O Conceito de “Deus” – parte III

admin / abril 23rd, 2009/ Posted in História, Mitologia, Religião / 1 Comment »

O conceito da divindade no antigo Irã antes do sexto século a.C. é fundamentalmente obscuro, uma vez que as primeiras provas escritas são fornecidas por Zaratustra ou Zoroastro (nascido em cerca de 570 a.C.). Seu texto Gāthās documenta a reforma da religião iraniana que ele iniciou, e que afetou profundamente a posterior tradição religiosa do Irã. Muita atenção tem sido dada por especialistas em estudos iranianos para o problema óbvio da religião antes da reforma de Zaratustra. Uma vez que é sabido que os primeiros colonos no Irã eram arianos partilhavam de uma tradição cultural comum com os arianos que se instalaram na região noroeste do continente indiano, a literatura dos últimos (especialmente o Rig-Veda) tem sido estudada como relevantes para entender a situação no Irã. Provas também foram procuradas em algumas tradições pós-Zoroastro. A partir desta investigação, não só é certo que a religião primitiva iraniana era politeísta e semelhante ao que é apresentado no Rig-Veda, mas parece que houve uma disposição para conceber as divindades de forma ambivalente. Assim, há indícios do culto de deuses celestes como Mitra e Vayu, e cada um representava tanto o lado bom quanto o aspecto sinistro da realidade. Outra dessas divindades era Zurvān, que assumiu um papel importante na antiga religião persa. O nome desta misteriosa divindade significava “tempo”, e uma variação desse nome já ocorre no décimo segundo milênio a.C. em tábuas encontradas em Nuzi.

Zaratustra parece ter rejeitado esta propensão iraniana a ter uma concepção de divindade ambivalente proclamando que o Deus a quem ele chama Ahura Mazda, o Sábio Senhor, como o único Deus verdadeiro, e identificando-o exclusivamente com Arta ( “Ordem dos Justos” ). Tem havido muita especulação sobre a origem de Ahura Mazda, e alguns especialistas pensam que a concepção foi derivada de uma contra-parte iraniana da divindade védica Varuna (ver abaixo).

Seja qual for a origem de seu Sábio Senhor, Zaratustra intencionava detectar a natureza dualista do universo a partir de uma fonte sobrenatural. Isso ele faz no Gāthās ao colocar dois espíritos primordiais: o Spenista Mainyu ( “Generosíssimo Espírito”) e o Angra Mainyu ( “Mal” ou “Espírito destrutivo”). Esses espíritos representam os aspectos ou forças opostas do Universo: luz e treva, vida e morte, o bem e o mal. No entanto, apesar da enfática identificação de Ahura Mazda com o princípio da boa ordem (Arta) e sua radical condenação da Druj ( “Mentira”), um vestígio da antiga ambivalência da divindade aparece na Gāthās. Para Zaratustra, Ahura Mazda era considerado o único criador cósmico, a quem a origem da luz e da treva é atribuída (Yasna, 14:5). Este é um fragmento da Avesta. Esta indicação de uma tradição anterior, que deriva os dois aspectos contrastantes de fenômenos cósmicos a partir de uma única fonte divina, é significativa, tendo em conta desenvolvimentos posteriores na concepção iraniana de divindade.

Na forma clássica de Zoroastrianismo, Ahura Mazda, com o nome de Ohrmazd, foi praticamente equiparado com o Spenista Mainyu, e representava o princípio do Bem; seu oponente – o princípio do Mal – foi chamado Ahriman. Essa equação teve o efeito de fazer o bem e o mal coevos, e, embora escatologia zoroastriana previsse a vitória final do Bem (Ohrmazd) sobre o mal (Ahriman), logicamente os dois princípios são iguais, cada um deles tendo sempre existido e sendo incriados. Esta igualdade implícita não fornecia nenhuma base para a crença de que, em última instância, o Bem triunfaria sobre o Mal; na verdade, a sua mútua oposição era habitualmente descrita como eterna. Durante o período sassaniano (AD 208-651), parece que foi feita uma tentativa de resolver o problema metafísico nesta forma de Zoroastrianismo ortodoxo, representando Ohrmazd e Ahriman como sendo derivados de Zurvān e Ahriman, e assim justificasse a sua eliminação final. Infelizmente, a verdadeira natureza deste Zurvanismo é fundamentalmente obscura, devido ao caráter insatisfatório da documentação existente. O que parece razoavelmente certo, de acordo com Eudemus de Rodes, um discípulo de Aristóteles, é que os persas eram conhecidos por ter “um deus bom e um deus demônio” do Espaço (Topos) e Tempo (Chronos). Num Rivâyat persa tardio, é categoricamente afirmado: “com excepção de Tempo, todas as outras coisas foram criadas …. Então, [Tempo] criou fogo e água, e, quando eles tinham se misturado, Ohrmazd surgiu. O tempo é tanto o Criador quanto o Senhor da criação que criou “(Spiegel, pp. 161ff.).

