Sonhos de Akira Kurosawa

sonhos

Para Freud, os sonhos expressam a realização de desejos inconscientes. Para Jung, os sonhos não apenas revelam desejos reprimidos, mas também são uma ferramenta da psiquê para buscar equilíbrio por meio de compensação. No entanto, consideradas as diferenças, os dois autores concordam num ponto: os sonhos são a estrada através da qual o conhecimento do inconsciente se torna possível.
Seja qual for a metodologia, nada seria mais proveitoso do que a pura entrega ao espetáculo do sonho, reino de imagens poéticas e sons cuja mensagem sempre se mostra misteriosa e cativante. Assim são os sonhos apresentados em Sonhos de
Akira Kurosawa. O filme, baseado em sonhos verdadeiros do diretor japonês, é constituído de oito sonhos independentes. A coesão dos vários sonhos é a experiência de seu personagem principal, desde a infância até a fase adulta e os desafios que cada fase encerra.

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No primeiro, “A Raposa”, uma criança é avisada pela mãe que não deveria ir à floresta quando há chuva e sol, pois é a época do acasalamento das raposas, que gostam de serem observadas. Mas ele desobedece os conselhos e observa as raposas, atrás de uma árvore. Ao retornar para casa sua mãe não o deixa entrar e lhe entrega um punhal, dizendo que como ele havia contrariado a raposa ele deveria se matar, mas ela sugere algo que pode remediar a situação. No segundo, “O Jardim dos Pessegueiros”, o irmão mais novo de uma família, ao servir chá para as irmãs, depara com uma moça que foge. Indo ao seu encalço, nota que ela é uma boneca e depara com os pessegueiros da sua casa totalmente cortados, restando só tocos. Os espíritos dos pessegueiros surgem para ele e, em uma dança melancólica, dizem que as bonecas são colocadas para enfeitar e festejar a florada dos pessegueiros, mas como eles não mais existem naquela casa não fazia sentido a presença das bonecas. No terceiro, “A Nevasca”, o líder de uma expedição, junto com seu grupo, se vê em meio a uma nevasca. Eles sucumbem a nevasca, mas repentinamente surge uma linda mulher que envolve o líder com uma echarpe prata. Ele percebe que ela é a morte, que se transforma em uma horrenda figura, então ele vê que está próximo do acampamento e tenta acordar os companheiros, mas não consegue. Ouve então uma corneta, indicando que o acampamento está mais próximo do que imagina. No quarto, “O Túnel”, ao entrar em um túnel o capitão de um exército é surpreendido por um cão, que ladra para ele. Atravessa então o túnel em curtos passos. Na saída ouve alguém caminhar e depara com um dos seus soldados morto em combate, que pensa não estar morto. No quinto conto, “Corvos”, um jovem pintor, ao observar as pinturas de Van Gogh, entra dentro dos quadros e se encontra com o pintor, que indaga por qual razão ele não está pintando se a paisagem é incrível, pois isto o motiva a pintar de forma frenética. No sexto , “Monte Fuji em Vermelho”, o Fuji entra em erupção ao mesmo tempo ocorre um incêndio em uma usina nuclear, provocado por falha humana. É desprendida no ar uma nuvem de radiação. Um homem relata ser um dos responsáveis pela tragédia e diz preferir a morte rápida de um afogamento à lenta provocada pela radiação. No sétimo, “O Demônio Chorão”, ao caminhar um viajante encontra um demônio, que lamenta ter sido um homem ganancioso e, como muitos, transformou a terra em um lastimável depósito de resíduos venenosos. No último, “Povoado dos Moinhos”, um viajante chega à um lugarejo conhecido por muitos como Povoado dos Moinhos. Lá não há energia elétrica e tampouco urbanização. Um idoso, ao ser indagado, relata que os inventos tornam as pessoas infelizes e que o importante para se ter uma boa vida é ser puro e ter água limpa.

Assista o filme assim que puder. Para ler mais sobre cada sonho em particular, clique aqui.

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A Metafísica Grega e a Cristã

Zeus

Embora a metafísica crist㣠seja uma reelaboração da metafísica grega, muitas das ideias gregas não poderiam ser aceitas pelo cristianismo. Vejamos alguns exemplos:

- para os gregos, o mundo (sensível e inteligível) é eterno; para os cristãos, o mundo foi criado por Deus a partir do nada e terminará no dia do Juí­zo Final.

- para os gregos, a divindade é uma força cósmica racional impessoal; para os cristãos, Deus é pessoal, é a unidade de três pessoas e por isso é dotado de intelecto e de vontade, como o homem, embora superior a este, porque o intelecto divino é onisciente (sabe tudo desde toda a eternidade) e a vontade divina é onipotente (pode tudo desde toda a eternidade);

- para os gregos, o homem é um ser natural, dotado de corpo e alma, esta possuindo uma parte superior e imortal que é o intelecto ou razão; para os cristãos, o homem é um ser misto, natural por seu corpo, mas sobrenatural por sua alma imortal;

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- para os gregos, a liberdade humana é uma forma de ação, isto é, a capacidade da razão para orientar e governar a vontade, a fim de que esta escolha o que é bom, justo e virtuoso; para os cristãos, o homem é livre porque sua vontade é uma capacidade para escolher tanto o bem quanto o mal, sendo mais poderosa do que a razão e, pelo pecado, destinada à perversidade e ao vício, de modo que a ação moral só será boa, justa e virtuosa se for guiada pela fé e pela Revelação;

- para os gregos, o conhecimento é uma atividade do intelecto (o êxtase mí­stico de que falavam os neoplatônicos não era algo misterioso ou irracional, mas a forma mais alta da intuição intelectual); para os cristãos, a razão humana é limitada e imperfeita, incapaz de, por si mesma e sozinha, alcançar a verdade, precisando ser socorrida e corrigida pela fé e pela Revelação.

Essas diferenças e muitas outras que não foram mencionadas aqui acarretaram muitas mudanças na metafí­sica herdada dos gregos.

(Trecho extraí­do do livro Convite à Filosofia de Marilena Chauí­)

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Deuses Africanos no Brasil Contemporâneo

candomble

Axé é força vital, energia, princípio da vida, força sagrada dos orixás. Axé é o nome que se dá às partes dos animais que contêm essas forças da natureza viva, que também estão nas folhas, sementes e nos frutos sagrados. Axé é bênção, cumprimento, votos de boa-sorte e sinônimo de Amém. Axé é poder. Axé é o conjunto material de objetos que representam os deuses quando estes são assentados, fixados nos seus altares particulares para ser cultuados. São as pedras e os ferros dos orixás, suas representações materiais, símbolos de uma sacralidade tangível e imediata. Axé é carisma, é sabedoria nas coisas-do-santo, é senioridade. Axé se tem, se usa, se gasta, se repõe, se acumula. Axé é origem, é a raiz que vem dos antepassados, é a comunidade do terreiro. Os grandes portadores de axé, que são as veneráveis mães e os veneráveis pais-de-santo, podem transmitir axé pela imposição das mãos; pela saliva, que com a palavra sai da boca; pelo suor do rosto, que os velhos orixás em transe limpam de sua testa com as mãos e, carinhosamente, esfregam nas faces dos filhos prediletos. Axé se ganha e se perde. (Extraído de Reginaldo Prandi, Os candomblés de São Paulo.)

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Por volta de 1950, a umbanda já tinha se consolidado como religião abertas a todos, não importando as distinções de raça, origem social, étnica e geográfica. Por ter a umbanda desenvolvido sua própria visão de mundo, bricolage européia-africana-indígena, símbolo das próprias origens brasileiras, ela pode se apresentar como fonte de transcendência capaz de substituir o velho catolicismo ou então juntar-se a ele como veículo de renovação do sentido religioso da vida. Depois de ver consolidados os seus mais centrais aspectos, ainda no Rio de Janeiro e São Paulo, a umbanda espalhou-se por todo o País, podendo ser também agora encontrada vicejando na Argentina, no Uruguai e outros Países latino-americanos, além de Portugal (Oro, 1993; Frigerio & Carozzi, 1993; Pi Hugarte, 1993; Prandi, 1991c; Pollak-Eltz, 1993; Pordeus, 1995).

