre as mais variadas faces da vida.

Em essência, os contos de fada podem ser vistos como pequenas obras de arte, capazes que são de nos envolver em seu enredo, de nos instigar a mente e comover-nos com a sorte de seus personagens. Causam impacto em nosso psiquismo porque tratam das experiências cotidianas, e permitem que nos identifiquemos com as dificuldades ou alegrias de seus heróis, cujos feitos narrados expressam, em suma, a condição humana frente às provações da vida. Não fossem assim tão verdadeiros ao simbolizar nosso caminho pessoal de desenvolvimento, apresentando-nos as situações críticas de escolha que invariavelmente enfrentamos, não despertariam nem sequer o interesse nas crianças que buscam neles, além da diversão, um aprendizado apropriado à sua segurança. Neste processo, cada criança depreende suas próprias lições dos contos de fadas que ouve, sempre consoante seu momento de vida, e extrai das narrativas, ainda que inconscientemente, o que de melhor possa aproveitar para aí ser aplicado. Oportunamente, pede que seus pais lhes contem de novo esta ou aquela história, quando revive sentimentos que vão sendo trabalhados a cada repetição do drama, ampliando assim os significados aprendidos ou substituindo-os por outros mais eficientes, conforme as necessidades do momento.
Desde a remotíssima antigüidade (especialistas apontam para uma tradição oral que começa há mais de 25.000 anos), a relação de qualquer criança com o mundo sempre dependeu dos relatos míticos e religiosos, cujos elementos básicos constituintes encontram-se espalhados por uma miríade de células narrativas de caráter mágico, as quais denominamos contos de fadas. (…)

Assim como os mitos e as lendas, os contos de fada e as fábulas provêm do alvorecer da cultura humana e acham-se espalhados por todas as civilizações. Os registros ocidentais mais antigos nos levam a Esopo, herói popular da Trácia, a quem se reputa o ofício de ter sido no século VI a.C. um proeminente contador de fábulas. Aristóteles, em 330 a.C., relata que Esopo, certa feita, como advogado de defesa de um político corrupto teria se valido de uma de suas histórias, “A raposa e o ouriço”, para defender o seu cliente. A raposa estava tomada por pulgas, e o ouriço propôs-se a lhe tratar. Com receio de se machucar ainda mais, ela argumenta: “Sr. Ouriço, deixe estar, se me retira estas pulgas já gordinhas, que nem me chupar podem mais, logo outras sedentas por sangue ocuparão seu lugar”. Ao que completava dizendo aos juízes que se condenassem à morte o réu já enriquecido, outros não tão ricos, mas ávidos para roubar, viriam a ocupar sua cadeira!


Leia este ensaio na íntegra.

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Pecado, Medo e Culpa

2006-10-05 / Mitologia, Psicologia, Religião / 0 Comments

Premonições da Guerra Civil - Salvador Dali

 

Jean Delumeau é um dos principais historiadores francêses. Foi professor de história moderna na Universidade de Paris 1 (1970-1975) e de história das mentalidades religiosas no Ocidente moderno no Collège de France (1975-1994) e tem mais de 50 obras publicadas. Os excertos abaixo são a transcrição de uma palestra que fez durante sua visita ao Brasil, na qual falou sobre as noções cristãs de pecado, medo e culpa.



Nunca uma civilização concedeu tanto peso à culpa e valor ao arrependimento do que o cristianismo nos séculos XVIII-XIX. Estamos diante de um fato maior que não poderíamos esclarecer inteiramente. Daí meu livro, que pretende ser uma história cultural do pecado na civilização da qual somos herdeiros. Encontrar em um espaço e numa faixa cronológica dados a história do pecado, consequentemente da “má imagem de si”, é se colocar no coração de um universo humano; é extrair um conjunto de relações e atitudes formadoras de uma mentalidade coletiva; é encontrar a reflexão de uma sociedade sobre a liberdade humana, sobre a vida e a morte, sobre o fracasso e o mal; é descobrir sua concepção das relações com Deus e a representação que esta sociedade fazia Dele. É, então, no interior de certos limites de tempo e espaço, empreender conjuntamente uma história de Deus e uma história do homem.

