O Conceito de “Deus” – parte IIII

2009-07-14 / Antropologia, História, Literatura, Mitologia, Religião / 1 Comments

IV. Hinduísmo, Budismo, a Religião Chinesa e o Islamismo

A concepção hindu de divindade combina, ou melhor,compreende, duas tradições distintas que podem ser convenientemente designadas de “popular” e de “filosófica.”

A primeira começa com a civilização do Vale do Indo do terceiro e segundo milênio a.C.,e com as tribos arianas que entraram no noroeste do continente cerca de 1400 a.C. A religião dos povos do Vale do Indo é conhecida apenas por dados arqueológicos que se revestem de significado incerto, mas é razoável inferir que várias divindades foram cultuadas, e que algumas podem ter sido protótipos de outras divindades hindus posteriores. As crenças religiosas dos arianos estão documentadas nos hinos do Rig-Veda, que são dirigidos a uma variedade de divindades. Os deuses em questão eram principalmente deificações de fenômenos cósmicos. O mais proeminente é Indra, um Deus das Tempestades, concebido como um vitorioso Deus-guerreiro. Outros deuses importantes eram Varuna, um Deus celeste associado à ordem cósmica (rta); Agni, o Deus do Fogo, identificado com o fogo ritual que consumia as vítimas sacrificiais; Rudra,  um Deus perigoso que trazia doenças; Yama, o Deus da Morte e Senhor do Mundo dos Mortos. Estas deidades muitas vezes tinham um caráter ambivalente: por exemplo, Rudra não só infligia sofrimento, mas também curava doenças.

Como algumas das divindades védicas e as outras dos povos do Vale do Indo se tornaram os deuses do hinduísmo apresenta muitos problemas que ainda estão por resolver. Da complexa multiplicidade de deuses hindus, dois são de extrema importância e distinção, a saber, Vishnu e Shiva. Cada um tem uma natureza ambivalente e caracteriza os aspectos criativos e destrutivos do mundo empírico.

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Assim, no Bhagavad-Gita, um dos documentos fundamentais do hinduísmo, Vishnu é primeiramente descrito, em toda a multiplicidade e complexidade de seu ser, como o Criador e Mantenedor do universo. Depois segue uma outra visão. O Deus aparece como uma criatura monstruosa , com muitas bocas e dentes terríveis, para a qual todos os seres vivos vão para a seu fim. Essa terrível divindade anuncia como explicação: “Saiba que eu sou o Tempo que faz os mundos perecerem e trago-lhes a destruição”(Bhagavad-Gita, XI: 32). Esta equação com o Tempo é significativa, e lembra Zurvan, o Deus-Tempo persa. Essa equação diz respeito à interpretação hindu da realidade: a existência, em todos os fenômenos do mundo, envolve um processo de vida e morte; por que o Tempo rege este mundo e tudo que está nele; e seu processo é cíclico. No entanto, apesar desta revelação do aspecto terrível de Vishnu, o Bhagavad-Gita ensina que a divindade era benigna para aqueles que a adoravam com uma profunda devoção pessoal (bhakti).

Shiva, a outra grande divindade do hinduísmo, que comanda a fidelidade de milhões de pessoas, também representa os aspectos criativos e destrutivos do mundo. Seu poder criativo é simbolizado pelo lingam ou falo. Na iconografia, ele é retratado como Nataraja ( “Rei dos Dançarinos”), que executa a dança cósmica, simbolizando a energia do universo, perpetuamente criando, mantendo e destruindo as formas em que se manifesta. Como Bhairava, o terrível destruidor, Shiva é imaginado assombrando locais de cremação, enrolado por serpentes e usando um colar de caveiras. Ele é também chamado de Kala-Rudra (Tempo que a tudo devora). Por uma estranha transformação do imaginário, o śakti ou energia ativa de Shiva, foi personificada numa deusa. Este processo resultou na concepção da Deusa Kali, que também personifica o Tempo. Ela é muitas vezes representada pisoteando sobre o corpo cadavérico de Shiva, de quem ela emanou. Em sua iconografia, ela retrata o incessante ciclo de vida e morte manifesto no mundo natural.

A concepção filosófica da divindade que encontra expressão nos Upanishads é difícil de definir porque ela é fundamentalmente impreciso, sendo apresentada um imaginário e uma terminologia que é ao mesmo tempo sutil e complexa. “Brahman” significa a Realidade Última com a qual o “Atman” (o “Self“) é identificado; por sua vez o ‘Self” (Atman) de cada pessoa é idêntico com o transcendente Atman. A sutileza dessa equação é descrita nesta passagem do Řatapatha Brahmana (X.6.3): “Deve-se venerar Brahman como a Verdade …. Deve-se venerar o “Self” (Atman) que subsiste na mente … maior do que o céu, maior do que o espaço, maior do que esta terra, maior do que todas as coisas existentes. Ele é o “Self” da respiração (vida), ele é meu próprio “Self“(Zaehner [1962], p. 66). A partir do conceito de Brahman, a idéia de um Deus criador pessoal chamado Brahma foi derivada e foi feita uma tentativa de relacioná-lo às outras duas grandes divindades do hinduísmo, Shiva e Vishnu, em uma Trimūrti, ou seja, “Um Deus em três formas”: Brahma (o Criador), Vishnu (o Mantenedor), e Shiva (o Destruidor). No entanto, essa concepção nunca se estabeleceu no hinduísmo popular.

O Budismo tem sido muitas vezes descrito como ateu. Tal avaliação, sem qualquer outra qualificação, é enganadora -, uma vez que geralmente é baseada em alguns pressupostos tácitos do que constitui uma divindade. Até onde a natureza natural e essencial do Budismo pode ser determinada, pode ser afirmado que não está preocupado com a ideia de um Deus como o Criador do universo. O Buda tentou emancipar as pessoas de verem este mundo como realidade absoluta e de se envolverem nela. Contudo, uma vez que o conceito budista de Nirvana é descrito como Verdade, Realidade, o Bom, e por adjetivos como “inexistível”, “imortal”, “imutável”, isso pode ser considerado como a essência constitutiva da divindade. Na sua forma popular, o Budismo é teístico de duas maneiras. Muitos dos Deuses do Hinduísmo foram reconhecidos como entidades super-humanas; porém, como o ser humano, eles estão sujeitos à decadência e morte e às leis de Samsara ( “renascimento”) e carma. No entanto, outro aspecto importante foi a divinização do próprio Buda. Sua imagem em templos é tratada como um objeto sagrado e é o foco do culto. E aqueles que são considerados terem sido ou os que serão outras formas do Buda, tais como Adibuddha e Amitabha (Amida), e Bodhisattvas como o Avalokitesvara, também foram deificados e cultuados. Nesta última concepção budista de divindade, no entanto, o fator operativo tem um significado soteriológico; pouca preocupação é mostrada sobre os atributos cosmológicos ou metafísicos que caracterizam as concepções de outras religiões.