Durante os anos 1960, alguma coisa surpreendente começou a acontecer. Com a larga migração do Nordeste em busca das grandes cidades industrializadas no Sudeste, o candomblé começou a penetrar o bem estabelecido território da umbanda, e velhos umbandistas começaram e se iniciar no candomblé, muitos deles abandonando os ritos da umbanda para se estabelecer como pais e mães-de-santo das modalidades mais tradicionais de culto aos orixás. Neste movimento, a umbanda é remetida de novo ao candomblé, sua velha e “verdadeira” raiz original, considerada pelos novos seguidores como sendo mais misteriosa, mais forte, mais poderosa que sua moderna e embranquecida descendente.

Nesse período da história brasileira, as velhas tradições até então preservadas na Bahia e outros pontos do País encontraram excelentes condições econômicas para se reproduzirem e se multiplicarem mais ao sul; o alto custo dos ritos deixou de ser um constrangimento que as pudesse conter. E mais, nesse período, importantes movimentos de classe média buscavam por aquilo que poderia ser tomado como as raízes originais da cultura brasileira. Intelectuais, poetas, estudantes, escritores e artistas participaram desta empreitada, que tantas vezes foi bater à porta das velhas casas de candomblé da Bahia. Ir a Salvador para se ter o destino lido nos búzios pelas mães-de-santo tornou-se um must para muitos, uma necessidade que preenchia o vazio aberto por um estilo de vida moderno e secularizado tão enfaticamente constituído com as mudanças sociais que demarcavam o jeito de viver nas cidades industrializadas do Sudeste, estilo de vida já, quem sabe?, eivado de tantas desilusões.


O candomblé encontrou condições sociais, econômicas e culturais muito favoráveis para o seu renascimento num novo território, em que a presença de instituições de origem negra até então pouco contavam. Nos novos terreiros de orixás que foram se criando então, entretanto, podiam ser encontrados pobres de todas as origens étnicas e raciais. Eles se interessaram pelo candomblé. E os terreiros cresceram às centenas.

O termo candomblé designe vários ritos com diferentes ênfases culturais, aos quais os seguidores dão o nome de “nações” (Lima, 1984). Basicamente, as culturas africanas que foram as principais fontes culturais para as atuais “nações” de candomblé vieram da área cultural banto (onde hoje estão os países da Angola, Congo, Gabão, Zaire e Moçambique) e da região sudanesa do Golfo da Guiné, que contribuiu com os iorubás e os ewê-fons, circunscritos aos atuais território da Nigéria e Benin. Mas estas origens na verdade se interpenetram tanto no Brasil como na origem africana.

Na chamada “nação” queto, na Bahia, predominam os orixás e ritos de iniciação de origem iorubá. Quando se fala em candomblé, geralmente a referência é o candomblé queto e seus antigos terreiros são os mais conhecidos: a Casa Branca do Engenho Velho, o candomblé do Alaketo, o Axé Opô Afonjá e o Gantois. As mães-de-santo de maior prestígio e de visibilidade que ultrapassou de muitos as portas dos candomblé têm sido destas casas, como Pulquéria e Menininha, ambas do Gantois, Olga, do Alaketo, e Aninha, Senhora e Stella, do Opô Afonjá. O candomblé queto tem tido grande influência sobre outras “nações”, que têm incorporado muitas de suas prática rituais. Sua língua ritual deriva do iorubá, mas o significado das palavras em grande parte se perdeu através do tempo, sendo hoje muito difícil traduzir os versos das cantigas sagradas e impossível manter conversação na língua do candomblé. Além do queto, as seguintes “nações” também são do tronco iorubá (ou nagô, como os povos iorubanos são também denominados): efã e ijexá na Bahia, nagô ou eba em Pernambuco, oió-ijexá ou batuque de nação no Rio Grande do Sul, mina-nagô no Maranhão, e a quase extinta “nação” xambá de Alagoas e Pernambuco.

A “nação” angola, de origem banto, adotou o panteão dos orixás iorubás (embora os chame pelos nomes de seus esquecidos inquices, divindades bantos — ver Anexo), assim como incorporou muitas das práticas iniciáticas da nação queto. Sua linguagem ritual, também intraduzível, originou-se predominantemente das línguas quimbundo e quicongo. Nesta “nação”, tem fundamental importância o culto dos caboclos, que são espíritos de índios, considerados pelos antigos africanos como sendo os verdadeiros ancestrais brasileiros, portanto os que são dignos de culto no novo território a que foram confinados pela escravidão. O candomblé de caboclo é uma modalidade do angola centrado no culto exclusivo dos antepassados indígenas (Santos, 1992; M. Ferretti, 1994). Foram provavelmente o candomblé angola e o de caboclo que deram origem à umbanda. Há outras nações menores de origem banto, como a congo e a cambinda, hoje quase inteiramente absorvidas pela nação angola.

A nação jeje-mahin, do estado da Bahia, e a jeje-mina, do Maranhão, derivaram suas tradições e língua ritual do ewê-fon, ou jejes, como já eram chamados pelos nagôs, e suas entidades centrais são os voduns. As tradições rituais jejes foram muito importantes na formação dos candomblés com predominância iorubá.

Leia o texto acima na íntegra aqui.

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O Casamento Cristão

2007-05-15 / Mitologia / 2 Comments

casamento

Em 392, o cristianismo foi proclamado religião oficial. Entre 965 e 1008 eram batizados os reis da Dinamarca, Polônia, Hungria, Rússia, Noruega e Suécia.

Desses dois fatos resultou o formato do casamento, em princípios do ano 1000, com uma face totalmente nova. Durante o Sacro Império Romano Germânico – que sucedeu ao desaparecido Império Romano -, dirigido por Oto III de 998 a 1002, houve uma fabulosa transformação das sociedades urbanas romanas e das sociedades rurais germânicas e eslavas. As uniões entre homens e mulheres eram, então, o resultado complexo de renitências pagãs, de interesses políticos e de uma poderosa evangelização.

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“Amor: desejo que tudo tenta monopolizar; caridade: terna unidade; ódio: desprezo pelas vaidades deste mundo.” Esse breve exercício escolar, escrito no dorso de um manuscrito do início do século XI, exprime bem o conflito entre as concepções pagã e cristã do casamento. Para os pagãos, fossem eles germânicos, eslavos ou ainda mais recentemente vikings instalados na Normandia desde 911, o amor era visto como subversivo, como destruidor da sociedade. Para os cristãos, como o bispo e escritor Jonas de Orléans, o termo caridade exprimia, com o qualificativo “conjugal”, um amor privilegiado e de ternura no interior da célula conjugal. Esse otimismo aparecia em determinados decretos pontificais, por meio de termos como afeto marital (maritalis affectio) ou amor conjugal (dilectio conjugalis). Evidentemente, o ideal cristão era abrir mão dos bens deste mundo desprezando-os, o que constituía um convite ao celibato convencional.

A Europa pagã, mal batizada no ano 1000, apresentava portanto uma concepção do casamento totalmente contrária à dos cristãos. O exemplo da Normandia é ainda mais revelador, por ser muito semelhante ao da Suécia ou da Boêmia. Os vikings praticavam um casamento poligâmico, com uma esposa de primeiro escalão que tinha todos os direitos, e com esposas ou concubinas de segundo escalão, cujos filhos não tinham nenhum direito, a menos que a oficial fosse estéril, ou tivesse sido repudiada. As cerimônias de noivado organizavam a transmissão de bens, mas não havia casamento verdadeiro a não ser que tivesse havido união carnal. Na manhã da noite de núpcias, o esposo oferecia à mulher um conjunto muitas vezes bastante significativo de bens móveis. Ele era chamado de presente matinal (Morgengabe), que os juristas romanos batizaram de dote. Portanto, o papel da esposa oficial era bem importante, sobretudo se ela tivesse muitos filhos, já que o objetivo principal era a procriação.