 

Deus é sobretudo bom ou sobretudo justo? Uma civilização inteira se perguntou incansavelmente durante séculos sobre essa questão. Freud e Jung, que se opuseram um ao outro, estavam no entanto de acordo ao ressaltar o lugar que todo estudo das sociedades deveria conceder ao pecado. Freud apresentava mesmo o sentimento de culpa como o problema capital da civilização. Vocês compreendem imediatamente porque dediquei um livro enorme à culpa na história ocidental. (…)

 

O pecado original constituía para Santo Agostinho e São Tomás o modelo mesmo do pecado, correspondendo exatamente à definição deles: era a desobediência voluntária de Adão e Eva ao preceito divino de não colher o fruto da árvore do bem e do mal. Não se pode compreender a história da cristandade ocidental de antigamente se não lhe dermos o devido lugar -que foi enorme- à doutrina (tradicional) do pecado original. Este era representado como um delito de dimensão verdadeiramente cósmica, cometido por dois seres que haviam recebido dádivas e privilégios que nós nem podemos imaginar. Em plena liberdade, eles desobedeceram à uma ordem do Criador, que lhes havia coberto de favores. Disso resultou para eles e seus descendentes o sofrimento, a morte, a concupiscência, a ignorância e a condenação ao inferno. Este último deveria ser o destino normal de toda a humanidade, se não tivesse havido a Redenção, graças à qual os eleitos escapam dos tormentos eternos. Teologia e pastoral decorrem desta representação do primeiro pecado e, sobretudo, a afirmação de Santo Agostinho de que a humanidade, pecadora desde Adão e Eva, constitui uma “massa de condenação eterna”, os eleitos sendo muito menos numerosos do que os condenados. (…)

 

Dessa doutrina, verdadeiramente fundamental no passado, decorria uma imagem de Deus que não é mais a nossa: um Deus mais justiceiro do que misericordioso e mesmo sádico e “perverso”. No século XVIII, o autor de uma enciclopédia para pregadores, em um modelo de sermão, evoca Deus “muito ocupado em se vingar” dos condenados, fazendo escorrer sobre eles “fontes inesgotáveis de betume e enxofre”. Um convertido do século XVII, M. De Quériolet, conselheiro no Parlamento da Bretanha, e que se tornou padre, nos é assim descrito por um biógrafo da época: “Ele pensava e pensava novamente e sempre, no seu modo de entender, o que havia lido e compreendido pregar sobre o pequeno número dos eleitos… Ele refletia sem parar sobre o rigor dos julgamentos de Deus, sobre o horror da morte, sobre a fúria dos condenados e as penas inconcebíveis das almas que estão nas chamas do purgatório”. (…)

 

Graças a Deus, a doutrina do pecado que acabei de evocar pertence ao passado, mesmo se não faz muito tempo que ela foi abandonada de fato, senão de direito. E, inicialmente, o que é um pecado mortal? Com sabedoria as igrejas ortodoxas jamais ratificaram a distinção agostiniana entre pecado venial e pecado mortal. E elas jamais obrigaram à confissão detalhada dos pecados. É preciso, claro, acrescentar que a definição do pecado que comandou no Ocidente a teologia moral (“toda ação, palavra ou cobiça contra a lei eterna”) foi formulada numa época em que se ignorava a existência do inconsciente. (…)

 

Essa última palavra me leva a refletir sobre a concepção tradicional do pecado original que, no Ocidente, marcou quase até nossos dias a história da cristandade. Observamos que a dramatização do primeiro pecado era solidária à crença de um mito, o da idade de ouro; a idade de ouro do Paraíso terrestre. Porque representava-se sob as cores mais maravilhosas o jardim das delícias, porque se imaginava Adão e Eva antes da queda como semi-deuses em plena posse da liberdade, concluía-se que a falta deles deveria ter sido enorme para que Deus irritado condenasse doravante toda a humanidade ao sofrimento, à morte e, além disso, ao inferno, não tivesse havido a Redenção que livra deste castigo, o mais terrível de todos, um pequeno número de eleitos. Só que não há o menor traço dessa doutrina nos evangelhos; e o Gênesis, que relata o pecado original, ignora totalmente essa condenação ao inferno.

 

Na realidade a doutrina clássica do pecado original no Ocidente com suas duas consequências maiores -1) a culpa hereditária de toda a humanidade; 2) a afirmação que essa última é constituída de uma “massa de condenação eterna”- vem essencialmente de Santo Agostinho. Porém ela teve uma influência direta sobre nós em toda a história do pecado. Ela exerceu um fardo extraordinário sobre a teologia ocidental, ao passo que as Igrejas ortodoxas, ao contrário, jamais integraram a noção de culpa hereditária.

Leia todo o artigo .