Na China, em torno de 1000 a.C., os reis da Dinastia Chou efetuaram uma mudança religiosa que teve uma influência duradoura. Buscando evitar o culto de Ti, o divino antepassado-fundador da dinastia Shang, o qual tinham suplantado, começaram a chamar esta antiga divindade de Shang Ti, ou seja, o Ti superior ou o Supremo Ti, e equacionaram-no com T’ien, a deificação do Céu. Essa nova divindade foi apresentada como o Deus supremo, cujo principal interesse seria a prosperidade e o bem-estar do povo chinês. Com esse objetivo, ele foi concebido para requerer um bom governo e atento para remover governantes que não cumprissem essa missão, assim como tinha retirado a Dinastia Shang. O culto a Shang Ti tornou-se o culto oficial do estado com o imperador como seu carismático alto-sacerdote, sendo ele próprio o Filho do Céu. O ato supremo do culto nacional era o sacrifício anual para Shang Ti, no solstício de inverno, oferecido pelo imperador no Altar do Céu, em Pequim. Embora fosse o Deus do culto oficial, essa deificação do Céu poderia ser objeto de devoção pessoal, como ensina o grande filósofo Mo-Tzu (fl. 400 d.C.). Mo-Tzu também falou do “Caminho” (Tao) do Céu como uma espécie de ordenação divina providencial do mundo. O termo Tao também foi utilizado pelos primeiros taoístas para descrever o princípio eterno do ser, aquele que reside e mantém o universo. Segundo o importante Tao te Ching, o Tao é “sem forma, mas completo , “ele antecede o céu e a terra,” assim como “o céu, mãe de todos que estão abaixo”, e o sábio procura estar em perfeita harmonia com ele. Este naturalismo que caracterizava o pensamento chinês antigo também encontra expressão nos conceitos de Yin e Yang, considerados como princípios que se alternam, manifestos em cada aspecto da vida.

Entretanto, a tendência para o monismo ou dualismo não excluiu o reconhecimento de formas menores de divindade; e a religião chinesa incluiu tanto o culto aos ancestrais quanto a crença em uma inumerável variedade de deuses menores e espíritos.


A palavra árabe “Alá” (Deus) é uma forma abreviada de “alilah” ( “O Deus”), e que exprime a quintessência da concepção muçulmana de Deus. Uma ênfase enorme é colocada no Corão sobre a unidade de Alá (Deus), muitas vezes com referência à deificação cristã de Jesus e Maria.

Dessa maneira, Maomé proclama sua divindade: “Alá: não há outro Deus senão Ele,o Vivente, o Auto-subsistente…. Ele é o Altíssimo, o Todo Poderoso” (Sūrah 2:256). Em todo o Corão, Alá é apresentado como o Criador e o Juiz Implacável da humanidade no fim do mundo. Quando ressalta a onipotência e onisciência de Alá, Maomé envolveu-se nos inevitáveis problemas sobre predestinação divina e o livre arbítrio humano com que teólogos judeus e cristãos tinham se preocupado. Inconsistentemente ele apresenta Alá como aquele que predestina os homens severamente para a salvação ou a danação e, ao mesmo tempo, ele também o descreve como “o Misericordioso, o Piedoso”.

Muitas dessas inconsistências provavelmente decorrem de sua própria experiência espiritual , e porque ele era um profeta por natureza, e não um pensador. No pensamento muçulmano subsequente, a concepção de Alá foi bastante desenvolvida. Os tradicionais noventa e nove nomes de Alá constituem uma grande lista de qualidades atribuídas a ele, e tentativas foram feitas para explicar as ideias antropomórficas e a terminologia utilizada no Corão. No entanto, apesar dessas sofisticações, a concepção muçulmana de Deus permaneceu basicamente a mesma que Maomé proclamou, sob o impulso da sua própria inspiração peculiar, e em reação ao politeísmo primitivo de seus compatriotas árabes e os contatos dele com o Judaísmo e com o Cristianismo.

Como conclusão desta pesquisa, deve ser observado que, de uma maneira sutil mas muito significativa, ainda não foi devidamente investigada, a noção de divindade reflete o caráter de um povo ou cultura que a produziu. Também deve-se considerar que certos atributos como poder, imortalidade e eternidade representam comumente noções gerais do que constitui uma divindade, as formas em que as divindades foram concebidas são curiosamente variadas. Basta mencionar, por exemplo, a aparência das divindades no antigo Egito, no Hinduísmo e no Cristianismo.

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O Conceito de “Deus”

2008-12-28 / Antropologia, Cinema, Ciência, Mitologia, Religião / 0 Comments
Vênus de Willendorf

Vênus de Willendorf

O Conceito de Deus – Da Pré-História à Idade Média

1. PRÉ-HISTÓRIA

É importante ter em mente que a capacidade do homem para conceber uma divindade antecede sua capacidade para registrar suas concepções por escrito. As religiões dos chamados povos primitivos do mundo moderno atestam o fato de que um rico complexo de crenças em seres sobrenaturais, práticas e rituais relacionados com os seus serviços, pode prosperar sem o suporte de uma literatura sagrada. Que tal situação existia antes da invenção da escrita na Mesopotâmia e Egito, na primeira parte do quarto milênio antes de Cristo, é evidente segundo a arqueologia pré-histórica. Embora a interpretação de dados arqueológicos sobre o pensamento humano e crença, não suportado por textos escritos, deve necessariamente ser especulativa, esses artefatos são documentos da atividade mental do homem. A feitura de um machado de pedra, por exemplo, pode dizer muito, se bem interpretado, sobre as necessidades sociais e econômicas de seu criador pré-histórico e sua habilidade na realização das mesmas.

A cultura do Paleolítico deixou alguns notáveis indícios do que pode razoavelmente ser considerado como o mais antigo ensaio da humanidade na concepção de uma divindade. O exemplo mais marcante desta prova é a chamada “Vênus de Laussel”. Trata-se da imagem de uma mulher esculpida em um bloco de pedra, que foi encontrada em Laussel, no distrito de Dordonha, França. Quando encontrada, a figura ocupou a posição central entre uma série de outras esculturas, de modo organizado como a sugerir que o local de sua localização era um santuário de pedra. A “Vênus” representa uma mulher nua com os atributos maternais grosseiramente exagerados, enquanto as características faciais não são representadas; a figura possui um chifre de bisão na mão direita.

Vênus de Laussel

Vênus de Laussel

Figuras semelhantes, de muito menor dimensão e esculpidas de todos os lados, que também foram encontradas em vários sítios paleolíticos, parecem indicar que um motivo comum inspirou a criação delas. Uma pista para esse motivo é possivelmente o estranho fato de que os rostos dessas esculturas são invariavelmente ausentes, enquanto as características maternas são retratadas com toda ênfase. Esta diferença de tratamento é certamente significativa. Parece querer mostrar que elas não foram concebidas como retratos de cada uma das mulheres, mas sim para simbolizar “mulher” como a “Mãe” ou fonte de vida nova. O contexto de sua relevância, se este era o seu significado, é claro. O fenômeno biológico do nascimento proveu os povos do Paleolítico, que fizeram as imagens, com evidência ocular do aparecimento de novos seres da mesma espécie por meio do corpo feminino. O fenômeno, aliás, foi provavelmente o mais impressionante, uma vez que é improvável que o processo de procriação tenha sido devidamente entendido naquele tempo. Há motivos, portanto, para ver nessas figuras, e em particular na Vênus de Laussel, as primeiras provas da deificação do princípio feminino. “Deificação”, neste contexto paleolítico têm, obviamente, de ser cuidadosamente qualificado; porque o nosso conhecimento sobre a capacidade da mente humana em um período tão remoto necessariamente repousa sobre deduções oriundas desses achados arqueológicos.