Essas uniões eram essencialmente políticas e sociais, decididas pelos pais. Tratava-se de constituir unidades familiares amplas, no interior das quais reinasse a paz. Por isso, as concubinas de segundo escalão eram chamadas de Friedlehen ou Frilla, ou seja, “cauções de paz”. Na verdade, elas vinham de famílias hostis de longa data. A partir do momento em que o sangue de ambas as famílias se misturava, a guerra já não era mais possível. Assim, as mães escolhiam as esposas dos filhos, ou os maridos, das filhas, sempre nos mesmos grupos clássicos, a fim de salvaguardar essa paz. Se uma esposa morresse, o viúvo se casaria com a irmã dela. Dessa forma, pouco a pouco as grandes famílias tornavam-se cada vez mais chegadas por laços de sangue (consangüinidade), pela aliança (afinidade) e, finalmente, completamente incestuosas. Acrescentemos a esse quadro as ligações entre os homens, a adoção pelas armas, o juramento de fidelidade e outras ligações feudais que triunfaram no século X como um verdadeiro “parentesco suplementar”, segundo a expressão de Marc Bloch, e teremos a prova de que esses casamentos pagãos não deixavam nenhum espaço livre para o sentimento.


Amor subversivo
Assim, quando o amor se manifestava, ele só podia ser adúltero, ou assumir a forma de um estupro, maneira de tornar o casamento irreversível, ou de um rapto mais ou menos combinado entre o raptor e a “raptada”, a fim de ludibriar a vontade dos pais. Nesses casos o amor era efetivamente subversivo, uma vez que destruía a ordem estabelecida. Ele se tornava sinônimo de morte e de ruína política, como prova o romance, de fundo histórico verdadeiro, Tristão e Isolda, transmitido oralmente pelo mundo europeu de então – celta, franco e germânico. Tristão, sobrinho do rei e seu vassalo, cometeu ao mesmo tempo incesto, adultério e traição para com o rei Marco, o marido de Isolda. Aliás, ele mesmo diz, após seu primeiro encontro: “Que venha a morte”. Nas sociedades antigas, obcecadas pela sobrevida, a vontade de potência, de poder, era mais importante do que a vontade de prazer, pois aquelas tribos de imensas famílias não conheciam nenhuma limitação administrativa ou externa.
Esse quadro deve ter sido abrandado pelo fato de eles terem estado em contato com países cristãos, ou povos de regiões mergulhadas no cristianismo, como por exemplo os normandos batizados do século X. Em decorrência, duas estruturas coexistiam, mais ou menos confundidas. Por volta do ano 1000, o bispo da Islândia teve muita dificuldade para separar um chefe de tribo, já casado, de sua concubina, especialmente porque ela era sua própria irmã – fato que sustentava a opinião de que seu irmão, o bispo, não passava de um tirano. Nos séculos X e XI, os duques da Normandia tinham dois tipos de união, regularmente: uma esposa oficial, franca e batizada, e uma ou várias concubinas.

Leia o artigo original aqui.

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Evangelhos Apócrifos do Novo Testamento

2007-05-07 / Mitologia, Religião / 2 Comments

manuscrito02

Especialistas juntam fragmentos de Bíblia de 1.600 anos de idade
Partes do Codex Sinaiticus, de 1.600 anos de idade, e que inclui o primeiro Novo Testamento completo do mundo, estão espalhadas entre Leipzig, Londres e São Petersburgo. Agora os pesquisadores querem digitalizar os fragmentos e publicar o volume inteiro na Internet

Em 1844, Constantin von Tischendorf, um pesquisador da cidade alemã de Leipzig, viajou de camelo até o Cairo passando pelo Deserto do Sinai.
Durante a árdua jornada de 13 dias ele viu “pegadas frescas de tigre” e enfrentou tempestades de areia. Tischendorf ficou debilitado devido à água estagnada “que afeta a parte inferior do abdômen”, foi picado por formigas e mosquitos e, em determinada ocasião, a sua tenda foi simplesmente levada pelo vento.

Em maio daquele ano, a sua caravana chegou a uma serra escarpada de montanhas de granito onde Deus – segundo o Êxodo – apareceu para Moisés na forma de um arbusto incandescente. O lugar estava marcado por uma fortaleza espiritual sombreada por ciprestes, romãzeiras e oliveiras: o Monastério de Santa Catarina, construído no ano 550 da nossa era. Um homem usando um robe da Igreja Ortodoxa Grega surgiu na porta alta do monastério e içou o hóspede com uma corda.

Pouco tempo depois, o aventureiro alemão escreveu que uma “jóia de valor totalmente incalculável” caiu em suas mãos. Quando ele puxou uma pilha de páginas soltas de um cesto de lixo que continha peças danificadas de um pergaminho, o seu coração quase parou.

A descoberta no sopé do Monte Sinai está entre as grandes sensações da história científica – e é considerada tão importante quanto a descoberta de Tróia por Heinrich Schliemann e a escavação da tumba de Tutancamon por Howard Carter. Após um total de três viagens ao Egito o professor da Saxônia recuperou 400 páginas de uma Bíblia em péssimo estado, incluindo cerca de um terço do Velho Testamento e a versão completa mais antiga do Novo Testamento. O mundo acadêmico definiu a descoberta simplesmente como a “Número Um”.

O livro, confeccionado com peles de animais, custou a vida de mais de 350 vacas. Ele foi escrito com tinta preta e marrom feita de bolotas esmagadas de árvores e fuligem. Os títulos dos salmos e do Cântico dos Cânticos estão em vermelho, e são “da maior elegância”, para usar as palavras de Tischendorf.

Uma história de grande aventura gira em torno do Codex Sinaiticus. Foi concedida a Tischendorf uma audiência com o papa. O tsar da Rússia lhe ofereceu dinheiro à vontade e financiou a sua missão final. Porém, apesar da fama, uma sombra paira sobre este homem, que alguns insistem em dizer que foi um ladrão.

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Livro fragmentado, reputação abalada

Atualmente partes da antiga Bíblia estão espalhadas pelo mundo. Na cidade de Leipzig, no leste da Alemanha, encontram-se 43 páginas. Quando Tischendorf era vivo, 347 páginas foram parar na Rússia, mas mais tarde Joseph Stalin as vendeu ao governo britânico pelo preço recorde de 100 mil libras esterlinas. Cinco páginas estão guardadas na Biblioteca Russa Nacional em São Petersburgo. Outras 12 permanecem no Egito, no Monastério de Santa Catarina, que ainda abriga a mais antiga comunidade intacta de monges cristãos. Membros dessa comunidade celebram a missa matinal sem interrupção há quase 1.500 anos.

Desde a sua descoberta, ninguém viu o livro como uma peça única. Mas é provável que agora tal situação mude. Teólogos e estudiosos de escritos antigos juntaram forças em um projeto de grande escala para finalmente montar um Codex Sinaiticus completo na Internet. Cada página será novamente examinada, transcrita e digitalizada. A Fundação Alemã de Pesquisa (DFG) contribuiu com 200 mil euros para a iniciativa.

No entanto, a opinião sobre Tischendorf é tão nebulosa e surpreendente como as próprias páginas antigas. Christfried Böttrich, especialista no Novo Testamento da Universidade de Greifswald, na Alemanha, alega que “Tischendorf foi um homem sem máculas e que está acima de qualquer censura”.

Mas os monges do Mosteiro de Santa Catarina têm uma imagem menos benigna do pesquisador alemão. Para eles Tischendorf roubou o manuscrito. “O Codex Sinaiticus foi roubado”, foi o título de uma matéria publicada em 2000 no “Sunday Times” sobre uma conferência organizada por um comitê parlamentar britânico criado para investigar a questão de artefatos roubados. O príncipe Charles, que é presidente da Fundação Santa Catarina, teria exigido que os manuscritos fossem devolvidos ao Egito.