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As Palavras e as Coisas

2006-07-21 / Filosofia, Psicologia / 1 Comments

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Nietzsche era filólogo e, como não poderia deixar de ser, filosofou e escreveu sobre a relação entre as palavras e as coisas. No excerto abaixo, ele faz o que hoje chamaríamos de metalinguagem, ou seja, o uso consciente da linguagem para falar sobre a própria linguagem e seu funcionamento. Em nosso dia-a-dia, usamos tantas palavras, tais como ser, Deus, mitologia, religião, amor, vingança e tantas outras que raramente paramos para pensar sobre seu real significado ou sobre a relação delas com aquilo que designam.


Ressonância. Todo estado de espírito intenso traz consigo uma ressonância de sentimentos e ânimos relacionados; e parecem estimular a memória. Alguma coisa em nós se lembra e se torna consciente de estados semelhantes e sua origem. Dessa maneira, associações rápidas de sentimentos e pensamentos são formadas e, quando seguem umas as outras à velocidade da luz, não são mais sentidas como complexos, mas como unidades. Neste sentido, pode-se falar em sentimentos morais, sentimentos religiosos, como se fossem todos unidades; na verdade, são rios com milhares de nascentes e afluentes. Como é sempre o caso, a unidade da palavra não garante a unidade da coisa.

(Texto traduzido por mim. O original está aqui.)

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O Oráculo Grego

2006-07-12 / Mitologia, Psicologia, Religião / 0 Comments

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Delfos é uma ilha grega onde estão sítios arqueológicos e uma cidade moderna mas, no mundo clássico, Delfos era a morada do Deus Apolo. Em todo o mundo grego antigo, Delfos era reverenciado como o omphalos, o centro do mundo. Lá estava o templo dedicado a Apolo onde a pitonisa, tomada pelo Deus, fazia predições e dava conselhos para a multidão que procurava o templo. Vários personagens famosos, reis e filósofos, foram a Delfos para consultar o oráculo e alguns deixaram escritos e descrições para a posteridade.


Como mostra este artigo da Scientific American Brasil, estudos científicos recentes tentam provar que os vapores que saíam da caverna onde ficava a pitonisa eram gases que a induziam ao transe.

O templo de Apolo, incrustado na fascinante paisagem montanhosa de Delfos, abrigava o poderoso oráculo e era o mais importante local religioso do antigo mundo grego. Os generais buscavam conselhos do oráculo a respeito de estratégias de guerra. Os colonizadores procuravam orientação antes de suas expedições para a Itália, Espanha e África. Os cidadãos consultavam-no sobre investimentos e problemas de saúde. As recomendações do oráculo emergem de forma notável nos mitos. Quando Orestes perguntou-lhe se deveria vingar a morte de seu pai, assassinado por sua mãe, o oráculo encorajou-o. Édipo, avisado pelo oráculo de que mataria o pai e se casaria com a mãe, esforçou-se para evitar este destino, mas fracassou de forma célebre.O oráculo de Delfos funcionava em uma área específica, o ádito ou – área proibida -, no núcleo do templo, e por meio de uma pessoa específica, a pitonisa, escolhida para falar, como uma médium possuída, em nome de Apolo, o deus da profecia. A pitonisa era mulher, algo surpreendente se levarmos em conta a misoginia grega. E, contrastando com a maioria dos sacerdotes e sacerdotisas gregas, a pitonisa não herdava sua posição pela nobreza de seus vínculos familiares. Embora devesse ser natural de Delfos, poderia ser velha ou jovem, rica ou pobre, bem-educada ou analfabeta. Ela passava por um longo e intenso período de treinamento, assistida por uma congregação de mulheres de Delfos, que zelavam pelo eterno fogo sagrado do templo.[...]

Plutarco e outras fontes assinalam que, durante as sessões normais, a mulher que servia como pitonisa estava em um transe suave. Ela era capaz de sentar-se aprumada no trípode e passar um tempo razoável ali (embora, se a fila de pessoas que pediam conselhos fosse longa, uma segunda e até mesmo uma terceira pitonisa pudessem substituí-la). Ela podia ouvir as questões e respondê-las de forma inteligível. Durante as sessões oraculares, a pitonisa falava com voz alterada e tendia a cantar as respostas, permitindo-se jogos de palavras e trocadilhos. Após a sessão, segundo Plutarco, ela se parecia com um corredor após uma maratona, ou uma dançarina ao final de uma dança extática.Em uma ocasião, que ou o próprio Plutarco ou um de seus colegas testemunharam, as autoridades do templo forçaram a pitonisa a profetizar em um dia não propício, para agradar os membros de uma importante comitiva. Relutante, ela se dirigiu para o ádito subterrâneo e foi imediatamente tomada por um espírito poderoso e maligno. Neste estado de possessão, em vez de falar ou cantar como fazia, gemeu e gritou, jogou-se ao chão violentamente e precipitou-se em direção às portas, onde desmaiou. Os sacerdotes e as pessoas que a consultavam, assustados, inicialmente fugiram. Mas voltaram mais tarde e a recolheram. Alguns dias depois ela morreu.[...]