A localização original da Vênus de Laussel sugere que ela era um objeto de culto, em outras palavras, que aqueles que fizeram e reverenciaram a imagem procuravam não somente retratar o princípio feminino, mas também estabelecer uma relação especial entre eles e o que eles haviam concebido como a Fonte ou Criadora de vida nova. Como fizeram a transição mental do fenômeno do nascimento, a partir de mulheres da comunidade para a concepção transcendental de uma mulher ou Grande Mãe como fonte de fertilidade e vida nova está além de nossa presente compreensão. Entretanto, como iremos ver, estas esculturas constituem protótipos paleolíticos da Deusa Mãe ou Grande Deusa, cujo culto é bem comprovado no período Neolítico, e encontra expressão subsequente em muitas das famosas deusas do antigo Oriente Próximo.

A Vénus de Laussel pode, portanto, ser razoavelmente considerada como a mais antiga representação da idéia de divindade com a finalidade de adoração. É importante notar que a idéia provavelmente resultou da preocupação do homem paleolítico com o fenômeno de nascimento como o funcionamento de um misterioso poder que substituía
os falecidos membros da sua comunidade por outros recém-nascidos. A representação de animais grávidos na arte encontrada em cavernas fornece provas de importância similar; ou seja, que esses povos primitivos e caçadores foram profundamente preocupados com a reprodução de animais dos quais viviam. Assim, a concepção original de divindade estava intimamente relacionada com uma necessidade básica humana.

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A deificação do princípio feminino na cultura do Paleolítico é certamente mais comprovada do que a do princípio masculino. O exemplo mais provável deste é fornecido pela figura do chamado “Sorcerer” (francês, feiticeiro) da Caverna Trois Frères no departamento de Ariège, França. Esta designação para essa figura é uma interpretação que nega a interpretação alternativa de que ele, de fato, representa um deus. A figura é uma estranha composição. Em sua forma, ela é antropomórfica, mas o corpo tem um couro peludo, e com uma cauda de animal e genitais. A cabeça, que é encimada por cornos de veado, tem orelhas peludas, olhos de coruja, e uma longa língua ou barba. A postura da figura sugere uma posição de dança, embora outras explicações igualmente sensatas possam ser oferecidas.

Sorcerer de Tróis Frere

Sorcerer de Tróis Frere

Em virtude das provas de que existe um ritual de caça paleolítico em que homens disfarçados de animais executavam danças miméticas, muitos estudiosos têm interpretado a figura como um feiticeiro realizando uma dança ritual. Mas esta interpretação encontra a dificuldade de explicar por que tal figura deveria ser retratada em uma caverna que parece ter sido usada como um santuário. O problema envolvido aqui, apesar de interessante e importante, está fora do escopo deste artigo. A interpretação alternativa, que alguns eminentes especialistas em pré-história tem avançado, é que essa figura representa um “Senhor dos Animais” sobrenatural, a quem os caçadores do Paleolítico haviam concebido como o dono dos animais, e que tinha de ser propiciado por aqueles que os caçavam e matavam. Esta interpretação é razoável, mas tem de ser considerada menos certa do que a da Vénus de Laussel como a representação mais antiga da idéia de divindade.


A sugestão dada pela cultura do Paleolítico de que a mais antiga concepção de divindade foi inspirada pela preocupação do homem com a produção de nova vida encontra uma confirmação singular na cultura do Neolítico: o mais notável exemplo será brevemente descrito aqui. Uma escavação na localidade neolítica de Catal Hüyük, na Anatólia, que data de sétimo milênio a.C., revelou um vigoroso culto da Grande Deusa, cuja principal função era o nascimento e a morte. Essa ambivalência de conceito é evidenciada de uma maneira estranha. Os santuários da Deusa foram adornados por frisos de modelos de gesso dos seios femininos. Estes objetos continham os crânios de abutres e raposas e as mandíbulas de javalis. Infelizmente, nenhum texto escrito existe para explicar esse estranho simbolismo. No entanto, a união de símbolos de nutrimento e cuidados maternos com os símbolos da morte é profundamente sugestiva, e esta importância é reforçada por outros símbolos encontrados nos santuários: crânios humanos, chifres de touros e pinturas murais de grandes abutres ameaçando cadáveres humanos sem cabeça. A interpretação desses símbolos é necessariamente especulativa, mas a idéia de uma Grande Deusa, que é a fonte da vida, e para a qual tudo retorna depois da morte, é conhecido em outras religiões posteriores como, por exemplo, em Creta e os Mistérios de Elêusis na Grécia Antiga. Nesse contexto ambivalente, a Grande Deusa é identificada ou associada com a terra, como a Mãe Terra, cujo ventre é concebido simultaneamente como a fonte da vida e o local de repouso e, possivelmente, da revificação dos mortos.

A tradição da deificação do princípio feminino, que pode assim ser rastreada desde o Paleolítico até o período Neolítico, encontrou expressão nas culturas literárias precoces do antigo Oriente Próximo e o Vale do Indo. A tradição é encarnada, com certas características variantes, em algumas deusas famosas como Inanna-Ishtar da Mesopotâmia, a Astarte da Síria, as egípcias Ísis e Hathor, a Cibele da Anatólia, a Grande Deusa cretense e a cipriota Afrodite. Muitas dessas deusas combinaram os papéis da Virgem e Mãe, e foram muitas vezes intimamente associadas a um jovem deus, que, alternativamente, como o seu filho ou amante, foi o espírito deificado da vegetação.

(tradução minha da primeira parte do texto Idea of God from Prehistory to the Middle Ages do Dictionary of the History of Ideas)

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O Ritual do Banho

2007-03-16 / Antropologia, Mitologia, Religião / 0 Comments

Banho

Seja em rios, lagos, termas públicas ou banheiras particulares, banhar-se é um dos rituais mais antigos da humanidade. Além de ter como objetivo a higiene pessoal e a estética, o ato de banhar-se também era e ainda é visto em muitas religiões como um rito de purificação do corpo. O texto abaixo conta um pouco da história desse rito em diferentes lugares e culturas.

Durante a Idade Média, os ocidentais abandonaram os sofisticados rituais de limpeza da Antiguidade e mergulharam numa profunda sujeira. Principalmente por causa da religião, o homem medieval comum achava suficiente tomar um banho por ano. Foi preciso muito tempo – e alguns bons exemplos dos povos orientais e indígenas – para que voltássemos às nossas asseadas origens.

Pesquisadores acreditam que todos os povos, desde tempos imemoriais, tenham praticado alguma forma de higiene pessoal. Os primeiros registros do ato de se banhar individualmente pertencem ao antigo Egito, por volta de 3000 a.C. Os egípcios realizavam rituais sagrados na água e tomavam ao menos três banhos por dia, dedicados a divindades como Thot, deus do conhecimento, e Bes, deus da fertilidade.

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“Mais do que limpar o corpo, eles presumiam que a água purificava a alma”, diz o egiptólogo francês Christian Jacq, fundador do Instituto Ramsés, em Paris. “A crença valia tanto para a realeza, cortejada com óleos aromáticos e massagens aplicadas pelos escravos, quanto para as populações mais pobres, que recorriam inclusive a profissionais de rua quando não conseguiam tratar da própria beleza.” O apreço pela higiene é o motivo ao qual arqueólogos atribuem a sobrevivência dos egípcios às pragas e doenças que assolaram a Antiguidade.