Ninguém nega que Tischendorf foi um mestre na sua área. Em 1840, quando era um jovem médico, ele descobriu a chave para a tradução de uma Bíblia do século cinco, em Paris, que era considerada indecifrável. O mundo acadêmico ficou estupefato. Mas reservadamente vários acadêmicos consideravam Tischendorf um sabichão que tinha conhecimento sobre várias disciplinas.

Ele fez mais inimigos com o seu campo de trabalho. À época os britânicos estavam realizando entusiasmadamente pesquisas na Terra Santa em busca de velhos manuscritos e registros antigos relacionados ao Messias. Mas durante a sua primeira expedição, em 1844, Tischendorf viajou sozinho até antigas igrejas cópticas no deserto líbio, procurando – e trazendo para casa – páginas frágeis de manuscritos.

Tischendorf era uma figura bem vestida, quase burguesa. Ele usava gorro e acreditava que a sua missão era sagrada (“Vou em nome do Senhor”). Na sua segunda viagem, em 1844, ele foi ao Monte Sinai e descobriu um total de 129 páginas em um cesto de lixo na biblioteca do Monastério de Santa Catarina. O abade deixou que ele ficasse com 43 páginas, e o jovem voltou à Alemanha, onde foi recebido como um herói.

Mas ele não conseguiu deixar de pensar nas cerca de 86 páginas que deixou para trás.

Porfiri Uspenski, um clérigo russo barbudo e acadêmico famoso, estava viajando ao Egito na época. Uspenski trabalhava para o órgão que controla a Igreja Ortodoxa Russa, o Sínodo Sagrado. Ele visitou duas vezes o monastério do Monte Sinai, em 1845 e em 1850, e os monges lhe deram cinco páginas do Codex, que atualmente estão em São Petersburgo.

Em 1853 Tischendorf fez as malas e viajou de volta ao monastério. Essa viagem foi desapontadora. Ele só foi capaz de achar um pequeno fragmento do manuscrito – que era usado pelos monges como marcador de livro. O resto havia desaparecido. No entanto, seis anos depois, ele retornou em grande estilo, patrocinado pelo tsar da Rússia, e foi capaz de distribuir propinas “como um príncipe russo”, de acordo com as suas palavras.

Essa missão quase resultou em fracasso. Não parecia haver qualquer sinal do Codex. Tischendorf já havia reservado os camelos para o percurso de volta quando o abade convidou o hóspede a vir até a sua sala para um último drinque. O monge tirou um punhado de papéis de um pano vermelho e mostrou a Tischendorf não só as páginas que este havia deixado para trás, mas outras 260 peças do manuscrito.

Tischendorf ficou pasmado. À luz pálida do luar, ele folheou a cópia mais antiga de Jeremias, do Apocalipse e das Epístolas. “Meus olhos estavam cheios de lágrima e eu fiquei mais feliz do que em qualquer outra ocasião na minha vida”, escreveu o pesquisador. Tischendorf foi até o abade e lhe ofereceu 10 mil thalers, mas o clérigo recusou-se a vender o documento.

No entanto, ele permitiu que o professor pegasse emprestado o manuscrito quase completo, de forma que este pudesse ser reproduzido e impresso na Europa. O abade pediu um recibo e fez com que o alemão prometesse entregar as páginas de volta o mais rapidamente possível. Mas Tischendorf teve uma outra idéia: Não seria maravilhoso, disse ele, presentear o tsar com os documentos manuscritos para comemorar o aniversário de 1.000 anos da monarquia russa? Ele garantiu ao abade que isso traria ao mosteiro fama, boa fortuna e dinheiro. Os monges teriam concordado.

“Infelizmente esse plano para o presente não foi adiante”, afirma Böttrich, o especialista no Novo Testamento. Pessoas descontentes na corte de São Petersburgo foram contra a idéia, e dez anos depois as páginas ainda estavam no Ministério das Relações Exteriores da Rússia. O arcebispo do Sinai, que era o responsável pelo monastério, só assinou um acordo entre os monges e a corte russa em 18 de novembro de 1869. A irmandade recebeu 9.000 rublos em ouro em troca – e aparentemente eles também queriam um navio a vapor.

Vários detalhes em torno do acordo ainda não foram inteiramente explicados. A nota de presente desapareceu, e os registros relativos à transferência do Codex estão atualmente nos arquivos do Estado russo, onde Natalya Smelova, integrante do projeto da Internet, os está analisando.

O Codex, praticamente completo

O projeto segue a todo vapor em Leipzig. Usando luvas de tecido branco, o conservador Ute Feller remove as páginas uma a uma de uma caixa de depósito que fica no porão. Inspetores munidos de lupas organizam arduamente uma lista de dobras e manchas. Cada abrasão, nota de margem e rasgão no manuscrito é anotado.

Enquanto isso, especialistas na Biblioteca Britânica, em Londres, estão usando instrumentos científicos para examinar o Codex da mesma forma que patologistas inspecionam um cadáver misterioso. Eles pretendem usar análise multiespectral para revelar traços escondidos de tinta, e buracos nas páginas podem responder a outras questões: quando esse magnífico trabalho se fragmentou? Como era a sua capa?

Até mesmo os reclusos monges do Sinai estão envolvidos nesse esforço gigantesco. Durante uma obra de construção na abadia, em 1975, surgiu uma sala cheia de detritos na qual foram encontradas partes adicionais do Codex Sinaiticus. Esse material foi mantido sob rigorosa proteção e não podia ser examinado por acadêmicos – até agora.

Toda a pesquisa – que também envolve especialistas norte-americanos e russos – lançou luz sobre aquilo que muitos consideram um dos primeiros livros do mundo. Ele foi criado entre os anos 330 e 350 da era cristã. Os escribas teriam se sentado a pequenas mesas, munidos de frascos de tinta e de lápis, rabiscando linhas de letras maiúsculas gregas sobre as peles claras de animais. O “Escriba A” foi o mais original. Ele escreveu com letras floreadas, mas foi negligente, esquecendo-se de quatro páginas do Evangelho de São Lucas. Ele simplesmente eliminou a famosa definição de amor na Primeira Epístola de São Paulo aos Coríntios. Teria isso sido intencional? O “Escriba D” percebeu os erros e acrescentou o texto que estava faltando na margem.

Mas quem teria encomendado o trabalho? Vários pesquisadores acreditam que a ordem veio diretamente de Constantino, o primeiro imperador romano cristão. No ano 313 ele suspendeu todas as sanções estatais contra aquela religião que à época era perseguida como um “culto judeu”. Ele ordenou a construção de diversas igrejas, e tinha 50 Bíblias magníficas feitas para disseminar pelo Império Romano a religião pouca conhecida baseada no amor fraternal. O Codex pode ter sido escrito durante esse período.

A seção do Novo Testamento do Codex prova como ele é antigo. Ela inclui não apenas o texto usual, mas também dois capítulos apócrifos, que mais tarde foram removidos pelos fundadores da igreja. A Epístola de Barnabás foi escrita por um aluno dos apóstolos, e o Pastor de Hermas consiste de cinco visões do apocalipse escritas no início do século dois.

Os pesquisadores pretendem apresentar os seus resultados ao mundo até 2010 usando um website. Centenas de milhares de palavras terão que ser traduzidas e digitalizadas até lá. O trabalho é lento, e alguns monges do Monte Sinai ainda ficam furiosos ao ouvir o nome Constantin von Tischendorf.

“Os especialistas passaram os últimos dois meses trabalhando em um pequeno relatório sobre a história inicial do manuscrito”, afirma uma pessoa que está envolvida no projeto. “O texto é de apenas uma página, mas eles simplesmente não conseguem concluí-lo”.

Ele explica o motivo para a demora: “Todo tipo de consenso desaparece todas as vezes que alguém decide como escrever algo a respeito da situação legal do manuscrito”.