Parece, portanto, que houve uma tradição no Irã de divindade criadora ambivalente chamada Zurvān, e que esta foi utilizada na época sassaniana por alguns pensadores que estavam insatisfeitos com a base metafísica ortodoxa do Zoroastrianismo. Uma reação ortodoxa a esta heresia teve expressão no Bundahishn, em que Ohrmazd é identificado com o Tempo: “Assim, é revelado na Boa Religião. Ohrmazd estava no ápice de sua onisciência e bondade; pois Tempo Infinito ele sempre foi na Luz “(XV, 1ff.).

Há evidências de que os persas concebiam duas formas de Tempo: Zurvān akarana ( “Infinito Tempo”), e Zurvān dareghō-chvadhāta ( “Tempo de Longo Reinado”). Com o primeiro,  Ohrmazd foi identificado como Infinito Tempo. Zurvān dareghō-chvadhāta significava o aspecto destrutivo do Tempo, que traz decadência, velhice e morte para todos os seres vivos. Esta forma de tempo era associada a Ahriman, e essa concepção foi depois incorporada ao Mitraísmo, no qual ela teve surpreendente expressão iconográfica. Muitos santuários mitraístas tinham imagens de um ser monstruoso, com um corpo humano, asas, e uma cabeça de leão. Ao redor do corpo do monstro estava uma grande serpente entrelaçada, e sobre seu corpo nu, os signos do zodíaco estavam representados; o monstro está sobre uma esfera e possui um longo cajado e chaves. A imagem e os seus símbolos foram evidentemente concebidos para representar o Tempo que rege e destrói tudo. Sua presença nos santuários mitraístas como uma imagem de Ahriman provavelmente indica que a soberania temporal de Ahriman neste mundo era reconhecida em teologia mitraísta.

A influência da concepção iraniana dualista de divindade foi muito considerável. Ela pode ser rastreada no Gnosticismo e no Maniqueísmo, no Judaísmo e nas crenças das seitas de Qumrân, e também no Cristianismo. Esta influência foi indubitável devido ao fato de ter contribuído para explicar a origem e a natureza do mal, o que constitui um problema básico para todas as religiões monoteístas. Verificou-se que o dualismo iraniano não era uma interpretação dualista da realidade logicamente absoluta; ela aguardava a vitória final de Ohrmazd sobre sobre Ahriman. Neste sentido, ela era uma ética escatológica; porque conclamava a humanidade para se alinhar ao lado do Bem (Ohrmazd) contra o Mal (Ahriman), porque Ahriman seria exterminado. Em outras palavras, a concepção iraniana de Deus, que aparenta, na sua forma original, ter refletido a ambivalência do ser humano da experiência de realidade, tornou-se, na forma dada por Zoroastro, uma expressão da esperança de que o que ele identificou como o princípio do Bem acabaria por prevalecer sobre o que ele avaliou como Mal. A Weltanschauungen [visão de mundo] dualista dessas outras religiões e seitas influenciadas pelo Zoroastrianismo também foram inspiradas por um otimismo semelhante.

A concepção de divindade grega compreende duas tradições diferentes: a religiosa e a filosófica. Embora a concepção filosófica naturalmente concentre a atenção de historiadores do pensamento, porque a filosofia grega tem sido há muito considerada um dos maiores produtos da cultura grega, foi a ideia de divindade implícita na fé religiosa e na prática que realmente refletia as perspectivas do povo grego. Concepções filosóficas sobre o divino, como Platão e Aristóteles expuseram, estavam destinadas a ter uma grande influência sobre a teologia medieval cristã e muçulmana, mas tiveram pouco efeito sobre vida e o pensamento contemporâneo grego; na verdade, a maioria dos filósofos agiam conforme as prescrições e os costumes da religião tradicional.

A concepção grega de divindade, no início, encontra expressão na Ilíada e na Odisséia de Homero, e uma vez que estas epopéias gozavam de um lugar privilegiado no sistema grego de educação, a visão homérica tornou-se a base de toda avaliação. De acordo com ele, o universo era regido por uma hierarquia de deuses, presidido por Zeus. O maioria desses deuses era provavelmente de origem indo-europeia, sendo semelhantes àqueles dos invasores arianos da Índia e do Irã. Eles foram levados para a Grécia pelas tribos helênicas que conquistaram os povos egeus que viviam ali, e cuja religião parece ter sido baseada no culto da Grande Deusa. A religião que encontra expressão na literatura homérica provavelmente representa uma fusão das tradições indo-europeias e egeias, mas com a antiga ainda predominando, porque Zeus é essencialmente um Deus celeste ariano.