A Grécia foi outro local em que os banhos prosperaram. Em Cnossos e Faístos, na ilha de Creta, é possível encontrar bem preservados palácios de 1700 a.C. a 1200 a.C. que, até hoje, surpreendem por suas avançadas técnicas de distribuição da água. “Todo banquete que precisava ser luxuoso incluía uma sessão de banho para os convidados”, explica Georges Vigarello, professor de Ciências da Educação da Universidade de Paris-5.


Embora os gregos tenham iniciado a prática dos banhos públicos no Ocidente, os pioneiros nos balneários coletivos foram os babilônios. A diferença é que, na Grécia, o banho não era motivado apenas pela higiene e espiritualidade. Entre 800 a.C. e 400 a.C., o esporte, particularmente a natação, era um dos três pilares da educação juvenil – ao lado das letras e da música. Bom cidadão era aquele que sabia ler e nadar, como comprovam imagens presentes em centenas de vasos de cerâmica pintados naquela época.

Os romanos herdaram muito da cultura da Grécia, incluindo a adoração pelo banho. Mas, entre eles, esse hábito tomou proporções inéditas. Enquanto construíam um dos maiores impérios de todos os tempos, os romanos levavam a suntuosidade de suas termas (enormes balneários públicos) aos mais diversos lugares.

Clique aqui para ler o artigo acima na íntegra.

Clique aqui para ler sobre como o ritual do banho é praticado por hindus, japoneses, muçulmanos e judeus.

Clique aqui para ler sobre o hábito do banho entre os índios brasileiros.

A foto acima é de Paulo Gama.


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Medusa e o Jardim das Hespérides

Medusa

Na mitologia grega, Medusa (do verbo medein [mesmo radical que dá origem ao nome Medéia ], proteger, guardar; portanto, ‘protetora’, ‘guardiã’) é uma personagem feminina ctônica monstruosa que teve origem em máscaras rituais usadas para afastar maus espíritos. Ela podia transformar qualquer um que olhasse para si em pedra e tinha duas irmãs imortais, Esteno ou Estenusa (“forte”) e Euríale (“aquela do mar vasto e salgado”); as três eram chamadas de Górgonas (“terríveis” ou, segundo alguns, “que rugem alto”).
As referências clássicas às três Gorgonas aparecem em várias histórias: Medusa, Estenusa e Euríale tinham dentes pontiagudos, olhos esbugalhados e línguas saindo para fora da boca, asas de ouro, mãos de bronze e, ao invés de cabelos, cobras venenosas sobre suas cabeças. Eram filhas de Fórcis e Ceto ou, segundo outras histórias, de Tifão e Equídina, todos eles monstros ctônicos do mundo antigo.


Em pinturas de vasos e obras de arte em relevo da Grécia antiga, Medusa e suas irmãs são sempre representadas como seres de formas monstruosas, mas escultores e pintores do século V começaram a personificá-las como criaturas terríveis e simultaneamente belas. A versão do mito de Medusa mais difundida entre nós foi escrita pelo poeta romano Ovídio. Em As Metamorfoses, Medusa é uma belíssima ninfa que é seduzida por Poseidon num templo de Atena e, como castigo, é transformada pela Deusa numa criatura horrenda que podia transformar quem a olhasse numa estátua de pedra.
Para o propósito deste artigo, a versão do mito que nos interessa é a original grega, a de Medusa como guardiã. Se ela era uma guardiã, o que ela protegia? Esta é a pergunta que me trouxe ao que vem a seguir. Segundo Hesíodo, as Górgonas habitavam o Oceano Ocidental, que é como os gregos chamavam o Oceano Atlântico, perto do lugar onde se dizia que estava o Jardim das Hespérides. Segundo o mito, quando Zeus se casou com Hera, ela recebeu de Gaia lindas maças (pomos) como presente de casamento. A pedido de Hera, as maças foram plantadas num jardim bem longínquo no extremo Ocidente e as Hespérides – Egle, Erítia e Héspera – eram ninfas que zelavam por esse Jardim. Diz-se que lá havia uma grande macieira de onde nasciam pomos de ouro, os pomos da imortalidade, que também eram guardados por um dragão de cem cabeças.
As Hespérides também são chamadas de Damas do Oeste, Filhas do Entardecer ou Deusas do Sol Poente. Diz-se que são filhas de Nyx (Noite) e Érebus (Escuridão). Segundo outros relatos, seriam filhas do próprio Zeus, de Atlas ou de Fórcis e Ceto, os pais de Medusa.

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É relativamente fácil constatar que há muitas semelhanças entre o Jardim das Hespérides e o Jardim do Éden da mitologia judaica. Em ambos está metaforicamente presente a origem obscura da vida, o princípio de tudo. Ambos são locais da mais sagrada importância imaginável. Na antiga mitologia grega, porém, Deuses e mortais eram muito semelhantes, partilhavam das mesmas faltas, virtudes e paixões. O que os separava era apenas uma qualidade: a imortalidade. Enquanto os seres humanos estavam fadados à morte, os Deuses viveriam ad eternum. Por esse motivo, o Jardim das Hespérides tinha guardiães, entre eles a terrível Medusa, para que só os valorosos conseguissem adentrá-lo para pegar os pomos de ouro da imortalidade. Na mitologia judaica, Deus, Adão e Eva são iguais, passeiam e conversam no Jardim do Éden. Porém, após comerem o fruto proibido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, dissipa-se a similitude e eles são banidos do Jardim, na porta do qual o Deus hebraico põe um querubim (tipo de anjo da mitologia hebraica), armado com uma espada flamejante que apontava para todas as direções. Assim como Medusa, esse querubim é um guardião daquele lugar sagrado.
Assim como muitos outros guardiães, como o querubim ou os guardiães nas entradas de templos budistas, Medusa é um arquétipo do guardião do limiar. Eles guardam a passagem a outro nível de consciência e seu papel é advertir aqueles que querem ultrapassar o limiar para que o façam cônscios.
Entre os raros heróis que conseguiram chegar até o Jardim das Hespérides está Perseu, que decepou a cabeça da Górgona e também Héracles (Hércules), que conseguiu alguns pomos dourados que mais tarde seriam devolvidos por Atena a seu lugar de origem.

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Dossiê Egito: O Berço dos Faraós

2006-11-13 / Antropologia, Mitologia, Religião / 1 Comments

Máscara de um Faraó

O artigo abaixo trata sobre o Egito Antigo, uma das primeiras grandes civilizações da história. Além de desfazer alguns equívocos sobre essa civilização, o autor apresenta uma perspectiva cronológica dos maiores acontecimentos político-religiosos e sociais que a transformaram através dos tempos.

Período tinita (cerca de 3150 a.C. a 2700 a.C.) – I e II dinastias
A história do Egito faraônico começa com o rei Menés, responsável pela unificação entre o Alto e o Baixo Egito e pela fundação de Mênfis, a capital do Império. Interlocutor dos homens com os deuses, Menés ostenta a coroa branca do Alto Egito (hedjet) e a coroa vermelha do Baixo Egito (deshret).

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Antigo Império (por volta de 2700 a.C. a 2140 a.C. ) – III e IV dinastias
Nesta época, o Estado egípcio se desenvolve consideravelmente e a sua administração centraliza-se na figura do faraó, que passa a ser venerado como verdadeiro deus. Djoser inaugura a III dinastia (cerca de 2700 a.C.). Seu conselheiro, o arquiteto Imotep, constrói a pirâmide em degraus de Saqqara, a primeira tumba real com essa forma arquitetônica.