Fonte: UOL

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Os Manuscritos do Mar Morto

Manuscritos

Manuscritos do Mar Morto ainda fascinam, 60 anos após a sua descoberta

Todas as vezes que os Manuscritos do Mar Morto são exibidos em qualquer parte do mundo, multidões de crentes postam-se em frente às vitrines climatizadas e observam maravilhados os antigos documentos.

À primeira vista, tal fascinação é irônica. Os fragmentos estão apagados – e alguns se tornaram totalmente pretos – devido à idade e aos efeitos dos aminoácidos das peles de animais nas quais os textos foram redigidos. A maioria se encontra ilegível.

Mesmo assim, os antigos pergaminhos, cuja descoberta fará 60 anos neste ano, não cessam de estimular a imaginação e proporcionam vislumbres importantes da vida da antiga Israel no alvorecer do cristianismo.

Acredita-se que os cerca de 930 documentos bíblicos e seculares tenham sido escritos por uma seita judaica dissidente entre 250 B.C. e 68 D.C.

Nos últimos anos, o mundo presenciou a pseudo-história altamente popularizada pela mídia, “O Código da Vinci”, a narrativa do “Evangelho Perdido de Judas” e a duvidosa alegação da descoberta da “tumba perdida” de Jesus.

Mas os especialistas consideram os Manuscritos do Mar Morto uma descoberta autêntica e sem paralelos. “Eles se constituem na descoberta arqueológica mais significativa do século 20″, afirma Adolfo Roitman, curador encarregado dos Manuscritos do Mar Morto no Museu de Israel, em Jerusalém.

A importância do pergaminho para os estudos religiosos e históricos não diminuiu com a passagem do tempo. Eles modificaram a forma como o mundo entendia a Bíblia.

“Eles são como ossos de dinossauros, tendo permanecido intocados por quase 2.000 anos e, apenas por acaso, através de um túnel no tempo, fomos capazes de chegar à antiguidade por meio desses pergaminhos, observando um fragmento de uma era importante para a formação da civilização ocidental”, diz Roitman.

À época da descoberta, os pergaminhos eram mil anos mais antigos do que qualquer outro texto bíblico. Eles contêm as mais antigas cópias conhecidas do Velho Testamento, ou Bíblia Hebraica. A maioria dos manuscritos é anterior ao mais antigo livro do Novo Testamento, seja a Primeira Epístola aos Tessalonicenses, seja a Epístola aos Gálatas, que foram redigidas por volta de 50 D.C.

A descrição, contida nos pergaminhos, de um grupo de judeus ascetas conhecidos como essênios, que foram tomados por idéias relativas ao Armagedon, e que viveram à época de Jesus, continua a fascinar e a gerar questões relativas ao judaísmo e à vida antiga na Terra Santa.

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Os textos abriram uma nova janela para o entendimento do sectarismo que tomou conta da antiga Israel durante a ocupação romana e da intensidade da oposição dos judeus a outras doutrinas religiosas presentes em Jerusalém.

Nos manuscritos não há referências diretas a Jesus ou aos seus ensinamentos. E os documentos não oferecem nenhuma evidência aos cristãos que imaginariam que as pessoas que redigiram os textos conheceram Jesus, ou que o próprio Jesus teria sido o autor dos manuscritos.

Não obstante, os pergaminhos foram escritos por contemporâneos de Jesus, e revelam as esperanças e os temores do povo para o qual ele pregava, assim como as características da era em que essas pessoas viveram.

“É um mundo repleto de anjos e demônios. Um mundo no qual Deus está em luta contra Satanás. Um universo no qual existe possessão demoníaca e a possibilidade de curas, como as que Jesus teria praticado. É um mundo muito interessante, no qual ouve-se falar sobre a chegada de vários ou de um só Messias”, afirma James H. Charlesworth, professor especializado no Novo Testamento, que leciona no Seminário Teológico de Princeton, em Nova Jersey.

Os primeiro pergaminhos foram descobertos em 1947 por um pastor beduíno que achou que poderia haver ouro escondido nas cavernas próximas a Qumran. Essas cavernas se espalham pelas escarpas amareladas que se erguem 400 metros acima do lago de menor altitude do mundo, o Mar Morto.

Em vez disso, o pastor, Jum’a Muhamed Khalil, ouviu o som de potes de barro se quebrando quando moveu uma pedra que bloqueava a estreita entrada da caverna.

Os quatro pergaminhos que Khalil e dois outros pastores encontraram nos jarros e levaram para um vendedor de antiguidades em Belém renderam ao beduíno US$ 64,80. Em 1957, os outros manuscritos foram descobertos durante uma corrida aos tesouros arqueológicos no estilo Indiana Jones.

Hoje em dia, a caverna na qual Khalil descobriu os primeiros Pergaminhos do Mar Morto não contam com nenhum sinal identificador e estão infestadas por morcegos, e tão desoladas como provavelmente costumavam ser para aqueles que a usaram como local de armazenagem há mais de 2.000 anos.

Com o auxílio de modernos instrumentos, como aparelhos de imagem digital e fotografia infravermelha, os manuscritos – redigidos em sua maioria em peles de bois ou de carneiros com uma tinta que era uma mistura de fuligem, goma, óleo e água – foram traduzidos, para não dizer decodificados.

O que é óbvio para os acadêmicos em relação aos manuscritos – e consternador para os literalistas bíblicos – é que Deus não entregou a Bíblia na sua forma atual aos homens.

Segundo os acadêmicos, o conteúdo e a estrutura da Bíblia evoluíram a partir de textos anteriores.

A Escritura Judaica e aquilo que os cristão chamam de Velho Testamento foram adaptados por editores a fim de se adequarem às necessidades sociais, políticas, pessoais e devocionais desses indivíduos e das suas comunidades.

Os criadores dos manuscritos fizeram eles próprios as Escrituras, de forma semelhante ao que os fiéis fazem hoje em dia, conscientemente ou não, adotando e enfatizando alguns textos, e ignorando ou descartando outros.

“A Bíblica Hebraica está longe de ter descido do Monte Sinais em tábuas de pedra, tendo sido o produto de um longo processo de edição”, afirma Timothy H. Lim, professor de Bíblia Hebraica e de Judaísmo do Segundo Templo na Universidade de Edimburgo, na Escócia.

Os pergaminhos continuam chamando atenção porque além dos cerca de 200 manuscritos bíblicos eles contém poemas e histórias sobre gigantes, anjos, horóscopos e calendários. Ele falam nebulosamente de “Filhos do Alvorecer”, de “Filhos da Luz”, do “Homem da Mentira”, do “Professor da Retidão” e de uma figura messiânica moribunda.

Esse estilo vago e floreado deu margem à especulações livres sobre a identidade dessas figuras e lançou os pesquisadores em direções bizarras.

Por exemplo, John Allegro escreveu um best-seller sobre os pergaminhos e mais tarde um outro livro intitulado “Os Cogumelos Sagrados e a Cruz”, no qual alega que o judaísmo e o cristianismo foram produtos de um culto antigo baseado em sexo e cogumelos.

Durante mais de 40 anos, o acesso aos pergaminhos se restringiu a um pequeno grupo de editores – todos cristãos – trabalhando sob a supervisão da Autoridade de Antiguidades de Israel. Isso fez com que surgissem acusações de que os manuscritos continham informações que minavam os princípios fundamentais do judaísmo e do cristianismo e que os acadêmicos procuravam ocultar a verdade.

Os acadêmicos judeus que estudaram os manuscritos foram acusados de tentarem fazer com que o cristianismo se parecesse mais com o judaísmo, enquanto os acadêmicos cristãos foram acusados de fazer com que o judaísmo lembrasse o cristianismo.

O reverendo Jerome Murphy-O’Connor, um padre católico e famoso estudioso da Bíblia em Jerusalém, afirma que parte do atual fascínio pelos pergaminhos está enraizado no mesmo fenômeno responsável pela aquisição de mais de 40 milhões de volumes de “O Código da Vinci”.