Uma meticulosa pesquisa geológica, aliada ao raciocínio, resolveu um enigma atrás do outro, mas restava ainda a questão de quais gases teriam ascendido. De Boer sabia que geólogos trabalhando no golfo do México haviam analisado gases que formavam bolhas ao longo de falhas submersas. Eles descobriram que falhas ativas nesta área de calcário betuminoso estavam produzindo gases leves de hidrocarboneto, como o etano e o metano. O mesmo não poderia ter acontecido em Delfos?Para investigarmos, pedimos permissão para colher amostras da fonte de Delfos, bem como amostras da rocha de calcário depositada pelas antigas fontes. Esperávamos descobrir nesta rocha porosa vestígios dos gases trazidos à superfície em épocas remotas. Nesse momento, o químico Chanton juntou-se à equipe. Nas amostras de calcário coletadas por de Boer e Hale ele encontrou metano e etano, produto da decomposição do etileno. Chanton foi então para a Grécia coletar amostras das fontes situadas no local do oráculo e em torno dele. A análise da fonte de Kerna revelou a presença de metano, etano e etileno. Como o etileno apresentava um aroma agradável, a presença deste gás parecia apoiar a descrição de Plutarco de um gás cujo cheiro se assemelhava ao de um sofisticado perfume.

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A Magia do Transe no Candomblé

2006-07-03 / Mitologia, Psicologia, Religião / 1 Comments

Orixá Exú

O transe é um dos fenômenos mais intrigantes da religiosidade afro-brasileira. Trata-se de uma experiência na qual o filho ou filha de santo é tomado por seu Orixá, que vem comungar nas celebrações que os seres humanos lhe propiciam. Sobre o assunto já discutiram cientistas de diversas áreas, mas a visão científica sobre o fenômeno ainda se baseia em conceitos como histeria ou esquizofrenia.


De fato, compreender esse fenômeno não é tarefa simples. O que se sabe é o que conta quem o observou. Isso porque, no caso do candomblé, os filhos e filhas-de-santo não se recordam em absoluto do transe em si, afinal naquele momento é como se não estivessem lá, são tomados pelo orixá. Talvez por isso, os senhores no assunto, como a ialorixá Stella de Oxóssi, do Ilê Axé Opô Afonjá, tenham uma definição sucinta para o tema. “O transe é inexplicável”, afirma.

Não se pode explicar, apenas experimentar. Estar em transe é caminhar na fronteira entre o mundo dos deuses e o mundo dos homens. “O transe permite a compreensão de que os deuses vêm a nós através de um corpo, o que diferencia logo o candomblé das chamadas religiões reveladas. Nessas outras religiões, os homens vão aos deuses. O transe, ao contrário, permite que, no candomblé, os deuses venham aos homens”, explica o antropólogo Júlio Braga.

Mas o transe ultrapassa as fronteiras do mundo religioso. É o caso de um maestro que rege uma orquestra de forma tão emocionante que quase perde o controle dos próprios movimentos, sendo “levado” pela própria música. Ou quando pescadores puxam juntos uma rede de pesca, entoando melodias para Iemanjá, enquanto fazem movimentos repetitivos, cheios de idas e vindas, no ritmo das ondas do mar.

Se antes a ciência – incapaz de explicá-lo – classificava o transe como um fenômeno patológico, hoje a medicina aponta outras explicações. “O transe é um estado de consciência em que a pessoa não está dormindo nem acordada, é um estado intermediário entre o sono e a vigília”, afirma George Alakija, 82 anos, o médico psiquiatra mais antigo da Bahia. Um dos precursores na utilização da hipnose (ela própria uma forma de transe) como recurso terapêutico, Alakija explica que entre o estar consciente e o inconsciente há uma série de estados intermediários, entre eles o transe. Nesse caso, o indivíduo “foge” do que está ao redor e entra em um estado de abstração.