A IV dinastia é marcada por reinados nos quais foram construídas as três grandes pirâmides de Gizé – Queóps, Quéfren e Miquerinos. Esses complexos funerários são o símbolo de um Estado forte e de uma civilização avançada.

É na V dinastia (aproximadamente 2480 a.C. a 2330 a.C.), originária de Heliópolis, que se verifica o culto ao Sol, o que não significa a rejeição aos outros deuses. O faraó é agora o “filho de Rá”, o deus-sol.

Pepi I, representante da VI dinastia, reina por mais de 50 anos. Ele é também um grande construtor de pirâmides (Bubastis, Abydos, Dendérah). Pepi II sobe ao trono aos seis anos de idade e nele permanece por 94 anos.

Leia o artigo na íntegra.

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O Rito da Circuncisão

2006-10-26 / Antropologia, Mitologia, Religião / 1 Comments

 

O Rito da Circuncisão

O ensaio abaixo trata de um dos rituais religiosos mais antigos que se tem notícia: a circuncisão. Praticado por vários povos desde a antiguidade, esse rito ainda hoje tem relevância religiosa, mitológica e médica.




Quando nos referimos aos rituais humanos, não é possível precisar ao certo a data e o local de sua origem. Esse é o caso da circuncisão, intervenção cirúrgica que consiste na remoção do prepúcio, prega cutânea que recobre a glande do pênis. Essa remoção, chamada também exérese do prepúcio ou peritomia (do grego peri, “em torno”, e tomia, “corte”), é realizada atualmente em clínicas com condições de higiene e assepsia. A circuncisão existe há mais de 5 mil anos. Ela é praticada numa vasta zona que vai da África subsaariana até o Oriente Próximo, incluindo a Pérsia, passando pelo Magreb, a Líbia e o Egito, a Palestina, a Síria, a Arábia e o Iêmen. Os turcos são circuncidados, assim como os muçulmanos da Ásia Menor. Judeus e muçulmanos do mundo inteiro são circuncidados, independentemente de suas convicções religiosas. Hoje em dia, o fator de integração e conformidade com a aparência física supera as crenças religiosas. Contabilizamos mais de 900 milhões de circuncidados no mundo, número que pode passar de um bilhão, se considerarmos a evolução do islamismo nas regiões sub-africanas e no Ocidente. Atualmente, as zonas de extensão da circuncisão são a Europa e os Estados Unidos. Por razões de higiene, a circuncisão ganha terreno, sobretudo, em meio laico. (…)

Afora o relato da Bíblia citado no início, não dispomos de documentos confiáveis que precisem o local de seu nascimento. “A circuncisão vem dos egípcios, dos árabes ou dos etíopes?”, pergunta-se Voltaire, no século XVIII. E afirma: “Sei apenas que os padres da Antiguidade imprimiam em seus corpos marcas de sua consagração, assim como se marcava com um ferro ardente a mão dos soldados romanos” (Obras completas, tomo VII). Para responder parcialmente ao filósofo, sugerimos algumas pistas. Segundo pesquisas, a circuncisão teria nascido em solo africano e dataria de cinco a sete mil anos. Após sua implantação definitiva no leste do continente africano, ela teria migrado para o norte pelo rio Nilo, graças à dispersão de tribos estabelecidas na região.

Há centenas de anos, a circuncisão teria evoluído no Egito faraônico de forma considerável a ponto de ser “codificada”. Prova disso é a descoberta por arqueólogos de representações de falos circuncidados em uma necrópole de Tebas datando do Novo Império (1500 a.C.). Embora o clero egípcio não seguisse as religiões monoteístas que iriam popularizar a circuncisão, em particular o judaísmo, ele era circuncidado e exigia que os novos adeptos o fossem igualmente. Essa codificação era obra de padres e médicos que seguiam o exemplo dos faraós, os quais conferiam à circuncisão uma indiscutível função iniciática e sacerdotal. Não deveria Pitágoras ser circuncidado antes de ingressar na grande biblioteca de Alexandria para se iniciar nos mistérios órficos? Graças a Titus Flavius Clemens ou Clemente de Alexandria (150-215), sabemos que esses “mistérios” constituíam a base dos ensinamentos de Orfeu, personagem mítico da Trácia antiga, que, além de seu conhecimento científico e mágico, inventou a cítara. Sobre essas diferentes iniciações, Jâmblico (240-325), filósofo neoplatônico, forneceu uma brilhante interpretação em sua obra Os mistérios do Egito. E o historiador fenício Sanconiaton relata, em sua Teogonia fenícia, que Cronos, o primeiro rei desse povo, praticara a circuncisão em seus companheiros e em si mesmo.


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Mitos no Céu Tupi-Guarani

2006-06-24 / Antropologia, Mitologia, Religião / 7 Comments

Via Lactea

Assim como vários povos antigos, os índios que aqui estavam quando os portugueses aportaram tinham grandes conhecimentos astronômicos. Eles eram exímios observadores do céu, do qual, assim como outros povos acreditavam, poderiam estabelecer leis que regulassem a sociedade, melhorassem o plantio e a colheita e ajudassem nas condições gerais de caça. A idéia segundo a qual “assim como é no céu, também é na terra” encontra eco em seus mapas astrológicos, nomes dados a estrelas, em seu calendário e em sua mitologia.


O Sol e os Pontos Cardeais

Para os tupis-guaranis o Sol é o principal regulador da vida na Terra e tem grande significado religioso. Todo o cotidiano deles está voltado para a busca da força espiritual do Sol. Os guaranis, por exemplo, nomeiam o Sol de Kuaray, na linguagem do cotidiano e de Nhamandu, na espiritual.

Os tupis-guaranis determinam o meio-dia solar, os pontos cardeais e as estações do ano utilizando o relógio solar vertical, ou gnômon, que na língua tupi antiga, por exemplo, chamava-se Cuaracyraangaba. Ele é constituído de uma haste cravada verticalmente em um terreno horizontal, da qual se observa a sombra projetada pelo Sol. Essa haste vertical aponta para o ponto mais alto do céu, chamado zênite. O relógio solar vertical foi utilizado também no Egito, China, Grécia e em diversas outras partes do mundo.

Na cosmogênese guarani, Nhanderu (Nosso Pai) criou quatro deuses principais que o ajudaram na criação da Terra e de seus habitantes. O zênite representa Nhanderu e os quatro pontos cardeais representam esses deuses. O Norte é Jakaira, deus da neblina vivificante e das brumas que abrandam o calor, origem dos bons ventos. O Leste é Karai, deus do fogo e do ruído do crepitar das chamas sagradas. No Sul, Nhamandu, deus do Sol e das palavras, representa a origem do tempo-espaço primordial. No Oeste, Tupã, é deus das águas, do mar e de suas extensões, das chuvas, dos relâmpagos e dos trovões.

O calendário guarani está ligado à trajetória aparente anual do Sol e é dividido em tempo novo e tempo velho (ara pyau e ara ymã, respectivamente, em guarani). Ara pyau é o período de primavera e verão, sendo ara ymã o período de outono e inverno.

O dia do início de cada estação do ano é obtido através da observação do nascer ou do pôr-do-sol, sempre de um mesmo lugar, por exemplo, da haste vertical. O Sol sempre nasce do lado leste e se põe do lado oeste.