“A população está cada vez mais interessada na história ‘não oficial’ da Bíblia nesta era de ceticismo”, afirma ele. “As pessoas estão cada vez mais se sentindo extremamente abandonadas pelos políticos e líderes religiosos. Elas acreditam que são enganadas, manipuladas e ludibriadas”, explica Murphy-O’Connor.

“É por isso que a própria igreja é a responsável pelo sucesso de ‘O Código da Vinci’ – porque ela mantém tanta coisa em segredo e desapontou tanta gente no que diz respeito à questão da pedofilia”, critica o sacerdote.


Porém, enquanto “O Código da Vinci” não passa de especulação envernizada por uma camada tênue de fatos, os Manuscritos do Mar Morto são autênticos.

Mas os pergaminhos continuarão fornecendo matéria-prima para aqueles que os tratam como um teste Rorschach religioso, no qual eles só vêem aquilo que querem, a despeito do amplo consenso acadêmico pelo contrário.

O fascínio e as controvérsias em torno dos pergaminhos não dão mostras de diminuir.

Charlesworth, do Seminário Teológico de Princeton, acredita que a teologia judaica da época de Jesus pode ter se baseado bastante nas idéias do zoroastrismo, uma religião monoteísta pré-islâmica da antiga Pérsia.

A Autoridade de Antiguidades Israelenses divulgará no final deste ano um relatório rejeitando a teoria amplamente aceita de que a antiga cidade de Qumran e os seus habitantes essênios escreveram os manuscritos. O documento afirmará que os pergaminhos foram depositados nas cavernas por judeus que fugiam da perseguição romana, afirma Yuval Peleg, um dos autores do relatório.

Ainda mais impressionante é a conclusão do estudo do chamado “Pergaminho de Cobre” e a sua referência a conjuntos de tesouros enterrados nas montanhas da Judéia.

Murphy-O’Connor diz que ele e a editora de estudos, Emile Puech, concluíram que as referências feitas no pergaminho ao tesouro não são de forma nenhuma simbólicas.

Puech acredita que o tesouro é real, e eu também acredito nisso”, afirma Murphy-O’Connor.

*Craig Nelson é um jornalista freelance a serviço da Cox Newspapers

Tradução: UOL

Autor: Craig Nelson*
Em Kibbutz Kalia, Israel

Texto Original

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O Xintoísmo e seus Deuses

2007-04-02 / Mitologia, Religião / 1 Comment

A Deusa Amaterasu

Até o final da Segunda Guerra Mundial, o xintoísmo era a religião estatal no Japão. Até mesmo nos dias de hoje, os peregrinos ainda frequentam os 80 mil templos, orando pela realização dos seus sonhos pessoais. A religião, que não conta com textos sagrados, também venera as árvores, as montanhas e as pedras.

No princípio era o arco-íris. Segundo a narrativa xintoísta da criação, o casal divino – Izanagi e Izanami – sentou-se sobre o arco-íris e mexeu o oceano abaixo deles com uma lança ornada com pérolas. Quando eles retiraram a lança desta mistura primordial, gotas de água caíram sobre a Terra e criaram as ilhas do Japão.

O casal teve filhos, entre eles a deusa solar Amaterasu. De acordo com a lenda, a linhagem da família imperial japonesa pode ser traçada até essa deusa, fazendo do atual imperador do Japão, Akihito, um descendente direto da divindade. O seu pai, Hirohito (1901-1089), foi reverenciado como deus-imperador até o final da Segunda Guerra Mundial.

A gênese mítica do povo japonês vem sendo transmitida através das gerações em antigas narrativas, tendo sido preservada em papel pelos governantes do Japão do século oito quando o sistema chinês de escrita foi introduzido no país. Não obstante, o xintoísmo – que significa literalmente “o caminho dos deuses” – não conta com escrituras sagradas ou ensinamentos formais. Não existem os conceitos de pecado original ou salvação. O foco do xintoísmo é a vida na terra e a singularidade do povo japonês.

O Japão tem cerca de 80 mil templos xintoístas, incluindo o templo Hiraoka Hachimangu na antiga cidade imperial de Kyoto. A cada outono os seguidores comemoram o festival matsuri, em homenagem aos deuses. O nome é uma indicação do caráter oficial dos primeiros desses festivais – o termo japonês matsurigoto também denota assuntos governamentais. No passado, a classe política e o culto xintoísta japoneses estavam estreitamente entrelaçados, sendo que os anciões que chefiavam os clãs eram ao mesmo tempo sumo-sacerdotes a serviço das divindades.

O sacerdote Shusuke Sasaki (50) entra sozinho nos recônditos mais profundos do santuário. Na estrutura de madeira de cumeeira pontuda, os fiéis escutam o cântico monótono em japonês antigo, uma língua que atualmente pouquíssima gente entende. As entonações variam de um templo para outro. Mas, como as orações foram passadas de geração a geração, os monges falam exatamente como os seus ancestrais.

A compreensão dessas palavras não é algo crucial. No Japão os sacerdotes não pregam punições com fogo ou enxofre, e tampouco exigem que as congregações se arrependam por suas vidas de pecado. Os monges são simplesmente um meio para que se rogue benevolência aos deuses. Entre os deuses reverenciados – cada templo presta homenagem à sua própria divindade -, o monge Sasaki naturalmente inclui o tenno, o imperador. Mas ele também invoca os elementos naturais, tais como a camélia, que traz boa sorte. Assim como as religiões primitivas baseadas na natureza, o xintoísmo venera as árvores, os animais, as pedras e as montanhas – incluindo o Monte Fuji, o pico mais alto do Japão. O “caminho dos deuses” não conduz os japoneses para um mundo após a morte; em vez disso guia-os no decorrer das suas vidas na Terra. O objetivo é viver em harmonia com a natureza e limpar a alma com o auxílio da natureza. Por esse motivo, o ritual no templo Hiraoka Hachimangu lembra uma festa. O vinho sagrado de arroz flui e gargalhadas estrondosas ressoam. E ninguém se importa se o monge fumar entre uma cerimônia e outra.

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O principal festival tem início depois que o sacerdote deixa o santuário. Se o tempo estiver bom, uma liteira ornamentada com ouro, a residência da divindade, é carregada para fora do templo. Em termos simbólicos, a divindade está se misturando com o povo. Neste ano, choveu. Mas isso não foi por si uma tragédia. Foi apenas o que a natureza sempre teve em mente. Os percussionistas simplesmente fizeram ressoar os seus tambores taiko com mais entusiasmo, lançando um ruidoso convite aos espíritos do bem.

A seguir foi a vez dos torneios de sumô, um evento que sempre agrada as multidões. As origens xintoístas do sumô ainda são visíveis em Tóquio, onde a principal arena possui um telhado como o de um templo. No templo Hiraoka Hachimangu, em Kyoto, jovens semi-nus lutam no ringue; um círculo de areia consagrado. Mas estas justas não são de fato competitivas. Os lutadores estão executando uma dança para os deuses.

Os festivais como o de Hiraoka Hachimangu ocorrem em todo o Japão. Os japoneses têm matsuris para todas as estações e ocasiões. Os festivais modelam as suas rotinas e estados de espírito. Durante essas comemorações, o país altamente urbanizado e repleto de sofisticada tecnologia redescobre as suas raízes antigas. A segunda maior nação industrial do mundo de repente volta a ser um conjunto vasto de comunidades de vilas ancoradas nos templos xintoístas.

O xintoísmo também é único de outras formas. Quando lhes perguntam que religião professam, poucos japoneses se arriscam a afirmar que são exclusivamente xintoístas. Para a maioria deles, “o caminho dos deuses” é uma tradição, e não uma fé. Eles mantém essa tradição apaixonadamente, mas não sentem necessidade de transformá-la em uma religião. Os pais xintoístas levam os filhos a um templo e oram pela boa saúde das crianças: os filhos aos cinco anos, e as filhas aos três e aos sete.