Segundo Homero, a essência da divindade é o poder sobrenatural, geralmente associado aos mais violentos e mortíferos aspectos dos fenômenos cósmicos: Zeus detém relâmpagos e trovões; Poseidon está associado ao mar e terremotos; as flechas de Apolo são equiparadas à pestilência. Mas trata-se de um poder controlado; um governo divino que faz do universo um cosmos, não um caos. Este aspecto encontra uma expressão gráfica nos poemas homéricos em termos antropomórficos, porque os gregos instintivamente concebiam seus deuses como “grandes homens gregos”.

Um exemplo muito significativo ocorre no capítulo XVI da Ilíada [pp. 431-61] que descreve a reação de Zeus a um incidente na luta entre os gregos e os troianos. Pátroclo, um herói grego, está fadado a matar Sarpedon, um homem que era filho de Zeus, um entre muitos de seus vários casos com mulheres mortais. Homero descreve Zeus como fervorosamente desejoso de salvar o filho. Ele comunica a sua intenção à deusa Hera, que, em resposta, adverte-o que, se ele interferisse com o que estava fadado a acontecer, os outros deuses iriam seguir o seu exemplo. Zeus tristemente reconhece a verdade sobre o que ela diz, e permite que Sarpedon siga seu destino. O episódio revela que os gregos acreditavam que havia uma boa ordem (Moira) das coisas que mantinha o equilíbrio de forças no universo. Zeus era a encarnação dessa ordem, assim como o Deus-Sol egípcio tinha Maat e o persa Ahura Mazda tinha Arta. Zeus é onipotente, mas se ele agisse ὑπὲρ μόπον (ou seja, “além do que está fadado a fazer”) iria perturbar a ordem do universo e induzir outros deuses (sendo eles também deificações de poder), os quais ele próprio governava, a agir nos mesmos moldes, então o caos substituiria o cosmos. A mitologia grega era muito consciente das forças do caos no universo, o qual era personificado sob a imagem dos Gigantes e dos Titãs, a quem os Deuses Olímpicos tinham outrora subjugado após uma verdadeira luta titânica.

Nos poemas homéricos, Zeus é descrito como “o pai dos deuses e dos homens.” Este título não significava que ele era considerado o Criador do universo, é apenas conotada sua supremacia soberana. Nestes poemas, o padrão clássico da estimativa grega da situação do ser humano em relação aos Deuses inicialmente emerge. Os Deuses, e principalmente Zeus, são representados como inconstantes em suas relações com os homens. Sem dúvida, esta apresentação derivava do fato de que a concepção grega de divindade tinha sido inspirada pela experiência das forças operantes do mundo natural. A harmonia geral de fenômenos cósmicos sugeria um governo ordenado e divino, mas a variedade irracional do destino humano indicava caprichos divinos. Na Ilíada [capítulo XXIV, pp. 527-33], esta impressão é exemplificada por uma imagética bem vívida: Zeus é retratado como arbitrariamente dando destinos bons e ruins para a humanidade a partir de duas urnas fixadas no chão do Olimpo. Geralmente o fardo pessoal é uma combinação equilibrada de coisas boas e ruins, mas às vezes, sem causa aparente, é dado a um infeliz apenas o ruim.

A religião homérica não dava esperanças de que as desigualdades desta vida seriam divinamente ajustadas após a morte. Na Odisseia, a crença é graficamente apresentada de que a morte irremediavelmente esmigalhava a constituição psicofísica do indivíduo, e que só restava um espectro como réplica, sem consciência, que sobrevivia para descer às sombrias profundezas do Hades, que era governado por Hades e sua rainha Perséfone.

Exceto por algumas pequenas variações, a concepção homérica de divindade formou a tradição principal da teologia grega até a era da cultura greco-romana. Ela encontra expressão na poesia e no teatro, e negativamente na arte sepulcral, na qual as cenas tristes de despedida não fazem qualquer referência a Zeus e aos outros deuses. A iconografia religiosa, apesar de ter produzido obras soberbas de divindades na perfeição idealizada da forma humana, apenas retrata uma dignidade tranquila, longe das paixões humanas, e distante das aspirações e  receios dos mortais.