No entanto, somente nos dias do início da primavera e do outono, o Sol nasce exatamente no ponto cardeal Leste e se põe exatamente no ponto cardeal Oeste. Para um observador no Hemisfério Sul, em relação à linha leste-oeste, o nascer e o pôr-do-sol ocorrem um pouco mais para o norte no inverno e um pouco mais para o sul no verão. Utilizando rochas, por exemplo, para marcar essas direções, os tupis-guaranis materializavam os quatro pontos cardeais e as direções do nascer e do pôr-do-sol no início das estações do ano.

Lua e as Marés
Para os tupis-guaranis, a Lua (Jaxi, em guarani), principal regente da vida marinha, é considerada do sexo masculino, o irmão mais novo do Sol. A primeira unidade de tempo utilizada pelos tupis-guaranis foi o dia, medido por dois nasceres consecutivos do Sol. Depois veio o mês (também chamado jaxi), determinado a partir de duas aparições consecutivas de uma mesma fase da Lua. Os tupis-guaranis consideravam essa fase como sendo o primeiro filete da Lua que aparecia do lado oeste, ao anoitecer, depois do dia da lua nova (jaxy pyau), dia em que a Lua não é visível por se encontrar muito próxima da direção do Sol.

Além de serem utilizadas como calendário mensal, as fases da Lua serviam para orientação geográfica, pois a Lua brilha por refletir a luz do Sol, ficando a sua parte iluminada no lado em que se encontra o Sol. Entre a lua nova e a lua cheia (jaxy guaxu) o hemisfério iluminado aponta para o lado oeste, enquanto entre a lua cheia e a lua nova, a indicação é do lado leste. As fases da Lua também permitiam obter as horas da noite: o primeiro filete, depois da lua nova, aparece ao anoitecer, do lado oeste, e desaparece minutos depois, a lua crescente (jaxy endy mbyte) aparece desde o anoitecer até meia-noite, a lua cheia do pôr-do-sol ao nascer-do-sol e a lua minguante (jaxy nhenpytu mbyte) fica visível da meia-noite ao amanhecer.

Segundo d’Abbeville, “os tupinambás atribuem à Lua o fluxo e o refluxo do mar e distinguem as duas marés cheias que se verificam na lua cheia e na lua nova ou poucos dias depois”. Assim, mesmo antes dos europeus, os tupinambás já sabiam que perto dos dias de lua nova e de lua cheia as marés altas são mais altas e as marés baixas são mais reduzidas do que nos outros dias do mês. O conhecimento da periodicidade das marés antes dos europeus pode ser explicado em virtude de a relação entre as marés e as fases da Lua ser melhor observada entre os trópicos, região em que se localiza a maior parte do Brasil.

Eclipses e o Fim do Cosmos
Os eclipses sempre espalharam terror por transformarem em caos a ordem de repetição do Cosmos, de eterno retorno. Aparentemente, diversos povos antigos podiam prever esses fenômenos. Mas, por falta de registros, não conhecemos os métodos por eles utilizados. Os tupis-guaranis também observavam os movimentos do Sol e da Lua e se preocupavam em prever os eclipses.

Um dos mitos tupi-guarani sobre o fenômeno relata que a onça (xivi, em guarani) sempre persegue os irmãos Sol e Lua. Na ocasião do eclipse solar (kuaray onheama) ou do lunar (jaxy onheama), os indígenas fazem a maior algazarra, com o objetivo de espantar a Onça Celeste, pois acreditam que o fim do mundo ocorrerá quando a ela devorar a Lua, o Sol e os outros astros, fazendo com que a Terra caia na mais completa escuridão.
No céu, a cabeça da onça desse mito indígena é representada pela estrela vermelha Antares, da constelação zodiacal do Escorpião, e pela estrela Aldebaran, também vermelha, da constelação zodiacal do Touro. Essas duas constelações ficam no zodíaco onde, observados da Terra, passam o Sol, os planetas e a Lua. Assim, de fato, pelo menos uma noite por mês e um dia por ano, a Lua e o Sol, respectivamente, aproximam-se de Antares e de Aldebaran.

Os antigos astrônomos não sabiam que era a Terra que orbitava em torno do Sol (movimento de translação). Ao nascer e ao pôr-do-sol, observavam que a posição do Sol mudava, dia a dia, em relação às estrelas fixas, em um movimento cíclico de um ano. Perceberam que os eclipses solares e lunares ocorriam apenas quando a Lua estava próxima a essa trajetória do Sol entre as estrelas, no céu. Devido a esta relação com os eclipses, denominaram essa trajetória aparente do Sol de eclíptica. O mito sobre os eclipses demonstra o grande conhecimento empírico de astronomia dos tupis-guaranis.

As Crateras Lunares
Lua, irmão do Sol, entrava tateando no escuro, no quarto da irmã de seu pai, com a intenção de fazer amor com ela. Para saber quem a importunava todas as noites, sua tia lambuzou os dedos com resina e de noite, enquanto Lua a procurava, passou a mão em sua face.

No dia seguinte, bem cedo, Lua foi lavar a face para retirar a resina. No entanto, a substância não saiu, e ele ficou mais sujo ainda. Por esse motivo, Lua tem sempre a face manchada.

Desde então, a lua nova lava seu rosto, fazendo chover para tentar tirar as manchas de resina, que ficam mais visíveis quando ela se torna cheia. Esta fábula ensina aos tupis-guaranis que não devem cometer incesto.


A Mulher da Lua
O planeta Vênus era muito observado pelos tupis-guaranis por ser, depois do Sol e da Lua, o objeto mais brilhante do céu. Vênus era utilizado principalmente para orientação, por ser visto pouco antes do nascer ou logo após o pôr-do-sol, sempre próximo ao Sol. Os indígenas pensavam que se tratava de duas estrelas que apareciam em períodos diferentes: a estrela matutina (kaaru mbija), que chamamos de estrela D’alva, e a vespertina (ko’e mbija), que chamamos de Vésper, cada uma delas visível por cerca de 263 dias.

Os tupis-guaranis chamam o planeta Vênus, quando aparece como estrela vespertina, de “Mulher da Lua”. Eles contam que a mulher da Lua é muito linda, vaidosa e nunca envelhece. Ela só fica ao lado do seu marido enquanto ele é jovem, afastando-se dele à medida que fica mais velho.

Ao anoitecer, no dia seguinte à lua nova, os dois astros se encontram bem próximos, no lado oeste. Nas noites seguintes, a Lua vai crescendo e se distanciando de Vênus. Na crescente, Vênus continua aproximadamente no mesmo lugar, mas a Lua se encontra no alto do céu, perto da linha norte-sul. Na lua cheia, ao anoitecer, a Lua está no lado leste e sua mulher, bem afastada, no lado no oeste. Na lua minguante, Vênus e a Lua não são mais visíveis ao mesmo tempo. Na lua nova, o ciclo recomeça.

Esse mito, que pode ser considerado uma maneira alternativa de explicar as fases da Lua, nos foi relatado pelos guaranis do Sul do Brasil e pelos tembés do Norte do país, duas etnias da família tupi-guarani que não têm contato entre si.

Constelações na Via Láctea
As constelações formam figuras imaginárias, criadas há mais de 6 mil anos para reunir grupos de estrelas (jaxy tatá), aparentemente próximas, visíveis a olho nu, tendo em vista que nomear cada uma delas era uma tarefa difícil. A maioria dos povos antigos observava as constelações ao anoitecer e as utilizavam como calendário e orientação. Cada cultura tinha as suas próprias constelações. As constelações dos tupis-guaranis diferem das concepções das sociedades exteriores ocidentais principalmente em três aspectos.