“A psicologia tradicional – dominada pelo referencial europeu – discriminava o transe e o considerava uma expressão de patologias diversas”, explica a psicóloga francesa Monique Augras. A professora da PUC, no Rio de Janeiro, cita pesquisas de estudiosos como Nina Rodrigues – que classificava o estado-de-santo como histeria – e de Artur Ramos, que o considerava uma demonstração de esquizofrenia. Em suas pesquisas, Augras desenvolveu uma outra visão do transe como veículo do sagrado. “O transe é basicamente um fenômeno psicofisiológico, encontrado em uma infinidade de grupos culturais, que lhe atribuem significações diversas. Dentro da cultura ocidental, a tradicional cisão cartesiana entre mente de um lado, e corpo, do outro, tem produzido um constante estranhamento frente ao transe”.

 

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O Ilógico Necessário

2006-06-30 / Filosofia, Mitologia, Psicologia / 4 Comments

Fausto

Felizmente nem tudo podemos apreender ou compreender através da lógica. Em todas as formas de arte, da música à dança, da literatura ao teatro, nem tudo é apenas técnica ou lógica. A emoção e o acaso também fazem parte da estrutura dessas atividades. Com a religião também não poderia ser diferente. Ela também tem seu lado lógico e racional, mas esta é apenas uma, talvez a menor, das várias facetas que possui.


Dizem que os filósofos devem ter um pensar lógico como instrumento principal de sua ocupação, o que poderia levá-los a exaltar a razão, como já foi feito. Todavia, o filósofo alemão Nietzsche soube reconhecer o papel fundamental do ilógico na vida humana.

O ilógico necessário. Entre as coisas que podem levar um pensador ao desespero é a consciência de que o ilógico é necessário ao ser humano e que coisas boas advém dele. Ele está tão firmemente alojado nas paixões, na fala, nas artes, na religião, e geralmente em tudo que dota a vida de valor que ninguém poderia extirpá-lo sem causar danos irreparáveis à beleza dessas coisas. Somente os ingênuos são capazes de pensar que a natureza do homem pode ser transformada numa natureza puramente lógica; e, se houvesse graus de aproximação a esse objetivo, quanto não teria de perecer em seu encalço ! Até mesmo o homem mais racional precisa da natureza de vez em quando, ou seja, de uma atitude básica e ilógica perante todas as coisas.

(O texto acima foi traduzido por mim. O original está aqui.)

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Guerra nas Estrelas

2006-04-23 / Arquétipos, Cinema, Mitologia, Psicologia / 0 Comments

Darth Vader

 


Em meados da última década de 70, um jovem cineasta americano admirador de Joseph Campbell resolveu criar uma nova mitologia, uma mitologia que pertencesse ao seu tempo, com elementos do seu tempo. Esse cineasta chamava-se George Lucas, conhecido hoje por inúmeros filmes de sucesso, mas, principalmente, pela concepção da trilogia de Guerra nas Estrelas, que apresenta elementos estudados e escritos por Campbell em sua obra ” O Herói de Mil Faces”. Se assistidos sem maior profundidade, os filmes da trilogia não passarão de mais uma história de aventura, um conto de fadas onde o herói salva a princesa das forças das trevas. Então qual a razão do grande sucesso de bilheteria causado pelo filme na época que foi lançado?
Um dos motivos, sem dúvida, foram os efeitos especiais utilizados por George Lucas, efeitos que estabeleciam um novo padrão nos filmes de ficção científica e que eram muito avançados para seu tempo. Mas esse não foi o único motivo responsável pela existência de milhares de fãs do filme por todo o mundo. A razão foi a composição da história e dos personagens da história, repletos de simbologia e ligações com aspectos psicológicos. Temos a presença do herói, que Campbell citou em sua obra, segue sua jornada, cujo início se situa na etapa denominada ” Chamado à Aventura” e termina na ” Ressurreição” e na volta com o ” Elixir” (estas etapas serão mais detalhadamente explicadas adiante”. Temos também a presença de ” arquétipos” (termo usado pelo psicólogo Carl Jung em muitas de suas obras e que será explicado mais detalhadamente adiante), como o Herói, o Mentor, o Guardião de Limiar, o Arauto, o Camaleão, O Pícaro e a Sombra, cada um com sua função (dramática e psicológica) definida na história. Talvez esta seja também a razão do enorme sucesso de Guerra nas Estrelas, a utilização destes símbolos universais que fazem com que os personagens sejam facilmente compreendidos e que haja empatia entre eles e o público. A seguir, uma explicação mais detalhada sobre os estudos de Joseph Campbell e Carl Jung, comparando seus resultados com o filme Guerra nas Estrelas, no intuito de prosseguir com o objetivo desta monografia.

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