Foi no Estoicismo, que virou para muitos uma filosofia de vida, que foi feita uma tentativa de levar a visão tradicional de uma divindade num esquema cuidadosamente articulado que representasse racionalmente o universo e o lugar do homem nele. Como Cícero sucintamente definido a teologia estoicista: “Zeno e os Estoicos geralmente concebiam que Deus é Éter, dotado de uma Mente, pela qual o universo é governado” (J. von Arnim, Stoicorum Veterum Fragmenta, I, frag. 154). O homem não poderia, portanto, ter uma relação pessoal com Deus, mas ele era aconselhado a viver “de acordo com a Natureza”, que significa integrar-se ao processo cósmico e não aspirar a um destino fora desse processo. O Estoicos presumiam que o processo cósmico era racional, sendo a expressão da Divina Providência (πρόνοια). A dificuldade de manter esta crença, no entanto, contra a lógica da experiência, é significativamente refletida na Meditações de Marcus Aurelius, que nobremente tentou viver de acordo com os preceitos dos estoicos: “Ou todas as coisas provêm de uma única fonte racional, e se combinam em conjunto num todo coerente (ἑνὶ σωματι) … ou só existem átomos (ἄτομοι), uma massa sem forma e se desintegrando “(IX, 39). Marcus desejava que o primeiro fosse verdade, mas sua razão o advertia da igual probabilidade do último.

Que os deuses da Grécia clássica e os deuses romanos que foram posteriormente identificados com eles continuaram a ser adorados até paganismo ser suprimido pelo imperadores cristãos no século IV foi devido principalmente à sua importância política. Nas cidades-estado gregas e em Roma, os Deuses representavam o guardiões divinos da ordem social e da prosperidade, e esperava-se que todos os cidadãos participassem nos cultos públicos como prova de sua integridade e lealdade. O poder dessa fé politizada não deve ser subestimado: ela encontrou, significativamente, amarga expressão contra o Cristianismo em 410, quando Roma foi saqueada por Alaric, o Gótico, logo após a abolição dos antigos Deuses romanos em favor de Cristo.

O conceito de divindade nestes cultos de Estado não representava ou satisfazia as necessidades espirituais de muitas pessoas. Daí muitos se voltarem para as religiões de mistérios, que prometiam a sua salvação de seus iniciados, geralmente sob a forma de renascimento da morte. Os deuses desses cultos de mistério não eram deidades remotas e cósmicas; um mytho frequentemente narrava como eles tinham morrido e ressuscitado para a vida novamente. Osíris fornece o exemplo clássico, embora a forma original dos ritos associados a ele era de um  caráter funerário como descrito acima. Outros deuses de mistérios notáveis foram Átis, Adônis, Dionísio-Zagreus. O significado do cultos de mistério do mundo greco-romano nesse  contexto reside na atração de uma divindade, concebida como tendo sido objeto de sofrimento e de morte e, em seguida, tendo subido triunfantemente para uma nova vida eterna.

A concepção de divindade na filosofia grega, apesar das diversas terminologias e imagens usadas pelos diferentes pensadores, expressa um objetivo comum, a partir da época das primeiras especulações dos filósofos jônicos. Procurava-se definir uma fonte da existência em termos de atributos metafísicos para conotar a perfeição do ser. Assim, Platão viu a Deus como a essência ou ideia da Bom, eterno, imutável e impassível. Para Aristóteles, Deus era essencialmente o Motor Primário, Ele mesmo imóvel, que é a primeira e a última Causa de todas as coisas. De maior complexidade metafísica foi a concepção de Plotino (204-70 d.C.), o fundador do Neo-Platonismo. Ele distinguiu uma espécie da Trindade divina: o Uno, equiparado com Deus e com o Bem, era simultaneamente imanente e transcendente: “porquanto ele não está em nenhum lugar, não há lugar onde não esteja”, o Nous ( “Mente” ou “Espírito”), sendo a imagem do Uno, e a Alma , o descendente de Nous, que é o criador cósmico.

Na sociedade greco-romana, houve uma profunda preocupação com questões religiosas, e muitas tentativas foram feitas para remover as dificuldades da mitologia tradicional e acomodar as divindades das outras religiões. Por exemplo, Plutarco (cerca 46-120 d.C.) utilizou a ideia de daimones de Platão, como seres intermediários entre deuses e homens, para efetuar uma reconciliação entre politeísmo e monoteísmo e Sallustius (fl. AD 350) distingue entre Deuses mundanos e supramundanos. O sincretismo também virou moda; ele produziu o nobre reapresentação da deusa egípcia Ísis como a “senhora de todos os elementos”, “rainha dos mortos”, “o princípio de todos no céu”, “aquela que se manifesta isoladamente e é a forma única de todos os deuses e deusas “(Apuleius, Metamorphoseon, XI, 3ff.).

(Tradução feita por mim do texto The Idea of God from PreHistory to the Middle Ages do Dictionary of the History of Ideas)


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One Comment

  1. Rafael Pimenta
    2009/06/11 às 12:40:55

    Muito bom. Obrigado. Esperando ansioso a continuação…

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