Primeiro, as principais constelações ocidentais registradas pelos povos antigos são aquelas que interceptam o caminho imaginário que chamamos de eclíptica, por onde aparentemente passa o Sol, e próximo do qual encontramos a Lua e os planetas. Essas constelações são chamadas zodiacais. As principais constelações indígenas estão localizadas na Via Láctea (Tapi’i Rape), a faixa esbranquiçada que atravessa o céu, onde as estrelas e as nebulosas aparecem em maior quantidade, facilmente visível à noite. A Via Láctea é conhecida como Caminho da Anta ou como a Morada dos Deuses pela maioria das etnias dos tupis-guaranis.

Os desenhos das constelações ocidentais são feitos pela união de estrelas. Mas, para os tupis-guaranis, as constelações são constituídas pela união de estrelas e, também, pelas manchas claras e escuras da Via Láctea, sendo mais fáceis de imaginar. Muitas vezes, apenas as manchas claras ou escuras, sem estrelas, formam uma constelação. Os guaranis chamam a Grande Nuvem de Magalhães de Bebedouro da Anta (Tapi’i Huguá) e a Pequena Nuvem de Magalhães de Bebedouro do Porco-do-Mato (Coxi Huguá).

O terceiro aspecto que diferencia as constelações Tupis-Guaranis das ocidentais está relacionado ao número delas conhecido pelos indígenas. A União Astronômica Internacional (UAI) utiliza um total de 88 constelações, distribuídas nos dois hemisférios terrestres, enquanto certos grupos indígenas já nos mostraram mais de 100 constelações, vistas de sua região de observação. Quando indagados sobre quantas constelações existem, os pajés dizem que tudo que existe no céu existe também na Terra, que nada mais seria do que uma cópia imperfeita do céu. Assim, cada animal terrestre tem seu correspondente celeste, em forma de constelação.

 

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Olorun

2006-05-25 / Antropologia, Mitologia, Religião / 0 Comments

Céu

Olorun – ou Olorum – é o Deus Celeste dos iorubás, ou seja, é o firmamento deificado, assim como Nyankupon para os tshis (tribo de Gana), Nyonmo para os e Mawu para os jeje. Constata-se uma tendência entre os povos africanos em escolher o firmamento como o principal Deus da Natureza ao invés do sol, da lua ou da terra; e nesse aspecto se assemelham aos hindus arianos, ao gregos e aos romanos que, com Dyeus, Zeus e Júpiter, também representavam o firmamento.

Os tshis e os gá usam as palavras Nyankupon e Nyonmo para expressar céu, chuva, trovão e relâmpago, e os jeje e os iorubás usam Mawu e Olorum para expressar as duas últimas. O povo tshi diz Nyankupon Iom (Nyankupon bate), “está trovejando”; Nyankupon aba (Nyankupon chegou), “está chovendo”; e o povo gá, Nyonmo bate (está trovejando), Nyonmo chove, Nyonmo garoa, etc; da mesma maneira, os gregos antigos atribuíam esses fenômenos a Zeus, que nevava, chovia, fazia chover granizo, juntava as nuvens e trovejava. Nyankupon tem quatro epítetos: Amosu (Doador da Chuva); Amovua (Doador da Luz Solar); Tetereboensu (Movente Criador das Águas) e Tyoduampon, que parece significar “Telhado Distendido” (Tyo, puxar ou arrastar; dua, madeira; e pon, superfície plana).

Nyankupon e Nyonmo trovejam e relampejam assim como fazem chover, mas Olorun, assim como Mawu dos Jeje, não maneja os relâmpagos, o que se tornou a função de um deus do trovão específico. O nome Olorun significa “Senhor do Céu” (oni, aquele que possui; orun, céu, firmamento, nuvem; e acreditam que o céu é um corpo sólido que se curva sobre a terra para cobrí-la com seu telhado arqueado).

Assim como Nyankupon, Nyonmo e Mawu, Olorum é visto como bem distante ou indiferente para interferir nas coisas do mundo. Os nativos dizem que ele desfruta de uma vida de completa despreocupação e repouso, uma condição de felicidade de acordo com eles, e que ele passa seu tempo cochilando ou dormindo. Como ele é indolente ou indiferente ao exercício de controlar as coisas mundanas, os homens não se preocupam em propiciá-lo e reservam o culto e os sacrifícios para agentes mais ativos, os Orixás. Por isso, Olorun não tem sacerdotes, símbolos, imagens ou templos e, embora em tempos de calamidade ou aflição, quando os outros deuses parecem não escutar suas súplicas, um nativo, talvez como último recurso, invoque Olorun, tais ocasiões são raras e, em regra geral, o Deus não é adorado nem evocado. Entretanto, o nome Olorun ocorre em uma ou duas frases que mostram que outrora maior atenção lhe era devida. Por exemplo, a resposta apropriada para a saudação matinal, “Você se levantou bem?” é O yin Olorun, “Graças a Olorun”; e a frase “Que Olorun lhe proteja” é ouvida como saudação ao entardecer. A primeira parece significar que graças são devidas ao céu por deixar o sol adentrá-lo; a segunda parece ser um invocação do firmamento, o teto do mundo, para continuar lá em cima e proteger a terra durante a noite. Alguns nativos às vezes levantam as mãos e gritam “Olorun, Olorun!”, tal qual dizemos “Meu Deus!”, e com igual ausência de sentido literal.

Olorum tem os seguintes epítetos: 1. Oga-ogo (Oga, distinto ou corajoso; ogo, alumbramento, maravilhamento, louvor); 2. Olowo (ni-owo) “o Venerável”; 3. Eleda (da, cessar de chover), “Aquele que controla a chuva”; 4. Elemi, “vivente”, literalmente “aquele que tem o sopro da vida”; 5. Olodumaye ou Olodumare; a derivação desse epíteto é obscura, mas provavelmente significa “aquele que enche os riachos” (Olodo, que possui riachos). Encontramos a mesma terminação em Oxumaye ou Oxumarê, Arco-íris, e em Osamaye ou Osamare, lírio d’água), e talvez também composto por omi, água e aye, estado de estar vivo.

Deve-se mencionar que, assim como os missionários confundiram Nyankupon, Nyonmo e Mawu com o Jeová dos cristãos, traduzindo esses nomes como “Deus”, assim também o fizeram com Olorun, a quem consideravam ser o sobrevivente de uma revelação primeva feita a toda a humanidade na infância do mundo. Todavia, Olorun é apenas um Deus da Natureza, o céu deificado, e ele só controla fenômenos relacionados à mente dos nativos com o teto do mundo. Ele não é, de modo algum, um Deus onipotente. Isso é bem exemplificado pelo provérbio que diz “Um homem não pode fazer chover assim como Olorun não pode lhe dar uma criança”, o que significa que assim como um homem não pode executar as funções de Olorun e fazer chover, Olorun não pode formar uma criança no útero materno, visto que essa é a função do Deus Obatalá. De fato, cada Deus, incluíndo Olorun, tem, por assim dizer, suas próprias tarefas; e embora cada um seja perfeitamente independente em seus domínios, um não ultrapassa os limites dos outros.