E os mesmos japoneses que mantêm as tradições xintoístas tão fervorosamente são capazes de se casar em uma cerimônia cristã ou de enterrar os seus mortos de acordo com os rituais budistas. Como os japoneses professam várias religiões ao mesmo tempo, o número de fiéis supera a população total em termos estatísticos.

Esse pragmatismo histórico possui raízes históricas. Assim que o budismo migrou para o Japão, vindo da China e da Coréia no século seis, ambas as tradições coexistiam lado a lado. Pequenos santuários xintoístas ainda podem ser encontrados hoje em dia ao lado dos templos budistas. Durante certos períodos os governantes japoneses fizeram do budismo a religião estatal, especialmente no século seis, quando o Japão reorganizou o seu governo e a sua administração segundo o modelo chinês.

Além do budismo, a nação foi influenciada por uma outra religião chinesa, o confucionismo. Os xoguns, os líderes militares do Japão, baseavam o seu poder nos tradicionais valores confucianos da lealdade e da obediência. Eles chegaram ao poder em Edo, a atual Tóquio, no século 17. O imperador morava na remota cidade de Kyoto. O se papel se limitava a confirmar o novo líder.

Em meados do século 19, o Japão abriu-se para o Ocidente, e o xintoísmo foi transformado em um culto nacional. Durante a Restauração Meiji, de 1868, guerreiros defensores de reformas derrubaram o xogun e colocaram no poder o deus-imperador Meiji (1852-1912) na sua posição legal de soberano. Eles introduziram métodos ocidentais que modernizaram o país. Mas esses indivíduos utilizaram os mitos xintoístas para consolidar o regime imperial.

Durante um curto período, o budismo foi considerado um “produto importado”, sendo, conseqüentemente, reprimido. O novo governo colocou os templos xintoístas sob a supervisão do Estado e transformou os sacerdotes em funcionários públicos. Os japoneses tinham que prestar homenagem ao imperador divino, e não a conjuntos de divindades locais, Na escola, as crianças oravam para o retrato do tenno. E nas guerras subseqüentes, os heróicos soldados imperiais encararam a morte gritando “Tenno banzai” – “10 mil vidas para o tenno”.

Em 1869, o exército e a marinha japoneses construíram o templo Yasukuni, em Tóquio. Nesse santuário os guerreiros são reverenciados como divindades xintoístas que sacrificaram as suas vidas pelo tenno. Um portão imponente, construído em aço, em vez de em madeira tradicional, domina a entrada – simbolizando a perversão do suave “caminho dos deus”, que tornou-se uma ideologia marcial durante o período Meiji.

Depois da derrota do Japão na Segunda Guerra Mundial, o templo Yasukuni foi transformado em uma instituição religiosa privada. Mas ele preservou o seu caráter militar: apesar de terem sido executados em 1948, os criminosos de guerra do Japão são reverenciados como deuses xintoístas. Os políticos, incluindo até mesmo o primeiro-ministro Junichiro Koizumi, fazem peregrinações até o templo, gerando protestos dos vizinhos do Japão.

A capitulação após a Segunda Guerra Mundial também marcou o fim de uma era para a monarquia japonesa. Sob pressão do vitorioso Estados Unidos, o imperador Hirohito renunciou explicitamente à sua divindade em 1946. A constituição de pós-guerra – que foi de fato ditada pelos ocupantes norte-americanos – mantém a separação entre religião e Estado. Oficialmente o imperador é visto como um símbolo tanto do Estado quando da unidade do povo japonês.


No seu palácio em Tóquio, o tenno ainda atua como o mais graduado sacerdote xintoísta do Japão. De acordo com a tradição, ele planta arroz no jardim do seu palácio e manda regularmente enviados para os maiores templos do país.

Como parte da insígnia imperial – composta do espelho, da espada e das jóias sagrados -, o espelho fica no templo Ise, na municipalidade de Mie. O templo é dedicado à deusa solar. Um membro da família imperial atua como sumo-sacerdote. Os primeiros-ministros japoneses tradicionalmente visitam esse santuário xintoísta no início do ano.

O tenno reafirmou a sua linhagem a partir da deusa solar na sua coroação em 1990, embora o papel que desempenhou no ritual não tenha sido exibido publicamente. O imperador passou várias horas sozinho dentro de dois salões de madeira especialmente construídos, oferecendo vinho de arroz e pratos santificados ao seu ancestral primordial. Cada salão é dotado de uma cama, na qual – segundo a tradição – o tenno se relaciona com a divindade solar, e renasce nesse processo.

Se os patriotas que lideram o governista Partido Liberal-Democrata tiverem a supremacia, o xintoísmo será ainda mais fortemente privilegiado a fim de conter o declínio da moralidade tradicional na moderna sociedade japonesa.

“O Japão é um país de deuses, que tem o tenno no seu centro”, declarou em 2000 o primeiro-ministro Yoshiro Mori. À época, o seu comentário gerou protestos. Mas, hoje em dia, os pedidos para que se incluam os mitos xintoístas nos textos escolares, promovendo dessa forma a lealdade nacional, têm obtido cada vez mais aprovação.

Apesar desse caráter nacionalista, para muitos japoneses o xintoísmo pouco tem a ver com política. Esses japoneses estão mais interessados em preservar as suas tradições. Durante os feriados do Ano Novo, milhões de pessoas de todas as idades visitam os templos xintoístas para pedir a proteção dos deuses. Os visitantes oram por por si próprios, por suas famílias e até mesmo pelas companhias para as quais trabalham. Um grupo inteiro de trabalhadores pode comparecer junto para orar por bons negócios e altos lucros. Em um ritual simples, eles balançam uma corda dotada de pequenos sinos e jogam as suas esmolas em uma caixa de madeira para oferendas.

Existem espíritos xintoístas para todos os desejos e males. Muito próximo da Bolsa de Valores de Tóquio, o tempo Kabuto atrai investidores e acionistas que oram pelos bons preços das ações. O templo Kitano Tenmangu, em Kyoto, é o preferido dos estudantes e seus parentes, que desejam boas notas e ingresso nas melhores universidades.

O templo Togo, em Tóquio, também é muito popular. O santuário, que atrai japoneses que buscam alívio para todos os tipos de problemas, fica no meio do distrito da moda, o Harakaju, freqüentado pela juventude da cidade.

Muitos jovens pintam o cabelo de amarelo brilhante ou de vermelho radiante, e usam roupas bizarras, como se fossem pessoas que vão a uma festa de Halloween. Poucos parecem dar a mínima para a tradição. O patrono do templo é Heihachiro Togo (1847-1934), um almirante lendário que comandou a marinha imperial no Estreito de Tsushima, em 1905, onde destruiu a frota russa do báltico e acabou de fato com o império tzarista.

Os jovens japoneses em Harajuku pouco sabem sobre a História, e tampouco se preocupam com ela. Mas eles ainda freqüentam o templo em multidões. Para eles, Togo é um ancestral que virou deus e que fará com que os seus sonhos mais seculares, na verdade até carnais, se tornem realidade. Assim sendo eles compram pequenas tábuas de oração que trazem a imagem do almirante barbudo, entalham os seus desejos nelas, e as penduram. Depois disso, postam-se de pé defronte ao templo, fazem duas mesuras, batem palmas duas vezes e fazem mais uma mesura. Eles estão seguindo o chamado da tradição, da mesma forma que gerações de japoneses fizeram antes deles.


Texto : Wieland Wagner

Tradução: UOL

Leia o texto na íntegra aqui.

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O Ritual do Banho

Banho

Seja em rios, lagos, termas públicas ou banheiras particulares, banhar-se é um dos rituais mais antigos da humanidade. Além de ter como objetivo a higiene pessoal e a estética, o ato de banhar-se também era e ainda é visto em muitas religiões como um rito de purificação do corpo. O texto abaixo conta um pouco da história desse rito em diferentes lugares e culturas.