(Texto traduzido por mim com pequenas modificações)

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Chefe Seattle

2006-04-17 / Antropologia, Mitologia, Religião / 0 Comments

Chefe Seattle

Joseph Campbell começou a estudar os mitos dos índios norte-americanos desde garoto e, em várias palestras e livros, cita o Chefe Seattle como exemplo bem ilustrativo da diferença entre o tipo de consciência que a mitologia proporciona aos homens. Na mitologia judaico-cristã, o homem é expulso do paraíso, ou seja, da natureza, para onde jamais poderá voltar. Segundo essa tradição, o homem é superior aos demais seres da criação e deve dominar todos os outros. Embora haja controvérsias sobre a autoria do texto do Chefe Seattle, nele percebe-se uma visão mitológica completamente diferente. Não há expulsão alguma: homem e natureza vivem harmoniosamente. Os animais são vistos como irmãos e até com reverência, pois era através deles que o sagrado se manifestava. Eles eram também a carne e o sacrifício necessários à manutenção da vida. Todo o mundo era visto como manifestação do sagrado, e não como encenação de uma tragédia em que havia exílio, pecado e queda.

Em 1852, o governo dos Estados Unidos quis adquirir terras dos índios para doá-las aos imigrantes que chegavam ao país. Em resposta o Chefe Seattle mandou ao mandatário americano esta carta:
“Como é possível comprar ou vender o céu ou a terra? A idéia nos é estranha. Se não possuímos o frescor do ar e a vivacidade da água, como vocês poderão comprá-los?
Cada parte desta terra é sagrada para o meu povo. Cada arbusto brilhante do pinheiro, cada porção de praia, cada bruma na floresta escura, cada campina, cada inseto que zune. Todos são sagrados na memória e na experiência do meu povo.
Conhecemos a seiva que circula nas árvores, como conhecemos o sangue que circula em nossas veias. Somos parte da terra, e ela é parte de nós. As flores perfumadas são nossas irmãs. O urso, o gamo e a grande águia são nossos irmãos. O topo das montanhas, o húmus das campinas, o calor do corpo do pônei, e o homem, pertencem todos à mesma família.
A água brilhante que se move nos rios e riachos, não é apenas água, mas o sangue de nossos ancestrais. Se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão lembrar-se de que ela é sagrada. Cada reflexo espectral nas claras águas dos lagos fala de eventos e memórias da vida de meu povo. O murmúrio da água é a voz do pai de meu pai.
Os rios são nossos irmãos. Eles saciam nossa sede, conduzem nossas canoas e alimentam nossos filhos. Assim, é preciso dedicar aos rios a mesma bondade que se dedicaria a um irmão.
Se lhes vendermos nossa terra, lembrem-se de que o ar é precioso para nós, o ar partilha seu espírito com toda a vida que ampara. O vento que deu a nosso avô o primeiro alento, também recebe seu último suspiro. O vento também dá às nossas crianças o espírito da vida. Assim, se lhes vendermos nossa terra, vocês deverão mantê-la à parte e sagrada, como um lugar onde o homem possa ir apreciar o vento, adocicado pelas flores da campina.
Ensinarão vocês às suas crianças o que ensinamos às nossas? Que a terra é nossa mãe? O que acontece à terra acontece a todos os filhos da terra.
O que sabemos é isto: a terra não pertence ao homem, o homem pertence à terra. Todas as coisas estão ligadas, assim como o sangue nos une a todos. O homem não teceu a rede da vida, é apenas um dos fios dela. O que quer que ele faça à rede, fará a si mesmo.
Uma coisa sabemos: nosso deus é também seu deus. A terra é preciosa para ele e magoá-lo é acumular contrariedades sobre o seu criador.
O destino de vocês é um mistério para nós. O que acontecerá quando os búfalos forem todos sacrificados? Os cavalos selvagens todos domados? O que acontecerá quando os cantos secretos da floresta forem ocupados pelo odor de muitos homens e a vista dos montes floridos for bloqueada pelos fios que falam? Onde estarão as matas? Sumiram. Onde estará á água? Desapareceu. E o que será dizer adeus ao pônei arisco e à caça? Será o fim da vida e o início da sobrevivência.
Quando o último pele-vermelha desaparecer, junto com sua vastidão selvagem, e a sua memória for apenas a sombra de uma nuvem se movendo sobre a planície… estas praias e estas florestas ainda estarão aí? Alguma coisa do espírito do meu povo ainda restará?
Amamos esta terra como o recém-nascido ama as batidas do coração da mãe. Assim, se lhes vendermos nossa terra, amem-na como a temos amado. Cuidem dela como a temos cuidado. Gravem em suas mentes a memória da terra tal como estiver quando a receberem. Preservem a terra para todas as crianças e amem-na como Deus nos ama a todos.
Assim como somos parte da terra, vocês também são parte da terra. Esta terra é preciosa para nós, também é preciosa para vocês. Uma coisa sabemos: existe apenas um Deus. Nenhum homem, vermelho ou branco, pode viver à parte. Afinal, somos irmãos”.

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Idéias Elementares

2006-04-09 / Antropologia, Mitologia / 2 Comments

Adolf Bastian

Como falamos sobre arquétipos no artigo anterior, pensei que seria uma boa ocasião para falar sobre Adolf Bastian. Joseph Campbell sempre o cita em palestras, reconhecendo as contribuições tanto de Bastian quanto de Jung nos estudos de religião comparada. Comparem o que Jung chama de “arquétipo” com o que Bastian chama de “idéias elementares” (Elementargedanke).
O artigo abaixo pode ser lido na íntegra
aqui .



Já no século passado o renomado antropólogo alemão Adolf Bastian (1826-1905), abria o campo da experiência da datação dos mitos para distinguir duas importantes concepções da esfera mitológica. Obsessivo historiador dos costumes de cada povo, experimentado e curioso explorador, Bastian, dentro das longas viagens que fez, desenvolveu a teoria das “idéias elementares” (Elementargedanke), em contrapartida às “idéias étnicas ou culturais” (Volkergedanke).Dentro das “idéias étnicas”, dizia ele, encontravam-se os possibilitadores, as inferências culturais e personalizadas que motivavam o desenvolvimento do mitos criadores, mais profundos e fundamentais a toda experiência humana no passar das eras (as “idéias elementares”).

Assim, dentro de sua teoria, enfocava ele a maneira como um mito fundamental (um princípio criador/mobilizador ou um sistema de símbolos geral a experiência humana através dos tempos) ganhava corpo e instituía-se na possibilidade de transmutação e transmigração através dos tempos, mudando de forma, adquirindo novas carapaças/vestimentas e tonalidades para sobreviver ao longo de eras (na medida em que os povos davam novas e diferenciadas interpretações/afirmações).

Esta teoria, afirmava ele, fazia crer na maneira peculiar como os mitos iam gradual e progressivamente se modificando em novos povos e em novas épocas, quando assumiam e repercutiam novas e emergentes tendências de uma dada necessidade étnica.

Um mito genuíno, segundo ele, não ficava livre das novas e fortalecedoras vestimentas, os realces das máscaras culturais de um determinado povo sob determinada necessidade simbólica.

A mercê da síntese e decodificação, os mitos e as referidas mitologias eram “explorados” pelo sistema cultural emergente, quando uma “idéia elementar” comum ao psiquismo humano adquiria uma nova roupagem em abandono da estrutura antiga menos favorecida.

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