Durante a Idade Média, os ocidentais abandonaram os sofisticados rituais de limpeza da Antiguidade e mergulharam numa profunda sujeira. Principalmente por causa da religião, o homem medieval comum achava suficiente tomar um banho por ano. Foi preciso muito tempo – e alguns bons exemplos dos povos orientais e indígenas – para que voltássemos às nossas asseadas origens.

Pesquisadores acreditam que todos os povos, desde tempos imemoriais, tenham praticado alguma forma de higiene pessoal. Os primeiros registros do ato de se banhar individualmente pertencem ao antigo Egito, por volta de 3000 a.C. Os egípcios realizavam rituais sagrados na água e tomavam ao menos três banhos por dia, dedicados a divindades como Thot, deus do conhecimento, e Bes, deus da fertilidade.

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“Mais do que limpar o corpo, eles presumiam que a água purificava a alma”, diz o egiptólogo francês Christian Jacq, fundador do Instituto Ramsés, em Paris. “A crença valia tanto para a realeza, cortejada com óleos aromáticos e massagens aplicadas pelos escravos, quanto para as populações mais pobres, que recorriam inclusive a profissionais de rua quando não conseguiam tratar da própria beleza.” O apreço pela higiene é o motivo ao qual arqueólogos atribuem a sobrevivência dos egípcios às pragas e doenças que assolaram a Antiguidade.

A Grécia foi outro local em que os banhos prosperaram. Em Cnossos e Faístos, na ilha de Creta, é possível encontrar bem preservados palácios de 1700 a.C. a 1200 a.C. que, até hoje, surpreendem por suas avançadas técnicas de distribuição da água. “Todo banquete que precisava ser luxuoso incluía uma sessão de banho para os convidados”, explica Georges Vigarello, professor de Ciências da Educação da Universidade de Paris-5.


Embora os gregos tenham iniciado a prática dos banhos públicos no Ocidente, os pioneiros nos balneários coletivos foram os babilônios. A diferença é que, na Grécia, o banho não era motivado apenas pela higiene e espiritualidade. Entre 800 a.C. e 400 a.C., o esporte, particularmente a natação, era um dos três pilares da educação juvenil – ao lado das letras e da música. Bom cidadão era aquele que sabia ler e nadar, como comprovam imagens presentes em centenas de vasos de cerâmica pintados naquela época.

Os romanos herdaram muito da cultura da Grécia, incluindo a adoração pelo banho. Mas, entre eles, esse hábito tomou proporções inéditas. Enquanto construíam um dos maiores impérios de todos os tempos, os romanos levavam a suntuosidade de suas termas (enormes balneários públicos) aos mais diversos lugares.

Clique aqui para ler o artigo acima na íntegra.

Clique aqui para ler sobre como o ritual do banho é praticado por hindus, japoneses, muçulmanos e judeus.

Clique aqui para ler sobre o hábito do banho entre os índios brasileiros.

A foto acima é de Paulo Gama.


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Medusa e o Jardim das Hespérides

Medusa

Na mitologia grega, Medusa (do verbo medein [mesmo radical que dá origem ao nome Medéia ], proteger, guardar; portanto, ‘protetora’, ‘guardiã’) é uma personagem feminina ctônica monstruosa que teve origem em máscaras rituais usadas para afastar maus espíritos. Ela podia transformar qualquer um que olhasse para si em pedra e tinha duas irmãs imortais, Esteno ou Estenusa (“forte”) e Euríale (“aquela do mar vasto e salgado”); as três eram chamadas de Górgonas (“terríveis” ou, segundo alguns, “que rugem alto”).
As referências clássicas às três Gorgonas aparecem em várias histórias: Medusa, Estenusa e Euríale tinham dentes pontiagudos, olhos esbugalhados e línguas saindo para fora da boca, asas de ouro, mãos de bronze e, ao invés de cabelos, cobras venenosas sobre suas cabeças. Eram filhas de Fórcis e Ceto ou, segundo outras histórias, de Tifão e Equídina, todos eles monstros ctônicos do mundo antigo.


Em pinturas de vasos e obras de arte em relevo da Grécia antiga, Medusa e suas irmãs são sempre representadas como seres de formas monstruosas, mas escultores e pintores do século V começaram a personificá-las como criaturas terríveis e simultaneamente belas. A versão do mito de Medusa mais difundida entre nós foi escrita pelo poeta romano Ovídio. Em As Metamorfoses, Medusa é uma belíssima ninfa que é seduzida por Poseidon num templo de Atena e, como castigo, é transformada pela Deusa numa criatura horrenda que podia transformar quem a olhasse numa estátua de pedra.
Para o propósito deste artigo, a versão do mito que nos interessa é a original grega, a de Medusa como guardiã. Se ela era uma guardiã, o que ela protegia? Esta é a pergunta que me trouxe ao que vem a seguir. Segundo Hesíodo, as Górgonas habitavam o Oceano Ocidental, que é como os gregos chamavam o Oceano Atlântico, perto do lugar onde se dizia que estava o Jardim das Hespérides. Segundo o mito, quando Zeus se casou com Hera, ela recebeu de Gaia lindas maças (pomos) como presente de casamento. A pedido de Hera, as maças foram plantadas num jardim bem longínquo no extremo Ocidente e as Hespérides – Egle, Erítia e Héspera – eram ninfas que zelavam por esse Jardim. Diz-se que lá havia uma grande macieira de onde nasciam pomos de ouro, os pomos da imortalidade, que também eram guardados por um dragão de cem cabeças.
As Hespérides também são chamadas de Damas do Oeste, Filhas do Entardecer ou Deusas do Sol Poente. Diz-se que são filhas de Nyx (Noite) e Érebus (Escuridão). Segundo outros relatos, seriam filhas do próprio Zeus, de Atlas ou de Fórcis e Ceto, os pais de Medusa.

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É relativamente fácil constatar que há muitas semelhanças entre o Jardim das Hespérides e o Jardim do Éden da mitologia judaica. Em ambos está metaforicamente presente a origem obscura da vida, o princípio de tudo. Ambos são locais da mais sagrada importância imaginável. Na antiga mitologia grega, porém, Deuses e mortais eram muito semelhantes, partilhavam das mesmas faltas, virtudes e paixões. O que os separava era apenas uma qualidade: a imortalidade. Enquanto os seres humanos estavam fadados à morte, os Deuses viveriam ad eternum. Por esse motivo, o Jardim das Hespérides tinha guardiães, entre eles a terrível Medusa, para que só os valorosos conseguissem adentrá-lo para pegar os pomos de ouro da imortalidade. Na mitologia judaica, Deus, Adão e Eva são iguais, passeiam e conversam no Jardim do Éden. Porém, após comerem o fruto proibido da Árvore do Conhecimento do Bem e do Mal, dissipa-se a similitude e eles são banidos do Jardim, na porta do qual o Deus hebraico põe um querubim (tipo de anjo da mitologia hebraica), armado com uma espada flamejante que apontava para todas as direções. Assim como Medusa, esse querubim é um guardião daquele lugar sagrado.
Assim como muitos outros guardiães, como o querubim ou os guardiães nas entradas de templos budistas, Medusa é um arquétipo do guardião do limiar. Eles guardam a passagem a outro nível de consciência e seu papel é advertir aqueles que querem ultrapassar o limiar para que o façam cônscios.
Entre os raros heróis que conseguiram chegar até o Jardim das Hespérides está Perseu, que decepou a cabeça da Górgona e também Héracles (Hércules), que conseguiu alguns pomos dourados que mais tarde seriam devolvidos por Atena a seu lugar de origem.

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A Geografia das Religiões

Mapa

Esta animação em flash mostra a geografia das principais religiões do mundo inteiro: Hinduísmo, Budismo, Judaísmo, Cristianismo e Islamismo. Períodos de tensão entre elas também são mostrados. É uma apresentação compacta, instrutiva e interessante. Vale a pena vê-la.

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